A Lógica Do Tubérculo


Como é que uma central sindical pode aderir a uma greve geral contra as medidas de um Orçamento, cuja aprovação defende?

OE2011: UGT defende aprovação «sob pena de males maiores»

Orçamento é «mau», diz João Proença, mas «o país precisa» dele.

Confesso que em relação a João Proença as minhas expectativas são sempre muito baixas, mas mesmo assim, desta vez, conseguiu surpreender-me.

… mas só aprovam as medidas porque precisam de «alargar a base tributária»? Ou seja, se não houvesse crise grave, a corrupção era tolerada e fechavam os olhos à evasão fiscal ?

Governo anuncia novo pacote de combate à fraude e evasão fiscais

O Governo vai propor um conjunto alargado de alterações legais no Orçamento de Estado de 2011 com vista a combater a fraude e evasão fiscais, e de modo a aumentar a base tributária.

Porque será que muitos daqueles que mais combatem (ou dizem que combateram) a unicidade sindical, na classe docente ou fora dela, de súbito são grandes promotores dessa mesma unicidade em matéria de individualidades e opiniões sobre matérias sensíveis, nomeadamente na área da Educação?

A crítica à unicidade quando nasce(u) não é para todas as situações? É que eu cá não gosto de misturar casacas…

… naturalmente que fala.

 A realidade é sempre outra, a conveniente, a perdida ou a não obtida.

É quase impossível não citar praticamente toda a entrevista de ontem de MLR. Veja-se a seguida pergunta/resposta:

Todas as reformas que foram feitas contra os professores acabaram por ser inviabilizadas…

Não necessariamente. Acho que há sempre movimentos de resistência, mas isso não é uma característica do ensino ou dos professores. A minha primeira reacção a essas afirmações é sempre perguntar em que factos se baseiam, quais são os factos, qual é a prova? Não se comprovou. Acho que encontra na história muitos exemplos diferentes. Por vezes é mesmo preciso fazer reformas contra determinados interesses, quando as reformas são contra interesses específicos, em defesa de outros.

Será que Maria de Lurdes Rodrigues precisa de maior prova do que a avaliação ir para o terceiro ano da simplificação, sem nunca ter sido aplicada como foi inicialmente legislada, e ter tido o apoio explícito de apenas 13 professores?

Já nem questiono como é que os cálculos são feitos, porque me parece que se baseiam em contas de dividir de merceeiro, sem desprimor para o comércio de bairro ;). Apenas contesto a lógica tuberculina de rejeitar os chumbos por serem caros. Nesse sentido, equipar as escolas também é caro. Construí-las, mantê-las.

Não será caro para o País – que eu acho mais importante que o Estado, mas é porque sou conservador nos dias ímpares – ter uma parte da população teoricamente qualificada, mas incapaz de fazer mais do que usar o telemóvel, a psp e o ipod?

E tratar os doentes também sai caro. Vamos deixar de os tratar e de lhes dar medicamentos? Pensando bem… se calhar…

Chumbos e abandono escolar custam 56 milhões ao Estado

As reprovações e desistências no ensino básico e secundário caíram para metade em 2009. Ainda assim, só no 9º ano, foram 18.750 os que não concluíram.

Os chumbos e desistências dos alunos do 9º ano de escolaridade representaram um custo directo para o Estado português de 56,25 milhões de euros, no ano passado. O valor corresponde a 18.750 alunos que se matricularam no último ano do ensino básico em 2008-2009, mas que não o concluíram. O Diário Económico fez as contas a partir da referência dada pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, há um ano: cada aluno custa cerca de três mil euros ao Estado. Se um aluno não passar, “significa que, para terminar esse ano escolar, já vai custar o dobro dos outros”, concluía a ministra.

No ano lectivo passado, matricularam-se no 9º ano, no ensino público e privado, 139.972 jovens, incluindo os jovens que frequentam o programa Novas Oportunidades. Destes, ficaram retidos 13,2%. Mas no total do ensino básico público, chumbaram 7,7% dos alunos. Os números são do Ministério da Educação, que revelou ontem que a taxa de retenção tem vindo a descer desde 2002 – era de 14%. O número de alunos matriculados no 9.º ano cresceu 36% durante a última legislatura. Os chumbos caíram ainda mais no ensino secundário público. Em 2005, no início da legislatura, chumbaram 33% dos alunos. Em 2008, a taxa desceu para 18%.

O jornal I apresenta, ao que parece em defesa da tese de na maioria dos países europeus existir liberdade de escolha das escolas pelos encarregados de educação, o seguinte mapa:

I21Jul091

Sobre o dito cujo mapa só vou pedir que me esclareçam o seguinte:

Qual é a diferença substancial entre um país (como Portugal, assinalado a cinzento), em que «os estudantes são colocados na escola da área de residência», sendo «necessário um pedido para a dispensa da decisão» e um país (como a Alemanha ou a Finlândia, assinalados a rosa) onde «os estudantes são colocados na escola da área de residência», mas em que «os pais podem requerer uma alternativa»?

