25 De Abril


que está no contrato passar os gajos todos?

 

 

 

 

 

25 de abril Fábio

A forma como o 25 de Abril surge nas principais publicações semanais da nossa imprensa de notícias é bem diversa e revela duas atitudes quase diametralmente opostas.

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A Visão e o Expresso (actualmente pertencentes ao mesmo grupo empresarial) investiram bastante na efeméride, desde a a realização de debates e a preparação de revistas específicas em edições anteriores (Expresso) à produção da revista com um grafismo e conteúdos à maneira de há 40 anos (Visão).

Nesta semana, o Expresso traz ainda um caderno especial dedicado à reprodução de muitas primeiras páginas da imprensa de 25 de Abril de 1974, para além de abordagens no caderno principal, no Actual e na Revista.

Já os casos da revista Sábado e do semanário Sol revelam uma atitude muito diferente e optam por tratamentos do tema claramente baseados no “lá terá de ser” e na preguiça.

A Sábado deixa a cargo de crónicas com 40 anos de Gabriel Garcia Marquez sobre o 25 de Abril a maior parte do espaço dedicado ao tema, no que seria uma opção curiosa como anexo a outra coisa. Mas o resto é escasso e muito pobre, revelando um desinteresse muito grande, só faltando mesmo a encomenda de uma peça a Rui Ramos a relativizar tudo o que se passou, como aconteceu há uns anos com a passagem dos 100 anos da República. O grande interesse da revista é o ex-pião-maçon Silva Carvalho que, em meu entender, nem dignifica a espionagem (que é algo bem diverso da mexeriquice à conta do Estado), nem a Maçonaria (que sempre me constou ensinar as suas gentes a serem discretas) com o seu desejo imenso de falar e acertar contas muito cedo. Se aliarmos esta opção à do Correio da Manhã, conclui-se com há um certo grupo empresarial na área da comunicação que acha dispensável assinalar de forma c0ndigna os 40 anos de Abril.

Já o Sol opta por incluir um portefólio de imagens mais do que conhecidas e ao nível de um manual escolar do 3º ciclo e dar a palavra a Rentes de Carvalho, a nova coqueluche sénior da nossa literatura, que nem sequer vivia em Portugal em 1974, mas que diz ter começado a preparar o livro – cujo tema parece ser o 25 de Abril –  em 1962 mas que apenas é publicado em 2014. Confesso que não o li, mas já ouvi várias pessoas a desmentir factualmente diversos episódios lá relatados, o que acabou por me tirar a vontade de o comprar. O destaque da 1ª página do jornal vai para o inefável Durão Barroso (aquele que parece acha que Cavaco, Soares e Sampaio ou Eanes não passaram de burros) e o da revista para o muito divertido Vasco Palmeirim que, com um pouco mais de atenção, poderia ter aceitado aparecer na capa de outra edição. Acho eu, que sou esquerdista e vermelho.

25 de Abril, 40 anos depois…

6. E se a Revolução não tivesse existido?…

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Como teria evoluído Portugal sem o 25 de Abril?

A construção de cenários hipotéticos é um exercício sempre arriscado. Mas não é muito difícil antever que boa parte dos graves problemas políticos, económicos e sociais do período revolucionário e pós-revolucionário teriam ocorrido mesmo que não tivesse havido uma revolução a 25 de Abril ou esta tivesse sido neutralizada pelas forças do regime.

As longas filas de automóveis junto às bombas de gasolina surgiram ainda em 1973, resultado da escassez de combustíveis provocada pela crise petrolífera. A subida em flecha dos preços dos produtos petrolíferos foi um dos principais factores que fez disparar as importações portuguesas a partir desse ano e ocorreria mesmo que não tivesse havido revolução. A maior parte da década de 70 correspondeu a um período de crise económica internacional à qual não ficaríamos imunes, qualquer que fosse o regime político vigente no país.

A retirada das tropas e dos cidadãos portugueses da Guiné, onde a derrota militar era uma evidência, originaria uma primeira vaga de “retornados”, que provavelmente engrossaria com o regresso também de muitos moçambicanos, perante o agravamento das condições de segurança na segunda maior colónia portuguesa, que as forças armadas tinham cada vez mais dificuldade em controlar.

