ACND


Eu nunca gostei muito daquelas áreas curriculares meio coisas, em que parece que se quer ensinar algo que deveria ser função principal da socialização familiar ou em que se predominam as “transversalidades” típicas do tal discurso eduquês que muitos foram criticando, antes ou depois, mas nem sempre com grande coerência.

Com a Área-Escola, a falhada disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social, foi uma das pioneiras experiências em matéria de ACND.

Há quem na altura tenha teorizado tanto em seu redor e sua defesa, quando algum tempo depois pela sua extinção.

Só não muda quem não é burro e/ou flexível ao espírito dos tempos.

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“Formação pessoal e social na estrutura curricular” in Diário de Notícias – Domingo, 4 de Fevereiro de 1990

 

… desde que não seja em aulas. A AP acaba e o EAcompanhado não se percebe bem, mas não para reforçar as outras disciplinas. Querem a miudagem na escola, mas a fazer qualquer coisa.

Os alunos do 2º e 3º ciclos vão ter, em média, menos 4 horas de aulas por semana

Ana Benavente no Público de hoje (sem link):

A área de projecto visa preparar os jovens para uma articulação profissional, social e cívica dos saberes. A compreensão de uma questão ambiental, que pode ir desde a reciclagem do lixo até à leitura de catástrofes ecológicas, exige, entre outros, conhecimentos de História, de Geografia, de Matemática, de Biologia, de Física, de Química, e utiliza suportes linguísticos, suportes visuais e por aí fora. Visa a formação de pessoas responsáveis e atentas local e globalmente à acção humana sobre o planeta. Poderia ilustrar a importância desta área com muitas outras situações e problemas, individuais e colectivos, da saúde à economia.

Há asneiras que só faz bem serem travadas quanto antes. Há coisas que só pecam por tardias. As razões imediatas para isso são outra conversa, assim como o uso a dar às horas de AP e EA.

Agora o que não consigo é andar anos a criticar uma coisa por existir sem grande enquadramento e sentido e, quando decidem acabar com ela, criticar essa decisão.

A Educação está cheia de cataventos. E há gente que deveria perceber que certas alianças, as são apenas de ocasião, até que alguém sinta que já lhe dão a atenção que julga merecida na 5 de Outubro por favores passados.

Pais chumbam bandeiras na educação deixadas a meio

Professores acompanham encarregados de educação nas críticas ao ministério.

Pais e professores dão nota negativa a algumas das bandeiras do Ministério da Educação (ME). Estudo Acompanhado e Área Projecto deixados a meio, a continuidade da formação cívica questionada, professores colocados nas escolas apenas por quatro anos e o reordenamento da rede escolar são as medidas mais criticadas.

“O que precisamos é de bandeiras que sejam concretizadas e continuadas”, defende o secretário-geral da Federação Nacional de Educação. Para João Dias da Silva, “há no nosso país um certo sentimento autofágico”. E justifica: “Achamos sempre que estamos a fazer a última moda e que é melhor do que a anterior.” Algo que é visível, por exemplo, na criação das áreas curriculares não disciplinares de Estudo Acompanhado, Área Projecto e Formação Cívica.

“A redução das aulas de 50 para 45 minutos, criando estas áreas transversais, foi uma invenção da secretária de Estado da Educação de António Guterres, Ana Benavente”, recorda Dias da Silva, frisando que a FNE sempre se opôs a esta decisão. “Agora acaba-se com elas sem se saber o que vai acontecer a esses períodos”, adianta. No caso da Área Projecto, a disciplina pesava na classificação final do aluno e podia ditar a sua retenção em caso de negativa.

O presidente da Confap traça duras críticas ao fim do Estudo Acompanhado e da Área Projecto, mas recorda que “os projectos estão a correr e mesmo que o Orçamento seja aprovado, isso só se aplicará no próximo ano lectivo”. “Agora esses créditos de horas serão geridos pelas escolas, seja para acompanhar o estudo, seja para os projectos ou até para formar alunos”, frisa. Porém, Albino Almeida não deixa de criticar o “corte cego” nos orçamentos das escolas, devido à interferência do Ministério das Finanças.

Em tempos de crise não é possível ser muito selectivo na escolha dos aliados, mas há um mínimo de exigência a cumprir.

«Estudo acompanhado» só para alunos com «necessidades efectivas»

Mas é reconhecida a minha sinusite crónica.

O Arlindovsky fez as contas às poupanças que são possíveis com a eliminação da Área de Projecto (já decidida) e do Estudo Acompanhado (prevista no OE) na sua escola e agrupamento.

