A Manifestação


Não basta sair à rua é preciso saber para onde

O mais difícil parecia ser juntar tanta gente sem o chapéu-de-chuva dos partidos, das jotas ou dos sindicatos. Conseguido isso: soube a pouco.

Pacheco Pereira vive no planeta “azia”?

O protesto visto pelos jornais lá fora

A imprensa estrangeira também acompanhou a manifestação da “Geração à Rasca“. Clique para visitar o dossiê Geração à Rasca

Diga-se o que se disser, retorçam-se as análises por onde se retorcerem, foi um enorme sucesso, contra diversas expectativas, incluindo as minhas.

Já ontem o disse, não me sinto à rasca como aqueles que animaram a convocatória da manifestação, pois já passei por isso muito tempo, a bem dizer muitos anos, em tempos em que por muito currículo ou média que tivesse não havia bolsas que caíssem no meu bolso, pois havia apenas as suficientes para alimentar as clientelas de então.

Fui quadro de escola aos 40 anos, mas vivi sozinho desde os 22, quantas vezes desempregado, outras em duplo ou triplo emprego.

Conheço a sensação de andar à rasca, mas é honesto declarar que não é isso que sinto agora. Bem ou mal, melhor ou pior, não estou à vontade como muitos, mas não estou tão mal como muitos mais.

Quanto à minha petiza, ainda está a uma década de se preocupar com o Erasmus e ainda a mais da globalização da mão-de-obra qualificada (que raios, há uns tempos era um desejo, agora é motivo de queixas?).

Pelo que não fui, não participei, nem como fotógrafo de ocasião.

Mas isso não me impede de achar que este protesto – apesar das lacunas num programa inexistente (se o tivessem, seriam criticados por o terem…) e de ter agregado muita gente com projectos bem diversos de sociedade (até monárquicos e nacionalistas apareceram) – seja algo que deve ser tido em conta: há espaço na sociedade civil para manifestações de insatisfação desenquadradas das bandeirinhas e autocarros do costume.

Apesar de ser uma manifestação que, em grande medida, evocou um certo ideário de esquerda, foi uma manifestação que não pode ser facilmente catalogada ou menosprezada como menor, algo que se reparou ter acontecido em alguns franjas da opinião política. À Esquerda estas coisas, algo inorgânicas, só são agradáveis num primeiro momento, enquanto à Direita há sempre aquele horror epidérmico a tudo o que seja manifestação anti-poder.

Mas então, quais as consequências de uma manifestação destas, sem um programa claro, trangeracional, transversal em termos políticos, ordeira, festiva?

Por enquanto, poucas.

Mas… foi um aviso que deve ser entendido, quer pelo Governo que está, quer pelo Governo que se perfila. Declarações algo parvas, como as do ministro Santos Silva, piadolas de gosto mais do que duvidoso pela esquerda beto-chic ou análises pela metade, como as de alguns gurus do novo PSD (reporto novamente à lamentável prestação de Rui Ramos ontem na SICN) que pura e simplesmente vivem num mundo diáfano de teorias e nenhuma transpiração diária, são um mau sintoma e significam que o divórcio entre o chamado país real e o país político institucional está ainda longe de aumentar.

Por enquanto foi tudo assim, florido, alegre, pacífico.

E se um dia não for assim…?

E se um dia não estiver ali principalmente gente licenciada, mestrada e bolonhizada, amargurada, mas no fundo muito suavizada nos modos, ou os seus pais?

Fotos do João Francisco

Não vi com extrema atenção as análises feitas nas televisões sobre a manifestação à rasca de ontem. Parei alguns minutos em várias delas, fiquei uns 15-20 minutos nas da SICN (com António José Teixeira a moderar) e TVI24 (com Constança Cunha e Sá). Tirando uma frase de CCS – algo como afinal, com o PEC4, passámos todos a ser precários – só Adelino Maltez parecia estar no mesmo país que eu habito (em termos físicos e mentais) e com que os manifestantes protestavam.

O resto foi um quase completo desenrolar de análises pré-formatadas pelas crenças políticas dos autores. Ou pela ausência de algo que dizer de substantivo. Pela negativa, um Ricardo Araújo Pereira na TVI24 claramente a cumprir calendário, sem nada para dizer, tirando um ou outro àparte engraçado e Rui Ramos, na SICN, a demonstrar o quanto o círculo que quer cercar (ou já cerca) Pedro Passos Coelho tem horror a tudo isto, uma coisa que não se pode, sei lá… Ao lado dele, Costa Pinto ainda deixava entrever 10% do que efectivamente deve pensar sobre o que se passou, mas Rui Ramos limitou-se a debitar um discurso perfeitamente anacrónico e quase ofendido porque na manifestação se notava uma maior inclinação para slogans de Esquerda.

Tão mau quanto um ortodoxo marxista das massas é um ortodoxo anti-marxista das massas.

Quando a análise de um fenómeno social abandona critérios de compreensão, para apenas se limitar a rejeições por preconceitos ideológicos, estamos mal, muito mal, se é isto que se está a preparar no horizonte. Os jovens à rasca podem ter diversas lacunas no seu protesto (e eu acho que sim…), mas desprezar o seu protesto porque faz lembrar manifestações antigas associadas ao 25 de Abril e 1º de Maio não é miopia, é cegueira mesmo.

A manifestação da geração à rasca nos 3 canais de televisão, são mais de 30 minutos

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Os Homens da Luta e os participantes na manifestação – A luta é alegria.
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A resposta do partido socialista, os políticos e a manifestação: José Sócrates, Augusto Santos Silva, José Manuel Coelho, Carvalho da Silva e Jerónimo de Sousa.
Compilação do Calimero Sousa

Coimbra

Faro

Funchal

Ponta Delgada

Porto

E ainda Braga e Castelo Branco.

Compilação do Livresco

Leiria

Viseu

A partir de comentários do Filipe.

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