Discordo da teoria da cultura da retenção e da forma como tem sido fundamentada.

Considero-a, em termos pessoais, profissionalmente ofensiva para os professores, em especial quando formulada de modo linear e descontextualizada dos factores de insucesso que desaguam nas escolas.

Mas isso não significa que não reconheça que a retenção existe como problema que deve ser combatido.

Mas… não dou o quantum leap de afirmar ela deve ser exterminada e que os seus efeitos são demolidores para a auto-estima dos retidos.

Depende.

Porque eu não gosto que quem acusa os professores de psicologizarem as razões do insucesso depois venham psicologizar os efeitos desse mesmo insucesso.

Mas isso ainda é o menos.

A ver se me foco no que queria escrever desde o início: eu assumo que considero a retenção como algo que deve existir no sistema de ensino e que é da sua natureza ter, em parte, um carácter punitivo ou sancionatório.

Não me vou agora estar a contradizer só porque pode parecer bem isto ou mal aquilo.

Sem esse carácter, mesmo que reconhecendo a evidente necessidade da componente pedagógica relacionada com o aperfeiçoamento das aprendizagens, é que a retenção não faria sentido.

Vamos lá deixar-nos de paninhos quentes e coisas liofilizadas e assépticas.

Há alunos que devem ser retidos, numa perspectiva positiva, porque é mesmo melhor que repitam o plano de estudos para melhorarem o seu desempenho e há alunos que devem ser retidos porque não fizeram, nem quiseram fazer o mínimo para transitar de ano.

E quantas vezes isso acontece devido a comportamentos e atitudes que, a serem validados perante os pares com a transição,  só servem para retirar sentido ao trabalho e esforço dos outros.

Negar isto pode ser politicamente correcto, mas é fugir à realidade das coisas.

Não é um determinismo fatalista.

Por estranho que pareça a alguns, é uma forma de respeitar a larguíssima maioria.

Calvin-sorry

E vamos lá esclarecer uma coisa: o insucesso dos alunos não é o fracasso dos professores. Pode ser e pode não ser. É tão correcto fazer uma relação directa entre o insucesso dos alunos e a qualidade do desempenho dos professores como culpar a polícia e os juízes pela taxa de assaltos e homicídios ou os enfermeiros e os médicos pela incidência de doenças crónicas na população.

Mesmo não sendo bem o mesmo, acho que dá para perceber.

Calvin-butt

E, já que vamos com a foice a eito… quem quer uma amostra que prove que existe uma evidente cultura de desresponsabilização nos políticos e especialistas acerca disto tudo, pois apenas estão disponíveis para assumir os sucessos, alijando sempre as culpas pelo que corre menos bem?

Calvin-fault