A desindustrialização total do Ocidente

 

Na década de oitenta do século passado, o Ocidente – grosso modo EUA e Europa – teve o sonho de bem-estar eterno. E decidiu que tudo o que se tratasse de Industria – aquilo que “faz coisas, mas é menos limpo”: maquinas, portas, janelas, aviões, automóveis, sapatos, calças, camisas e mais – vai para Oriente. Lá para a China, onde aqueles tipos só comem arroz e andam de bicicleta, vai para a Índia onde se vive menos bem, e em todos, os salários são tão baixos, que tudo chegaria cá, ao Ocidente quase a custo zero. Seria trabalho “a feitio”, nós mandávamos, eles faziam.

E cá, Ocidente, ficaríamos com tudo o que de mais “limpo” existe: serviços e turismo. Sendo duas áreas de excelência, não chegariam para sustentar o Ocidente, seria pouco. E de repetente fomo-nos apercebendo – mas fizemos de “conta que não”- que a deslocalização da indústria para Oriente nos colocou nas mãos deles. Eles produzem, fazem, constroem e nós importamos, mas temos que pagar. E como nem petróleo cá tempos, só ficaram com serviços e turismo. E a Europa tem forte apetência para turismo, e temos séculos de História, que sem dúvida é uma mais-valia, mas não chega. Nos Serviços somos bons, fazemos bem, mas também não chega, e alguns já se deslocalizaram atrás da Industria.

A base, o que faz crescer aquilo que ouvimos ao pequeno-almoço, almoço e jantar, o PIB, enviámos para Oriente, e achamos que lá – eles – iriam ficar subjugados aos encantos e às ordens do Ocidente. Mas não ficaram, não ficam e não ficarão.

E os chineses vão deixando a bicicleta e trocam por automóveis, e o arroz agora tem um bife ao lado e ovo a cavalo e Coca-Cola. Também têm direito, nós é que pensávamos que era só para nós. E como produzem o que nós necessitamos, nós temos que lhes comprar. Dependemos deles, para quase tudo, até precisamos do dinheiro deles, uma vez que enquanto empobrecíamos alegremente eles enriqueciam arduamente.

E já têm parte da divida dos EUA, e já vão comprando empresas e bancos aqui pela nossa Europa.

O risco nosso, é ficarmos como o Museu vivo do mundo, e que nem macacos em gaiolas, seremos visitados por tudo que não seja Ocidente, para ver a nossa História e nos darem umas gorjetas, à saída. E os EUA não estão melhor, e até nem História têm, aquilo é recente, mas ainda têm algum petróleo, e como deixam morrer Pessoas à porta dos hospitais se não tiverem dinheiro para pagar os cuidados de saúde, podem ir matando e poupando algum. Obama tentou mudar “isto” mas não o deixaram.

Haja bom senso em reconhecer este mau momentum, que foi por nós – todos – criado. Vivemos acima das nossas possibilidades, achámos ser os únicos e os melhores e maiores do Mundo, e hoje estamos aflitos.

Para além dos serviços, do turismo, também não temos agricultura, foi tudo para o Brasil, aquilo tem lá muito espaço. Assim teremos que conseguir recuperar alguma indústria de qualidade e fazer cá novas, teremos que não ter vergonha de termos novamente agricultura e pescas, temos mares que nos chega e sobra. E não precisamos de perder tudo, tudo.

Talvez nos seja necessário perder alguma arrogância e muito egocentrismo, e todos num mundo global sabermos como tal nos comportar. Para não estarmos daqui a meia dúzia de anos a só comer batatas, e pouco mais, e a andar de bicicleta por ser ecológico e o resto, o bom está todos a Oriente, os tais que já hoje quase nos têm em seu poder, por culpa nossa, por egoísmo nosso…

 Augusto Küttner de Magalhães