A minha mercearia tem mais ou menos o tamanho da dele. De acordo com as ditas contas será possível ao ME eliminar 8% dos docentes do agrupamento dele (mais de 10%, por certo na EB 2/3). As minhas contas vão pelo mesmo caminho, na visão maximalista dos cortes.

Apesar disso, e como acredito no Pai Natal e Coelho da Páscoa, quero acreditar que a eliminação das ACND não vai ser feita às secas, acabando pura e simplesmente com aquela carga lectiva, mas que haverá redistribuição, no mínimo, de metade dela pelas disciplinas que perderam horas.

Mas, mesmo na versão mais curta (eliminação das horas em par pedagógico no 2º CEB, mas manutenção da carga horária), os cortes atingirão pelo menos 3 a 4 docentes da escola-sede, ou seja perto de 5% do corpo docente.

Se multiplicarmos isto por todo o país (e não se percebe o que acontecerá com a AP no Secundário), podemos enfrentar uma redução de (assim por alto) uns 10.000 docentes na versão maximalista e de, pelo menos, uns 3-4.000 na leitura mais simpática.

Eu acho que as ACND tal como estão a funcionar, fazem escasso sentido, a começar pela Área de Projecto. Mas não defendo a sua eliminação sem as horas que foram perdidas por outras disciplinas não sejam recuperadas.

Quem tiver outras contas ou ideias, faça favor de as apresentar…

E quem era contra as ACND porque não serviam para nada e agora se preocupa com as horas eventualmente perdidas era bom que repensasse ao que anda e se tem alguma convicção sobre alguma coisa.

Porque não adianta ser catavento do contra. Para isso já há suficientes no mercado.

Manter a Área de Projecto, depois de uma década a dizer mal, só porque dá horas que dão jeito a um par de grupos disciplinares é que nos deixa a pensar se muita gente não anda apenas a bolinar no meio disto tudo.

No Público:

A ex-secretária de Estado da Educação, Ana Benavente, responsável pela introdução das áreas não disciplinares nos currículos do básico e secundário discorda da decisão. “Acabar com a AP é apenas mais um passo num retrocesso para a escola tradicional.”, alerta.
A AP tem como objectivo ensinar os alunos a pensar e a trabalhar “além das disciplinas desgarradas e sem nenhuma articulação umas com as outras, dando sentido aos saberes (Português, linguas, Matemática, Ciências, História, etc.). É esse o sentido da Área Projecto. Aprender e exercitar em torno de problemas reais, sejam ambientais, sociais ou outros.”, lembra.
Ana Benavente admite que trabalhar desse modo “só faz sentido com autonomia das escolas, com professores com liberdade de acção pedagógica e com objectivos que, para além de instruir, pretendam que os alunos sejam cidadãos cultos e capazes de intervir na sua realidade.”

As ACND, herdeiras múltiplas da fracassada Área-Escola, são algo que – vamos lá ser muito cândidos na apreciação – serve para encher o horário dos miúdos com algo que nem é lúdico, nem é claramente significativo para as aprendizagens. É uma espécie de gaivota flambeada com bacalhau demolhado. Não são carne, não são peixe, mas são tudo isso e mais ou menos.

A Formação Cívica tem alguma utilidade. O Estudo Acompanhado pode ser transformado, com ganho, em horas que foram retiradas às disciplinas duras e a Área de Projecto é algo em forma de não sei bem o quê pois se é para desenvolver projectos transversais, então que os mesmos sejam desenvolvidos de outro modo.

Sei do receio de quem acha que isso retirará, em especial no 2º CEB, carga horária aos docentes nos casos em que a área é leccionada por dois professores. Mas não estão sempre a adizer que o curículo não se deve nortear pelos interesses dos docentes mas sim da aprendizagem dos alunos?

Entre extinção e redução, são mais de 90% das respostas. Parece-me algo bem claro.

Eu confesso que reduziria a Formação Cívica a 45 minutos e, quanto muito, manteria 90 minutos para algo como o Estudo Acompanhado mas nos moldes inicialmente idealizados e não como extensão de outras disciplinas. Quanto a projectos, se são transversais e transdisciplinares, não precisam de uma área específica.

Isabel Alçada em entrevista à revista Única do Expresso:

Também quer reorganizar os currículos do ensino básico. Os alunos chegam a ter 13 cadeiras. VAi acabar com algumas disciplinas?

NAs áreas não curriculares, como Educação para a Cidadania, Estudo Acompanhado e Área de Projecto, pode haver uma absorção. Há uma equipa a trabalhar numa proposta. Mas, para além da grelha curricular, podemos mexer na gestão do tempo. Estamos a analisar as vantagens e inconvenientes de ter aulas de 90 minutos. É uma matéria que, no quadro da maior autonomia de decisão das escolas, pode ser reequacionada.