Eu sei que sou fraco na distinção de subtis matizes de significado e significante (ou vice-versa) na traiçoeira língua pessoana, mas a mim quer-me parecer que, sem ser preciso chegar ao fundo, as consequências práticas são as mesmas, correcto?

Com a (des)agravante de em Portugal o controle efectivo sobre os dados fornecidos pelos encarregados de educação ser uma ficção e na Alemanha ou Finlândia ser a sério.

Ou agora a fórmula é arranjar uma minoria étnica, metê-la em contentores e temos um TEIP à la minuta?

Escola de Barqueiros passa a Território de Intervenção Prioritária

As posições que acabam por confirmar mais as teorias, para alguns fantasiosas, de muitos docentes são exactamente aqueles que, de forma canhestra, procuram desmontar essas mesmas teorias.

É o caso de Fernanda Câncio que, agarrando num mail que circula pela net, se dedica hoje a desmontar – na sua opinião – os argumentos dos professores, socorrendo-se dos dados de um relatório da OCDE que, ao que parece, atribui aos docentes portugueses uma situação privilegiada em alguns parâmetros.

Afirma Fernanda Câncio que a classe docente não é «mártir e explorada».

Isso é (ou era) mau?

Será que Fernanda Cãncio, na falta de confrontar opiniões assinadas, fica entretida na desmontagem de mails anónimos?

Estranha forma de vida. Resta saber se não é paga acima da média da OCDEe quantas horas acarreta de trabalho jornalístico.

De acordo com a lógica de Fernanda Cãncio, as posições de contestação dos docentes não devem ser tidos em consideração porque eles não são todos, afinal, mártires e explorados. A dedução implícita é que, sendo assim, está certo que passem a ser penalizados e sacrificados, em termos materiais e de condições de trabalho.

Mas isso, mesmo contestando a forma como alguns dados são lidos, sem cruzamento com outros (temos um ratio mais favorável de alunos por professor, porque, por exemplo, muitos de nós desempenham funções que em países civilizados são desempenhadas por outro pessoal técnico especializado), apenas confirma o que há muito dizemos: as políticas do ME visam atacar as condições materiais da classe docente, que consideram privilegiada. Mesmo que isso assim não seja.

Fernanda Cãncio acaba, pois, por confirmar que as opiniões contra a contestação dos dcocentes não são motivadas por qualquer preocupação com a excelência do seu desempenho, mas com as conveniências orçamentais.

Obrigado, Fernanda Câncio, pela explícita confissão.

Já sabíamos, sôtôra, mas agradecemos a douta e informada admissão.

Para a próxima, já agora, analise, a celeridade com que o Governo se preocupou em suavizar a crise para os accionistas do BPN e BPP.

Ou será pedir muito?

Porque para o erário público os custos nem têm comparação…

Ou será que não há relatório da OCDE que esteja à mão sobre o assunto.

Muit’agradecido…

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Ouvir as declarações de MLR acerca da manifestação dos professores é algo que me deixa a pensar que afinal o bom e velho animatographo até é um lugar onde se passam fitas púdicas e de elevado conteúdo moral.

Mais de 100.000 professores saem à rua e é dito em plena RTP1 que o fazem por «medo» e como «chantagem».

Fica por explicar como num universo de 135-140.000 docentes, 110-120.000 podem considerar-se chantagistas. É algo do domínio do puro disparate.

Quanto ao «medo» quer-me parecer que ir fazer uma conferência de imprensa para o Porto, com uma manifestação nas ruas de Lisboa, não será o melhor exemplo de coragem. Mas já há 8 meses se passou algo semelhante.

A explicação já me chegara por outras vias, que pediram recato para o tema e confidencialidade para as fontes. Mas como agora está estampado em letra de forma, mesmo se virtual, sou um pouco obrigado a desmontar esta argumentação falhada.

Mesmo que estivesse a fazer contas para deixar amainar a poeira da duas manifs. Vejamos o que se escreve no site do SPNL e que é a justificação oficial da Plataforma Sindical para a escolha do dia 8 de Novembro para a sua.

A escolha do dia 8 de Novembro para a manifestação vem na sequência do calendário negocial que o ME apresentou. A última reunião de negociação dos concursos ocorre no dia 31 de Outubro e a negociação suplementar no dia 7 de Novembro. Outras reuniões possíveis e suplementares decorrerão na semana de 10 a 14 de Novembro.

Qualquer data posterior ao dia 8 seria, por isso, extemporânea.

Ora bem, segundo a Plataforma, a manifestação é dia 8 que é para ficar entre o fim das negociações regulares sobre os concursos e as reuniões decorrentes do pedido previsto de negociação suplementar que está previsto, as quais deverão ocorrer entre 10 e 14 de Novembro.

