Bem, que me desculpe o n. 2: mas o que quer dizer exatamente com isso?
Desconfio que no fim do mês não recebia 🙂
Herberto Hélder é um ENORME POETA, nada escreveu como manual político de governação. São coisas diferentes. Muita gente que o comprou nos últimos anos nunca o leu – nem seria capaz. Há imensos anúncios do seu último livro à venda, «selado» e tudo 🙂 Sei de quem tem vários em casa esperando que as ações subam :). Ele teve culpa nesta situação. Principalmente no último episódio – em extremo caricato para a editora.
Para terminar: um dia estava em casa de um amigo a quem falei de H. H. O meu amigo saiu-se com esta, depreciativamente: quem sabe um verso dele de cor? Teve azar: de um lado da mesa, uma estudante de medicina lançou: «as mães são as mais altas coisas que os filhos criam».
A Direção Regional dos Assuntos Culturais (MADEIRA) considerou hoje “descabida” a organização de uma homenagem oficial a Herberto Helder, que nasceu na Madeira e morreu esta segunda-feira, aos 84 anos, afirmando que o poeta está além do “circo mediático”.
“Face ao autor que é e aquela que foi a sua visão das coisas, qualquer ação dessas é completamente descabida”, disse à Lusa o diretor regional, João Henrique Silva, vincando que a obra de Herberto Helder “está muito para além do folclore e do circo mediático que hoje tomou conta do mundo literário e do mundo artístico em geral”.
João Henrique Silva realçou que Herberto Helder “fugiu completamente dessa feira de vaidades”, tendo criado para si próprio um “clima de clausura e de refúgio como fronteira para não ser aprisionado e não ser raptado pelas convenções do mundo mediático-literário, tal como o conhecemos hoje”.
Considerado um dos maiores poetas portugueses, Herberto Helder deu a sua última entrevista em 1968 e recusou o Prémio Pessoa na década de noventa, rejeitando quase sempre o mediatismo literário.
O diretor dos Assuntos Culturais salientou que a sua obra, não sendo de leitura fácil e imediata, revela, porém, uma “enorme dimensão”, tendo ultrapassado a geografia e os condicionalismos do lugar onde o poeta nasceu, para se tornar “universal, partilhada e partilhável” por uma comunidade de leitores cada vez maior.
“Ao Herberto certamente lhe bastava os referentes e as referências da criação poética e do seu universo pessoal – porque ele tem um universo muito próprio enquanto autor – e é neste contexto que se compreende como incontornável a sua relação com a ilha”, disse João Henrique Silva, salientando que, no seu caso, a expressão “madeirense” [poeta madeirense] não deve ser encarada como adjetivo, mas no sentido da relação criadora com as origens.
———————–
Quem propôs a tal homenagem MUIIIITO PROVAVELMENTE nunca leu HH, ou cheirou e fugiu: mas, neste caso, terá ficado impressionado 🙂
Herberto Helder criou, escreveu, gravou, publicou e vendeu a sua obra literária.
Paz à sua alma!
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram.
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
Herberto Helder
Poesia Toda
Lisboa, Assírio & Alvim, 1990
«disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos/ e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque/ nada se reparte: ou se devora tudo/ ou não se toca em nada» HH
o poeta estava sentado em Portugal
percorrido que fora o seu deserto
sentado estava o poeta e comia caracóis
isto foi em mil novecentos e oitenta e nove
Um daqueles raros poetas dos quais posso dizer: com a morte dele, sinto-me morrer também um pouco…
É um dos três ou quatro escritores a cuja leitura não consigo deixar de retornar com frequência.
Tenho poemas e metáforas suas na minha cabeça que me iluminam nos melhores momentos ou nos mais sombrios. Aquilo que, afinal, me faz (querer) permanecer vivo e o faz permanecer vivo junto de mim.
“Não sei como dizer-te que a minha voz te procura”…
9
Ora aqui está uma confissão que é a melhor resposta a académicas perguntas do tipo «O que pode a poesia?» – revista Relâmpago e não só… Por vezes os académicos dizem que não pode nada. Académicos…
Obrigado por esta resposta.
—————
Tenho poemas e metáforas suas na minha cabeça que me iluminam nos melhores momentos ou nos mais sombrios. Aquilo que, afinal, me faz (querer) permanecer vivo e o faz permanecer vivo junto de mim.
Março 24, 2015 at 2:54 pm
Se é possível ser-se livre e independente, ele deve-os ter sido…
Março 24, 2015 at 3:21 pm
Quem dera que a sua mensagem fosse o espírito e a ação da governação!
E não vale a pena chamarem-me utópico.
Por mim, alinhava já!
Março 24, 2015 at 5:00 pm
Bem, que me desculpe o n. 2: mas o que quer dizer exatamente com isso?