Vai reduzir o tempo das aulas?

Tenho colocado esta questão nas reuniões com directores. Alguns acham óprimo haver blocos de 90 minutos, outros preferiam de outra forma. Temos de ponderar em função da sensibilidade das pessoas que estão nas escolas.

Ora muito bem, finalmente alguma luz nas trevas.

Esqueçamos que a disciplina é Formação Cívica e que em vez de absorção se deveria falar em fusão quanto às ACND. Só a possibilidade de estas áreas-coiso verem o seu espaço um pouco reduzido é razão para foguetório. O mesmo em relação à possibilidade de fazer as aulas de 90 minutos regressarem ao sítio de onde vieram – a cabeça dos teorizadores – pelo menos no caso de algumas disciplinas.

Quanto à opinião dos directores é sempre interessante mas, em boa verdade, são ele(a)s exactamente quem não dá aulas numa escola. Até pode dar-lhes jeito para reduzir os intervalos e organizar os horários, mas em termos pedagógicos, em algumas disciplinas, em particular quando a carga horária é apenas de 90 minutos semanais, mais vale distribuí-la por duas aulas semanais mais curtas.

Penso eu de que… mas já vou colocar uma sondagem.

Inclusão do tema Mar na Área de Projecto dos ensinos básico e secundário

A Comissão Interministerial para os Assuntos do Mar, da qual o Ministério da Educação faz parte, aprovou o projecto do plano de acção “Comunicação e Sensibilização para o Mar”.

Neste sentido, foi elaborado um documento orientador, destinado às escolas e aos professores dos ensinos básico e secundário, com vista à implantação do projecto “Inclusão do tema Mar na Área de Projecto e em recursos educativos dos ensinos básico e secundário”.

O documento orientador fica aqui.

Ainda de acordo com o relatório abaixo usado do BPI, temos acesso a mais dados da OCDE, do seu Education at a Glance mais recente, datado de 2008 por fora, mas com os dados relativos a 2006 por dentro, portanto já com esta vigororsa equipa ministerial a indicar-nos o caminho do sucesso.

E há um quadro que me salta aos olhos e de onde ressaltam evidências. É aquele em que se faz uma análise do tempo relativo ocupado pelas diferentes matérias no currículo dos alunos.

Repare-se como dos 9 aos 11 anos temos apenas 15% do tempo dedicado à leitura e escrita contra 25% na OCDE e 12 %à Matemática contra 16% (17% na UE). Perdemos ainda em Estudos Sociais e ganhamos alguma coisa em Línguas Estrangeiras e Artes. Mas onde somos mesmo bons é na área disciplinar de «Outros» onde ocupamos 20% do tempo contra 11% na OCDE e 5% na UE.

Algo parecido se passa na faixa etária dos 12 aos 14 anos em que 18% do tempo dos alunos portugueses é gasto na aprendizagem de «Outros», enquanto a média da OCDE se fica pelos 11% e da União Europeia pelos 9%.

Claro que nós sabemos o que são estes «Outros». São as nossas originais e bué inovadoras ACND.

Que, pelos vistos, não polvilham os currículos da malta lá por fora. Mas cá ocupam tempo que se farta. Depois, para disfarçar, mandam usar o Estudo Acompanhado para actividades de Língua Portuguesa e Matemática para compensar. Ou mesmo a Área de Projecto. O que é um contra-senso. Se é para dar Matemática e Língua Portuguesa, então porque não lhe chamar assim?

Mas tudo bem. Pelo menos, fica à vista que a aposta curricular nacional é na área dos «Outros».

se calhar estou errado e é alguma coisa ligada à Multiculturalidade e eu é que não estou a perceber.

Para a compreensão da área de estudo acompanhado

Este artigo é interessante porque aponta como sentido privilegiado para a existência do Estudo Acompanhado aquilo que está a ser abandonado. Ou seja, em vez de um «interface curricular» transformaram-no em explicações e Língua Portuguesa e Matemática

O ME insiste em querer fazer passar a mensagem de que está a organizar de uma nova forma o 2º CEB. De tanto repetir a lengalenga é possível que quem não esteja no terreno acredite que é mesmo assim.

Agora quem lecciona o 2º CEB há mais de 15 anos e na maior parte deles acumulou a docência de Língua Portuguesa e História e Geografia de Portugal, começa a ficar um pouco farto desta nova manobra comunicacional destinada a tentar mostrar serviço sem fazer nada.