Em Espanha, a transição rápida e indolor para a democracia em 1975, após a morte de Franco, o ditador que, ao contrário de Salazar, planeou a sua própria sucessão, delineando uma solução de continuidade para o regime de que tinha sido fundador, tornaria ainda mais insustentável a sobrevivência isolada do último dos fascismos europeus.

Apesar de algum reformismo, sobretudo nas áreas da economia e da educação, a abertura marcelista provou ser insuficiente para enfrentar e resolver os graves problemas do país e o desfasamento em relação ao resto da Europa Ocidental. Nesse sentido a revolução foi, não só uma inevitabilidade, mas também a oportunidade para se fazerem, a partir daquele momento libertador, as mudanças adiadas ao longo das décadas anteriores. A pobreza endémica no mundo rural, o analfabetismo, as elevadas taxas de mortalidade, a emigração em massa, são exemplos de graves problemas estruturais que só em democracia foi possível reconhecer, enfrentar e, em grande medida, resolver.

É certo que o período revolucionário, com a descoberta da liberdade e da democracia, o debate e o combate ideológico, a tomada de medidas radicais de política económica norteadas sobretudo pela tentativa de corrigir as profundas desigualdades e injustiças sociais existentes, criou também novos e graves problemas e abriu profundas clivagens e contradições na sociedade portuguesa. Mas trouxe igualmente as chaves para a resolução desses e de outros problemas e conflitos: a liberdade de expressão que torna possível o debate de todas as ideias e a eleição democrática que permite escolher em cada momento eleitoral os políticos e as políticas que a maioria considera mais adequados para enfrentar os desafios que se colocam à nossa vida colectiva. E também substituí-los quando já não servem, ou quando a má escolha se tornou evidente.

A democracia, o tal sistema em que existem sempre alternativas, embora os novos e mais sofisticados fascismos dos nossos dias muitas vezes nos queiram convencer do contrário…

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Na foto falta o Correio da Manhã, mas optei por não o comprar, atendendo à opção editorial de nem referir os 40 anos da revolução de 25 de Abril de 1974 na sua primeira página.

Quanto aos restantes, há abordagens claramente distintas.

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O Diário de Notícias fez a opção mais radical, uma edição de 80 páginas em papel diferente do habitual totalmente dedicada ao tema, na qual surge em caderno de 20 páginas, separado, com a edição do dia. Abordagem muito ampla, muitos factos, muita documentação, muita opinião.

O Público tem a sua edição ocupada maioritariamente com o tema, assim como o suplemento Ipsílon, bem como ainda uma edição específica do Inimigo Público, que nos revela que se fosse Relvas a fazer a revolução, bastariam dois ou três telefonemas.

O jornal I tem também um espaço alargado de análise do 25 de Abril, com testemunhos espalhados por toda a edição, sendo o maior destaque dado a uma entrevista feita a Vasco Pulido Valente que, como acontece com relativa regularidade, confunde a realidade com os seus humores e nega qualquer papel aos capitães de Abril. É um negacionismo que em vez de corajoso (como o adjectiva o próprio jornal na última página) é outra coisa… que a mim não apetece adjectivar.

Já o Jornal de Notícias faz uma referência de primeira página ao assunto como se fosse uma coisa de segunda ordem perante o futebol e a enésima investida de Passos Coelho sobre as remunerações alheias. São opções… mas a disputa do mercado da imprensa mais popularucha com o Correio da Manhã tem destas coisas que se percebem com dificuldade num título histórico da nossa comunicação social. Até a edição de ontem do temático Jornal de Negócios fazia um destaque maior.

Claro que isto não esgota de forma alguma o modo como o tema tem vindo a ser tratado ao longo dos últimos dias por estes títulos, até porque outras análises, entrevistas e opiniões têm vindo a ser divulgadas, bem como o público tem vindo a editar uma colecção de obras proibidas durante o Estado Novo.

Mas parece tudo muito curtinho… como se a estratégia do esquecimento e da relativização já fosse meia regra. Um destes dias hei-de espreitar os diários de 28 de Maio de 1966, só para comparar.

25 de Abril, 40 anos depois…

5. O “herói” da Revolução…

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Faz sentido procurar, como se tem feito ultimamente, o maior “herói do 25 de Abril”?

Faz e não faz.

