Eu sei que, outrora, li os Esteiros, os Gaibéus, o Constantino, etc, etc, percebendo boa parte do vocabulário rural ou fluvial de umas décadas antes… mas… eu vivia numa vilória de subúrbio ainda com muita ruralidade à volta e o rio depois de dois canaviais,
Agora, mesmo leccionando a menos de um punhado de quilómetros, cada vez mais constato que a relação dos putos com a Natureza se tornou escassa, asséptica ou mediada por não sei quantos filtros tecnológicos que os impedem de perceber grande parte de escritos como A Vida Mágica da Sementinha sem visitas permanentes ao Google Imagens.
Sim, é verdade, essa relação está ameaçada e devemos contraria essa tendência, mas… têm mesmo a certeza que é no 5º ano, em Português, nas leituras em sala de aula que a coisa se combate de forma eficaz?
Ultrapassar os primeiros parágrafos, por exemplo, de O Rapaz de Bronze, perante a indiferença ou alheamento total dos leitores em piloto automático, sem capacidade de compreender o que aquelas palavras significam em termos concretos, é tarefa ciclópica, homérica, digna de meia dúzia dos trabalhos de um Hércules moderno de comando em punho.
Não podemos dar-lhes apenas o que eles conhecem, concordo em absoluto.
Mas…
Fevereiro 4, 2015 at 10:23 pm
…têm mesmo a certeza que é no 5º ano, em Português, nas leituras em sala de aula que a coisa se combate de forma eficaz?
Para quem a chamada de atenção é feita, receio que o alerta esteja condenado ao esquecimento. Em situações de menor tensão provocada por desconsiderações públicas sobre os docentes, uma aula ou outra no campo atenuaria as dificulades.
Fevereiro 4, 2015 at 10:33 pm
Oras, então é assim:
O Rapaz de Bronze comprei para a minha filhota quando andava na 4ª classe e li-lho eu à noite. (ela era disléxica, remember). Ela é do campo (aldeia) mas também não conhecia o nome das flores pelo que eu lhe disse que eram flores e ela lá arranjou na Natureza equivalentes sem se importar muito. Gostou, especialmente porque ouvia a voz morna da mãe a embalá-la com leituras à hora de deitar.
A Sementinha é diferente. Não conhecia mas o ano passado uma colega de 2º ciclo ofereceu-mo para eu ler no 1º ciclo em AEC. Linguagem difícil, tive de selecionar e truncar muita coisa, desconstruir muito do texto e eles não acharam piadinha nenhuma ao namoro da sementinha com o rouxinol. Lá levei aquilo para o desenvolvimento embrionário das plantas e não achei eu, piadinha nenhuma ás metáforas do autor. Arranjei feijões e pu-los a germinar o que prendeu muito mais a atenção dos alunos que tinha. E …nem pensar em manipulações genéticas e seleção artificial que é aflorada no fim do livro: isso é para o 9º e mesmo assim eles vêem-se gregos para entender.
So,
venha a Sophia e esqueçam lá a Sementinha.
Fevereiro 5, 2015 at 12:38 am
Eu li a Ana e e tudo quanto pude, foi o bibliotecário lá a casa preocupado por eu ler demais. Ele é um problema, disse o meu pai. E ainda nos rimos dos idiotas.