Desconfio que no fim do mês não recebia 🙂
Herberto Hélder é um ENORME POETA, nada escreveu como manual político de governação. São coisas diferentes. Muita gente que o comprou nos últimos anos nunca o leu – nem seria capaz. Há imensos anúncios do seu último livro à venda, «selado» e tudo 🙂 Sei de quem tem vários em casa esperando que as ações subam :). Ele teve culpa nesta situação. Principalmente no último episódio – em extremo caricato para a editora.
Para terminar: um dia estava em casa de um amigo a quem falei de H. H. O meu amigo saiu-se com esta, depreciativamente: quem sabe um verso dele de cor? Teve azar: de um lado da mesa, uma estudante de medicina lançou: «as mães são as mais altas coisas que os filhos criam».
Março 24, 2015 at 5:23 pm
Palavras e atitude sensatas:
A Direção Regional dos Assuntos Culturais (MADEIRA) considerou hoje “descabida” a organização de uma homenagem oficial a Herberto Helder, que nasceu na Madeira e morreu esta segunda-feira, aos 84 anos, afirmando que o poeta está além do “circo mediático”.
“Face ao autor que é e aquela que foi a sua visão das coisas, qualquer ação dessas é completamente descabida”, disse à Lusa o diretor regional, João Henrique Silva, vincando que a obra de Herberto Helder “está muito para além do folclore e do circo mediático que hoje tomou conta do mundo literário e do mundo artístico em geral”.
João Henrique Silva realçou que Herberto Helder “fugiu completamente dessa feira de vaidades”, tendo criado para si próprio um “clima de clausura e de refúgio como fronteira para não ser aprisionado e não ser raptado pelas convenções do mundo mediático-literário, tal como o conhecemos hoje”.
Considerado um dos maiores poetas portugueses, Herberto Helder deu a sua última entrevista em 1968 e recusou o Prémio Pessoa na década de noventa, rejeitando quase sempre o mediatismo literário.
O diretor dos Assuntos Culturais salientou que a sua obra, não sendo de leitura fácil e imediata, revela, porém, uma “enorme dimensão”, tendo ultrapassado a geografia e os condicionalismos do lugar onde o poeta nasceu, para se tornar “universal, partilhada e partilhável” por uma comunidade de leitores cada vez maior.
“Ao Herberto certamente lhe bastava os referentes e as referências da criação poética e do seu universo pessoal – porque ele tem um universo muito próprio enquanto autor – e é neste contexto que se compreende como incontornável a sua relação com a ilha”, disse João Henrique Silva, salientando que, no seu caso, a expressão “madeirense” [poeta madeirense] não deve ser encarada como adjetivo, mas no sentido da relação criadora com as origens.
———————–
Quem propôs a tal homenagem MUIIIITO PROVAVELMENTE nunca leu HH, ou cheirou e fugiu: mas, neste caso, terá ficado impressionado 🙂
Março 24, 2015 at 5:51 pm
Herberto Helder criou, escreveu, gravou, publicou e vendeu a sua obra literária.
Paz à sua alma!
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor, que te procuram.
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
Herberto Helder
Poesia Toda
Lisboa, Assírio & Alvim, 1990
Março 24, 2015 at 5:56 pm
«disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos/ e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque/ nada se reparte: ou se devora tudo/ ou não se toca em nada» HH
Março 24, 2015 at 5:59 pm
Março 24, 2015 at 6:07 pm
o poeta estava sentado em Portugal
percorrido que fora o seu deserto
sentado estava o poeta e comia caracóis
isto foi em mil novecentos e oitenta e nove
Março 24, 2015 at 6:50 pm
Um daqueles raros poetas dos quais posso dizer: com a morte dele, sinto-me morrer também um pouco…
É um dos três ou quatro escritores a cuja leitura não consigo deixar de retornar com frequência.
Tenho poemas e metáforas suas na minha cabeça que me iluminam nos melhores momentos ou nos mais sombrios. Aquilo que, afinal, me faz (querer) permanecer vivo e o faz permanecer vivo junto de mim.
“Não sei como dizer-te que a minha voz te procura”…
Março 24, 2015 at 7:29 pm
9
Ora aqui está uma confissão que é a melhor resposta a académicas perguntas do tipo «O que pode a poesia?» – revista Relâmpago e não só… Por vezes os académicos dizem que não pode nada. Académicos…
Obrigado por esta resposta.
—————
Tenho poemas e metáforas suas na minha cabeça que me iluminam nos melhores momentos ou nos mais sombrios. Aquilo que, afinal, me faz (querer) permanecer vivo e o faz permanecer vivo junto de mim.
Agosto 9, 2019 at 12:38 pm
Localization Services For Indian Language