Historicamente não faz sentido porque o golpe militar, rapidamente convertido em revolução popular, foi uma acção colectiva de um grupo relativamente vasto de oficiais de patente intermédia – quase todos capitães e majores do Exército – nunca tendo existido uma liderança unipessoal do movimento. Melo Antunes como “intelectual”, Otelo como organizador, Salgueiro Maia como operacional, destacaram-se entre muitos outros militares cuja intervenção desde a madrugada de 25 de Abril de 1974 foi decisiva, mas que nunca quiseram ser heróis. O sucesso da revolta deveu-se à acção colectiva em direcção a um objectivo comum, o derrube da ditadura que governava Portugal. Algo que, 40 anos depois, numa sociedade onde imperam o individualismo, o oportunismo, o hedonismo e novas formas do sempre reinventado sebastianismo, se torna por vezes difícil de compreender.

Já do ponto de vista de uma narrativa ideologicamente comprometida do passado a busca do “herói” faz todo o sentido, nos tempos que correm. Já que ela permite centrar os holofotes na figura de Salgueiro Maia, o comandante da coluna militar proveniente da EPC de Santarém que tomou o Terreiro do Paço e cercou Marcelo Caetano no Quartel do Carmo, forçando-o à rendição. Sem retirar qualquer mérito à acção corajosa e determinada do capitão Maia, nem desmerecer as suas inquestionáveis qualidades éticas e cívicas, há que reconhecer que para as forças políticas que hoje ocupam o poder, se trata do herói mais conveniente: o que recolheu a quartéis depois da revolução feita e do poder entregue a quem de direito, não tendo tido daí para a frente uma participação política relevante, ao contrário de outros protagonistas de revolução.

Precocemente falecido, Salgueiro Maia não está hoje em condições de afirmar o mesmo que dizem quase todos os seus camaradas de armas do tempo da revolução e que ele provavelmente subscreveria: que não se revêem na perversidade das políticas nem na mediocridade dos intervenientes que hoje decidem os rumos do país, e nesse sentido é o herói mais conveniente para o poder que está, e que de facto nunca assumiu a herança da Revolução.

SalgueiroMaia

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(c) Francisco Goulão

Textinho enviado já há umas semanas para um dos jornais do dia. Ainda não verifiquei se saiu, com ilustração do João Abel Manta a acompanhar e tudo.

Tinha 9 anos, não pude combater pelo 25 de Abri. Sou apenas um beneficiário da Liberdade e da Democracia que nasceram há 40 anos.

A comemoração do 25 de Abril deveria ser algo consensual, mas, em simultâneo, é impossível que o seja.

Porquê? Porque há muita gente que dele se quer apropriar e outra tanta que o quer esquecer, mesmo se quase tudo lhe deve.

Ao fim de 40 anos parece que há quem pareça querer contar os tostões gastos em tal comemoração.

É triste, é mesquinho, é vergonhoso.

O 25 de Abril não é de todos porque há quem dele não goste. Tudo bem, estão no seu direito, mas esse direito só é possível graças a esse mesmo 25 de Abril.

Era bom que disso se lembrassem.

AbelManta

… para escrever algo muito criativo, profundo ou militante acerca do 25 de Abril, pelo que vou agir mais como voyeur.

Desde 1984 (quando o fiz para um dos meus primeiros trabalhos do curso de História) que compro a imprensa do dia 25 de Abril, com especial sublinhado nos aniversários quinquenais e decenais. Desde os anos 90, em especial de 1994, que passei a gravar a generalidade dos debates televisivos sobre o tema.

Para além do interesse histórico, são o material para um estudo que ainda não consegui ter condições para fazer sobre a construção da memória do que se passou em 1974. Não é um estudo sobre o que se passou, mas sobre o que foram dizendo aqueles que foram chamados a recriar a memória colectiva para consumo de massas.

Como sou teimoso, devo acabar por fazer a coisa, nem que seja com duas bengalas e uma lupa para ver as letras.

Este ano, não passarei de uma análise superficial sobre os jornais do dia, sendo que até agora só comprei o Sol, que de tão discreto parece assinalar a data por necessária formalidade. Se bem que boa parte dos actuais accionistas só o sejam graças a uma independência nascida de Abril.

Entretanto, fui ouvindo as reportagens da TSF, os debates televisivos e há bocado a reportagem da TVI… poucas coisas novas e muito do costume: auto-legitimações.

25 de Abril, 40 anos depois…

4. A revolução em marcha…

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Porque foi decisiva a acção da coluna militar vinda de Santarém?