Vejamos então:

  • Para começar, assume-se desde já que as negociações regulares vão correr mal, apesar da Fenprof ter saído da reunião desta semana com uns pequenos sinais de resolução de situações particulares.
  • Em seguida, a negociação é sobre concursos e o protesto é principalmente sobre outros assuntos (avaliação, estatuto, divisão da carreira, etc), pelo que se estranha a relação causal linear.
  • Mas mesmo que se aceite essa relação, não se percebe porque a manifestação deve ocorrer entre a fase regular de negociações e a fase suplementar porque, afinal, o ME pode sempre argumentar – como repetidamente e por regra fez no passado mais ou menos recente- que não cede à pressão da rua e não negoceia sob chantagem. A manifestação de dia 8 é uma forma de dar argumentos ao ME para fechar as negociações e não ceder em nada, para além de já ter sido declarado que o tema da avaliação está amarrado ao Entendimento e à sua calendarização.
  • Em contrapartida, o dia 15, para o qual está convocada uma manifestação por quem não está amarrado ao Entendimento, surge exactamente depois de todas as fases negociais e poderia, de forma mais lógica, funcionar como o momento certo para a manifestação natural de desagrado pelo falhanço das negociações. Fica depois o ónus do falhanço para o ME., sem a desculpa da pressão de manifestações de rua.

Por isso, meus caros colegas professores e sindicalistas da Plataforma, o dia 15 seria o ideal para a grande manifestação. A Apede tinha a sua manifestação marcada, a Plataforma marcava a sua que por acaso não se importaria de ir dar ao mesmo local pelo mesmo caminho ou por outro, mais cedo ou mais tarde uma hora, juntando-se todos no final e ficávamos todos a ganhar.

Assim, como as coisas estão, ficará muita gente contente com o seu umbigo – e depois eu é que sou umbiguista – mas terá falhado na táctica, podendo colocar em risco toda a estratégia.

Há interesses gerais que não se compadecem com orgulhos organizacionais, políticos ou pessoais, já o disse e repito.

Valter Lemos desvaloriza aposentações entre os professores

O secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, desvalorizou hoje as aposentações entre os professores, atribuindo o facto de quatro mil docentes terem pedido a aposentação nos últimos dez meses (o dobro do ano passado) às alterações na lei da reforma.

“A idade da reforma aumentou e, naturalmente, mais pessoas pediram a aposentação, mas isso aconteceu em todas as profissões”, declarou, falando aos jornalistas na Fundação de Serralves, no Porto, onde participou no Encontro Nacional de Professores.

Considerando que a notícia avançada pelo “Jornal de Notícias” é “uma manipulação dos números”, o representante do Governo qualificou como ilegítima qualquer associação entre a duplicação dos pedidos de aposentação e a desmotivação dos professores. “Não acho nada que os professores tenham falta de motivação, bem pelo contrário: os resultados escolares em Portugal melhoraram e muito e isso deve-se ao trabalho dos professores”, afirmou, insistindo que as aposentações também aumentaram entre “médicos, enfermeiros, juízes e advogados”. (Natália Faria)

Este secretário de Estado é um portento em matéria de lógica e argumentação. Um tipo não sabe mesmo se não será ele o verdadeiro Zé Carlos que faltou um pouco ao primeiro programa dos Gato Fedorento para a Sic.

Vejamos:

  • As pessoas reformam-se mais cedo porque a idade da aposentação aumenta. Tem toda a lógica. Aliás, quando um Governo aumenta a idade da aposentação é para que as pessoas se reformem mais cedo. Julgo que é óbvio, evidente e transparente. É que mesmo que se argumente que, do ponto de vista do ME, as aposentações são benéficas em termos orçamentais, do lado do pagamento das prestações sociais não é tanto assim. MAs…
  • Depois temos o facto da notícia ser, aparentemente, uma «manipulação dos números». Vindo de quem vem só podemos considerar isto um exercício sublime de amnésia ou auto-ironia. Quem costuma atirar números para o ar sem grande fundamento e de forma selectiva é exactamente o ME (caso da assiduidade dos docentes, da cobertura dos gastos pela ASE): Mas se o SE Lemos ainda demonstrasse onde se encontra a manipulação poderíamos compreende-lo. Como apenas a enuncia, de nada adianta. Eu posso dizer que os gatos com quatro patas são todos resultado de uma manipulação genética que, sem a devida demonstração, isso não se transforma numa verdade.
  • Mas o que é sempre interessante é que, apesar de ser uma manipulação, Valter Lemos dá por adquirido esse aumento das aposentações, apenas achando que também ocorre em outras profissões. Pena que, de novo, lhe tenha falhado a demonstração de aumento equivalente de aposentações entre médicos, juízes e advogados. Entre os enfermeiros, até acredito.
  • Por fim, embora achando que os dados são manipulados, Valter Lemos não associa o inexistente aumento de aposentações com a «desmotivação dos docentes». pelo contrário acha-os motivados, pois até os alunos têm vindo a ter melhores notas. Arre… que o senhor excelentíssimo secretário de estado realmente tem umas circunvoluções cerebrais que me deixam abismado. Qual cérebro de Lenine, qual cérebro de Darwin. Este cérebro é que merece ser estudado em detalhe quando essa oportunidade se apresentar. É que o génio, em modelo supra, mora aqui. Numa embalagem improvável. Mas é mesmo aqui.

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