Antes de mais temos a manobra de diversão:

Na prática, os alunos do 5º e 6º anos deverão passar a ter menos dois professores por turma, apesar de manterem o mesmo número de disciplinas.
Com esta medida, o Governo pretende reduzir o número de docentes, de forma a facilitar a transição das crianças para o segundo ciclo, uma vez que no primeiro estas lidam apenas com um ou dois professores.

Quem sabe como as coisas se passam certamente perceberá que nem a maioria dos Conselhos de Turma ficarão reduzidos em dois elementos, nem há qualquer indicador – mesmo martelado – que indicie problemas na transição do 1º para o 2º CEB, por exemplo em termos de insucesso.

Depois temos a pura e simples manipulação dos factos quando se lê que:

O regime de professor por área, e não por disciplina, já estava previsto na Lei de Bases do Sistema Educativo, aprovada em 1986, mas o Ministério da Educação considera nunca ter sido aplicado nas escolas de forma generalizada, nomeadamente devido a uma “prevalência de critérios de natureza administrativa em detrimento dos de natureza pedagógica”.

Se o regime nunca foi aplicado nas escolas «de forma generalizada» nunca disso tivemos notícia, seja como resultado das inspecções da IGE, seja de queixas específicas dos Encarregados de Educação (e olhem lá que se fosse assim a Confap albiniana teria certamente clamado por isso) ou outros interessados. e a «prevalência de critérios de natureza administrativa» fica por esclarecer e, se existiu, quem foi responsável por tal. Mas este ME é especialmente afoito em afirmações indemonstráveis com quialquer tipo de prova palpável. Há algum estudo sobre a dimensão dos Conselhos de turma no 2º CEB?

E, para além issso, é estranho que só para o último ano lectivo do seu mandato esta equipa ministerial tenha descoberto esta pseudo-espécie de pólvora curricular.

(Eu cá acho é que se prepara um banho de sucesso nas provas de aferição do 6º ano mesmo em cima das próximas eleições e há que arranjar um nexo causal atribuível a uma medida ministerial)

O que é possível que se esteja igualmente a passar é uma estratégia para ir preparando o caminho para a reformulação do diploma sobre as habilitações para a docência, de modo a aconchegar dentro de poucos anos os tais professores generalistas que estão a ser creados em aviário e que, em boa verdade, neste momento ainda não têm onde se encaixar na actual orgânica dos ciclos de ensino e estrutura curricular.

E depois há aquela ideia peregrina de colocar a Área de Projecto ao serviço do Plano de Acção para a Matemática – vai ser cá um sucesso nas provas do próximo ano – mas não de aumentar os tempos lectivos da própria disciplina. O que é engraçado porque se a Matemática e Estudo Acompanhado forem leccionadas pelo mesmo docente e se dedicarem à mesma matéria, fica por perceber o sentido da duplicação de designações curriculares. E quanto ao apoio específico aos alunos imigrantes, que não têm o português como língua materna, será interessante explicarem como isso se faz num contexto de grupo-turma e não num apoio mais individualizado de pequeno grupo. Colocam-se uns a estudar Matemática e dois ou três a fazer outra coisa? A sério? Eu sei que é uma diversificação de estratégias de trabalho, mas será que os «não-maternos» não ficarão a perder em termos de Matemática?

Uma coisa eu até posso admitir: esta medida não é tendencialmente economicista, pois as horas disponíveis continuam a ser mais ou menos as mesmas (irão ser reduzidas algumas horas de apoio, apenas). Apenas pretende é legitimar a existência das ACND, encontrando-lhes uma utilidade e conteúdo que não os iniciais, agora completamente esquecidos.

Ou seja, em vez de se reforçarem as áreas disciplinares, mantém-se uma pulverização do currículo sem grande sentido, só que acoplando as ACND aos conteúdos e trabalhos de Matemática e Língua Portuguesa.

É apenas uma forma de encobrir um erro do passado, da anterior passagem do PS pelo Governo e pelo ME, quando inventou as ACND.

Há assuntos que são recorrentes em muitos dos meus posts, mas verdade se diga que isso apenas retrata o que se vai passando em matéria de Educação Não-Superior e do funcionamento das Escolas.

Se estiver sol durante semanas, o boletim meteorológico não vai dizer que choveu, só para não ser monótono.

Passa-se um pouco o mesmo com a questão da retórica da autonomia tão usada pelo ME sempre que convém enunciá-la, mas que depois nunca coloca em prática. Ou com a utilidade das ACND.