As unidades militares de Cavalaria eram, à época do 25 de Abril, as únicas que dispunham de carros de combate blindados – os vulgarmente chamados “tanques” – que conjugavam mobilidade e poder de fogo, o que, tendo em conta as missões a cumprir no âmbito do golpe militar, as superiorizava em relação a outras forças militares.

O governo não desconhecia este facto e, temente de uma acção militar que pudesse derrubar o regime, tinha colocado em todas as unidades de cavalaria da capital comandantes da sua estrita confiança. Dessa forma, as tropas de Cavalaria, essenciais na logística do 25 de Abril, teriam que vir de fora de Lisboa, e as mais próximas e disponíveis eram as da Escola Prática de Cavalaria de Santarém.É dessa forma que desde as horas iniciais se encontram os homens de Salgueiro Maia,

depois de uma marcha quase em contra-relógio desde Santarém, a ocupar o Terreiro do Paço, coração do regime, e mais tarde, já com apoio de outras forças que entretanto se lhes juntaram, cercarão o Quartel do Carmo para obrigar à rendição e deter o Primeiro-Ministro e os ministros que o acompanhavam.

O 25 de Abril poderia ter corrido mal?

Um golpe de Estado é sempre uma acção de alto risco, e o 25 de Abril correu bem por duas ordens de razões: ao contrário da tentativa improvisada de 16 de Março, foi uma operação militar muito bem preparada, na qual, e apesar do grande número de unidades intervenientes, todos os revoltosos sabiam claramente qual a missão a cumprir e tinham a determinação necessária para a executar. Do lado do regime, tornou-se evidente, por contraste, a falta de confiança e convicção demonstrada por aqueles que o deveriam defender.

Os episódios mais arriscados deram-se, como é sabido, quando as forças de Salgueiro Maia, ainda no Terreiro do Paço, se defrontam com diversas unidades de carros de combate das forças fiéis ao governo. Algumas destas viaturas tinham um poder de fogo muito superior ao dos blindados vindos de Santarém, que só não foi usado porque os respectivos comandantes se rendem, se passam para o lado dos revoltosos ou, quando isso não sucede e o próprio brigadeiro que comandava as forças fiéis ao governo dá ordem de fogo, os soldados se recusam a disparar contra os seus camaradas de armas.

Note-se que a eventualidade de as forças fiéis ao governo saírem à rua para defender o regime moribundo estava prevista no planeamento das operações militares e, na impossibilidade de tomar o comando de alguns regimentos da capital, o plano passava por raptar os seus comandantes, de forma a que, privadas de comando, as unidades ficassem inoperacionais durante a fase decisiva da revolução. Estas missões foram atribuídas a um grupo de “comandos” onde pontificava Jaime Neves e quase todas falharam, uma após a outra. Retrospectivamente, é curioso verificar como o “herói” do 25 de Novembro teve tão modesta prestação nas primeiras e decisivas operações do 25 de Abril…

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25 de Abril, 40 anos depois…

3. Da Primavera marcelista ao Inverno do descontentamento

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Poderia o “marcelismo” ter feito a transição para a democracia, evitando a revolução?

A subida ao poder de Marcelo Caetano em 1968, quando Salazar ficou incapacitado de continuar a governar, trouxe de facto uma esperança da mudança que se traduziu na expressão “evolução na continuidade”: sem renegar a herança salazarista, modernizar o regime, adaptando-o aos novos tempos e resolver os grandes problemas que, já na altura eram os que se enunciarão após o 25 de Abril: desenvolver a economia, democratizar a vida política, encontrar uma solução para a questão colonial.

Mas a verdade é que Caetano, mudando embora os nomes às instituições, manteve intacto o aparelho repressivo herdado do salazarismo: censura, polícia e prisões políticas, regime de partido único, eleições fraudulentas. E apesar das “janelas de oportunidade” abertas por exemplo com o regresso de Mário Soares da deportação em S. Tomé a que tinha sido condenado por Salazar, com a formação da “Ala Liberal” na Assembleia Nacional ou com os esforços do general Spínola, na Guiné, em busca de uma solução negociada e honrosa para a independência, Marcelo não quis ou não foi capaz de resistir às forças imobilistas e conservadoras que dominavam o regime, congelando a prometida abertura política e obstinando-se na política colonialista de sempre e no prosseguimento da guerra colonial com base no estafado não-argumento salazarista segundo o qual “a Pátria não se discute”.

Percebe-se hoje que Marcelo Caetano não governava sozinho e nunca teve a autonomia de acção de que Salazar desfrutou nem o apoio incondicional de todos os sectores que apoiavam o regime. Refém da lealdade institucional e pessoal em relação ao Presidente Américo Tomás, que o nomeara para a chefia do Governo, faltou-lhe a coragem ou o “golpe de asa” necessários para, em 1972, dispensar o velho almirante e se candidatar ele próprio à Presidência da República, acabando por ficar até ao fim prisioneiro dos “ultras” do regime, representados ao mais alto nível pelo próprio Presidente em funções desde 1958.

O regime caminhou assim para o estertor final, bloqueado pelas suas próprias contradições: não se democratizava porque qualquer abertura política desencadearia de imediato a discussão do problema colonial, comprometendo todo o esforço de guerra que ia sendo feito; não descolonizava porque a ditadura impedia todo e qualquer debate político que permitisse fazer novas abordagens à questão colonial de forma a gerar o diálogo e construir os consensos necessários à sua resolução.

Foi, acima de tudo, a incapacidade de o regime se auto-reformar que tornou a revolução inevitável.

Marcelo Caetano em Luanda

Era a edição relativa aos 40 anos da Educação pós-25 de Abril.

É interessante como em 5 anos o tom das intervenções dos telespectadores mudou radicalmente. Houve tempos em que eu quase pedia uma armadura para me defender das acusações de todos os lados sobre os professores. Desta vez, tudo muito mais compreensivo.

Quanto ao meu ar aparentemente mais sisudo deve-se em boa parte ao facto que já estava a antecipar o trabalho intenso do 3º período.

Quanto ao resto, em segmentos de poucos minutos, sem levar cassete para descarregar, é o melhor que consigo fazer. Apesar de ser das vezes em que fui mais mainstream, ainda levei com uns mails de protesto a dizer que mais valia eu ficar calado.

Temos pena… 🙂

25 de Abril, 40 anos depois…

2. A Guerra Colonial e a Descolonização

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A guerra colonial poderia, com mais tempo, ser ganha militarmente?

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Nenhuma guerra com as características da que foi travada nas colónias africanas de Portugal foi alguma vez ganha, mesmo por países europeus com muito mais recursos militares, demográficos e económicos, como foi o caso da França, Espanha, Bélgica ou Reino Unido. Todos estes países acabaram por negociar e conceder a independência às colónias africanas que ainda detinham nas décadas de 50 e 60 do século passado.

No caso português, o que as forças armadas poderiam fazer, e fizeram-no, foi aguentar militarmente a situação de forma a ganhar tempo e margem de manobra para o governo encontrar uma solução política. Algo que o Estado Novo se recusou obstinadamente a fazer, respondendo à cada vez mais grave situação militar nas colónias à maneira das campanhas de pacificação dos finais do século XIX. Assim sendo, o que é espantoso não é a perda do império africano em 1974-75, é o facto de Portugal ter conseguido conservá-lo durante tanto tempo.

Das três colónias portuguesas, a Guiné era claramente, em 1974, um caso perdido. A utilização de mísseis terra-ar por parte do PAIGC retirou aos Portugueses a supremacia aérea e forçou a retirada das forças portuguesas de uma vasta parte do território que já não conseguiam controlar. A independência guineense tinha sido unilateralmente declarada no ano anterior, de imediato reconhecida por mais de 80 países.

Em Moçambique, a desmoralização das tropas portuguesas perante o fracasso das principais operações militares com que se procurou conter a Frelimo e cortar as linhas de apoio de países vizinhos, bem como o crescente à-vontade com que os guerrilheiros se movimentavam pelo território, atacando alvos militares e civis, tornavam a derrota militar inevitável num futuro próximo.

Onde, do ponto de vista estritamente militar, Portugal se encontrava numa posição mais sólida era no vasto território angolano. Paradoxalmente, o facto de existirem não um, mas três movimentos independentistas, favorecia as posições portuguesas, pois os três exércitos de libertação, além de lutarem contra os portugueses, também combatiam entre si. Mas mesmo aqui a conquista da independência, tendo em conta os interesses geoestratégicos em jogo e o envolvimento das grandes potências no apoio aos diferentes movimentos independentistas, era apenas uma questão de tempo.