Hoje saiu em DR o despacho (que ganhou o n« 19308/2008) já aqui tratado por duas vezes sobre a organização e gestão do currículo no Ensino Básico, em especial no 2º CEB. Um dos pretextos é uma maior regulamentação das Áreas Curriculares Não Disciplinares, embora no intróioto se afirme o contrário:

A verdade é que, pouco depois, o despacho passa a enumerar os temas que devem ser tratados nas ACND, como isso deve ser feito, quem deve ser envolvido, a quem devem ser atribuídas as ditas ACND, etc, etc.

Não interessa que se proclame que as ACND «constituem espaços de autonomia curricular da escola e dos professores» no 3º parágrafo do diploma ou, mais abaixo, que os «conselhos executivos» (esqueceram-se da figura do «director»?) devem ter um papel preponderante na sua organização. O que interessa é esvaziar em seguida toda essa autonomia, preenchendo todos os espacinhos possíveis e imaginários das ditas ACND com programas informais e recomendações sobre quem deve leccioná-las e como.

No fundo, pretende-se que as ACND – e por uma vez – se tornem uma espécie de tempo escolares que servem para apoiar as disciplinas, mas não são disciplinas. Que são destinadas a melhorar a aprendizagem, mas cuja avaliação quase nada contribui para a avaliação final dos alunos. Enfim, que servem para ocupar o tempo dos alunos na escola, mas sem verdadeiramente os ocupar de forma muito responsável.

Na prática o que o ME pretenderia era transformar o currículo numa imensa sucessão de Áreas Curriculares Não Disciplinares. Por obrigação dos testes internacionais, manter-se-iam as disciplinas de Língua portuguesa e Matemática, talvez Inglês porque serv para atender melhor os camones nas esplanadas do All-garve e tudo o resto seria uma imensa extensão de ACND, sem avaliação formal consequente, com um programa cheio de coisas politicamente correctas, em suma, uma espécie de recreio disfarçado de sala de aula, com muitas actividades criativas.

Como projecto para ATL é interessante. Para melhorar as aprendizagens no estado de (escassa) consolidação da evolução do nosso sistema educativo é de uma enorme falta de sentido.

Mas, verdade se diga, Valter Lemos é coerente há 20 anos nesta sua forma de ver a infantilização e o esvaziamento curricular como único caminho para a fabricação do sucesso educativo.

Que o deixem despachar à vontade, é toda uma outra discussão.

Após as regras para fazer horários, organizar o ano lectivo e respectivo calendário, temos então o tal despacho sobre como devem ser atribuídas e leccionadas as ACND.

Falta agora o despacho sobre a indumentária apropriada para os professores, modelo de cortinas e/ou persianas nas janelas das escolas, horário adequado para espirrar e quantos docentes podem estar ao mesmo tempo no WC, sem que isso atente contra a boa ordem.

É sempre emocionante ver o apelo à Lei de Bases quando convém, como no penúltimo parágrafo da primeira página.

E depois todo a definição do programa informal, por despacho, da Área de Projecto e da Formação Cívica.

Não esquecer ainda que vai ser preciso planificar isto tudo no P.C.T. e depois fazer os respectivos relatórios no final, porque é tudo isso que melhora as aprendizagens.

Desde que fique registado em papel é que conta e só assim é que há garantia de desenvolvimento das necessárias competências. Se não existir relatório ou formulário preenchido os alunos não desenvolveram nada.

… que vão dar-se alterações na organização das ACND, ao que parece mais para perto do final deste mês.

Pelos rumores que se vão percebendo, há decisões que se adivinham, no mínimo, polémicas porque implicam a desvalorização de alguns grupos disciplinares em favor de outros, cada vez mais tidos como «prioritários».

Com consequências directas na forma de organizar horários e de os atribuir.

Mas, como de costume, tudo imposto de cima para baixo, que a «autonomia» é coisa só para basbaque acreditar.

Quem sabe de algo mais concreto e quer divulgar? A começar pelos sindicatos?

A avaliação da operacionalização da Área de Projecto no ensino secundário permite concluir que esta área curricular tem pertinência neste nível de escolaridade, na medida em que possibilita a congregação de saberes e de competências desenvolvidos noutras disciplinas, potenciando práticas de interdisciplinaridade.

Assim, o GAAIRES recomenda a continuidade da Área de Projecto no currículo dos cursos científico-humanísticos do ensino secundário, no formato actual, quer no que diz respeito ao ano de escolaridade em que é leccionada, quer quanto à carga horária. (ME)

E aqui fica o relatório completo do GAAIRES para quem quiser consultar (gaaires4.pdf).