Uma “descolonização exemplar” teria sido possível?

Talvez, se tivesse sido feita muito mais cedo, antes de os movimentos independentistas nas colónias terem sido empurrados para a luta armada pela absoluta intransigência do governo português em estabelecer qualquer tipo de diálogo ou negociação.

Nos anos 50 e 60 seria possível negociar uma autonomização progressiva dos territórios até à completa independência, com salvaguarda dos interesses dos colonos e dos investimentos portugueses e a participação progressiva das elites africanas na gestão política e administrativa dos territórios.

Seria a oportunidade histórica para comprovar as teses sobre o carácter intrinsecamente diferente do colonialismo português, da portugalidade multirracial que eventualmente se preservaria mesmo após o fim do domínio político directo sobre as “províncias ultramarinas”. Mas seria também pedir de mais, convenhamos, a uma ditadura retrógrada e conservadora e a um ditador que, nunca tendo visto mundo, era incapaz de perceber as voltas que esse mesmo mundo deu depois da II Guerra Mundial.

Em 1974, depois de uma guerra colonial em três frentes que levava mais de uma década, a única legitimidade que os movimentos de libertação reconhecem é a das posições conquistadas à custa de incontáveis mortos e feridos e imenso sofrimento humano. E as tropas portuguesas no terreno mais não pretendem do que regressar rapidamente à metrópole, onde as condições políticas também não permitiam o envio de novos contingentes para as colónias em substituição dos que voltavam.

Em 1974/75 fez-se a descolonização possível, em circunstâncias extremamente adversas. Em boa verdade, não há descolonizações exemplares, desde logo porque as colonizações também nunca o foram…

25 de Abril, 40 anos depois…

Ao assinalarem-se os 40 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974, e aproveitando a amável cedência de espaço neste blogue, por parte do Paulo Guinote, que desde já agradeço, propus-me partilhar, ao longo dos próximos dias, com os leitores habituais e ocasionais, algumas reflexões que fui fazendo ao longo dos anos sobre a Revolução dos Cravos, um momento singular na história portuguesa que me tem interessado especialmente.

1. As Forças Armadas e o Movimento dos Capitães

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Como se explica que o mesmo exército que em 1926 abriu caminho à ditadura militar e ao Estado Novo tenha, em 1974, restaurado a liberdade e a democracia?

Não foi exactamente o mesmo exército que fez uma coisa e outra. Embora tanto em 1926 como em 1974 existissem em Portugal regimes políticos desgastados e impopulares, presos aos seus próprios bloqueios e contradições, a verdade é que em 1926 a iniciativa surge de um conjunto de generais conservadores que partem para a capital com as suas tropas para tomar o poder político, impondo a “ordem” através da ditadura militar. Em 1974 são oficiais subalternos ou intermédios, dissociados ou à revelia dos comandos superiores, que desencadeiam o movimento, destinado, desde a primeira hora, a restituir ao povo as liberdades cívicas e políticas.
E há outra diferença importante, relacionada com a origem social dos oficiais. Tradicionalmente, a “carreira das armas” era procurada por jovens provenientes da aristocracia tradicional ou da média e alta burguesia, muitos deles filhos de militares, o que ajudava a reforçar o elitismo e um certo espírito de casta entre a oficialidade. Contudo, a partir da 1961, o estado de guerra permanente, e sem fim à vista, nas colónias africanas, fez diminuir bastante as “vocações” militares entre os grupos sociais onde estas habitualmente surgiam. As vagas na Academia Militar ficam assim mais acessíveis a jovens de origens sociais mais modestas que trazem consigo o viver e o sentir das classes trabalhadoras e dos meios populares e estudantis de onde provêm.

Finalmente, o serviço militar obrigatório e prolongado imposto a todos os jovens do sexo masculino considerados fisicamente aptos contribuiu também para fazer com que, no final da ditadura, o exército português fosse, mais do que em qualquer outra época da nossa história, uma organização interclassista e uma verdadeira expressão do “povo em armas”. Faltava apenas criar as condições adequadas para que no momento certo essas armas se virassem, não para os povos africanos que os militares eram exortados a combater, mas antes para a ditadura opressiva e colonialista.

O 25 de Abril resultou, como por vezes se afirma, de uma “questão corporativa” dos capitães?

Havia de facto uma “questão corporativa” na génese do “movimento dos capitães”: a dificuldade de recrutamento de oficiais tinha levado o governo a facilitar o acesso à carreira militar aos oficiais milicianos que tinham cumprido o serviço militar obrigatório e, frequentando um curso acelerado, podiam aceder aos quadros, ultrapassando oficiais de carreira com o mesmo tempo de serviço. Mas, perante a contestação, o governo rapidamente corrigiu a injustiça, pelo que, se fosse apenas esta a motivação dos militares descontentes, o movimento ter-se-ia desfeito nesse momento. Muito mais importante do que a questão de carreiras e promoções, foi a vivência da guerra colonial, a percepção tanto da inutilidade e do absurdo de um conflito que nunca poderia ser ganho militarmente como da flagrante ausência de uma solução política.

Presos em vésperas de revolução

Fez agora 40 anos. Na madrugada de 18 de abril de 1974, em jeito de antecipação ao 1º de maio, a DGS, a polícia política da ditadura, efetuou cerca de trinta detenções de activistas da oposição, a maior parte pertencente ao sector intelectual do clandestino PCP. O Expresso convidou alguns dos últimos presos políticos do Estado Novo a regressar ao forte de Caxias, 40 anos depois.

Debate promovido por Pinto Balsemão com Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio, com uma imensidão de notáveis na assistência, e transmissão na SICN.

Onde mais uma vez se prova que a presidência entrou num plano inclinado nos últimos tempos.

E continuo a achar que o melhor foi mesmo o primeiro.

Todos fizeram asneiras a terminar o mandato, mas foram quase sempre asneiras com sentido.

Tomara o actual fizesse asneiras com sentido.

Às vezes o excesso de alegada inteligência dá em figuras destas:

Pedro Lomba. “O governo tenta continuar e desenvolver o espírito do 25 de Abril original”

Mas ele sabe definir o que seria “o espírito do 25 de Abril original”?

Ou, como muitos outros mistificadores da memória, fez a sua reconstrução a gosto?

Mais um que, quando espremido, só tem para dar uma racionalização”:

Gosto de distinguir o 25 de Abril original do que veio a seguir. Não tendo eu vivido essas memórias, tive de ir racionalizando ao longo do tempo o que pensava. O 25 de Abril foi o acto fundacional do primeiro regime verdadeiramente legítimo da nossa história. Um regime de liberdades, porque existem liberdades e não uma liberdade abstracta.

Pedro Lomba, pelo que se lê, percebe pouquíssimo de História e de Teoria Política (o que é um regime verdadeiramente legítimo?)  e é uma daqueles que, da Esquerda à Direita (dos Rosas aos Ramos), tem daquela uma visão instrumental, destinada apenas a justificar o seu presente e nacos do seu passado.

No fundo, confessa o que sabemos… a filiação destes meninos num pós-marcelismo português suave e tropicalista (prós Relvas), moderadamente cosmopolita (para os lombas e maduros), em que os “radicalismos” seriam evitados e o povinho se manteria sereno e domesticado pelos inteligentes.

Patético.

Perigoso.

Relatório de 1 de Abril de 1974: Memória1Abr74,

Em torno dos 40 anos do 25 de Abril – apesar do desagrado da generalidade dos nossos actuais governantes, que notoriamente prefeririam que a coisa passe despercebida – vão existir muitas iniciativas, das quais uma parte importante será apenas fancaria e comércio.

Mas este caso parece-me uma das boas excepções.

Para além de que escolheram um excelente dia para o lançamento…

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… acho que quem não acredita nos princípios básicos do 25 de Abril de 1974 deveria abster-se de aparecer a ocupar espaço e a espalhar hipocrisia ou azedume cada vez pior disfarçado.

E por 25 de Abril de 1974 falo da revolução concretizada por Salgueiro Maia, que derrubou uma ditadura e permitiu a democracia, e não por qualquer outra construção posterior, desta ou daquela cor, usurpada por este ou aquele grupo, fracção ou protagonistas de dia 26.

Sendo ainda mais simples: quem não se incomodava (ou incomodaria) de viver no 24 de Abril de 1974 ou no 25 de Abril de 1973 deveria, em coerência, ficar hoje no sofá a ler um exemplar de arquivo da Flama. Em liberdade.

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