Consensos e compromissos fora de questão

Quando se entra em pleno num tempo de desnorte como o que estamos a viver, torna-se evidente que não há como livremente fazer o inverso. Seria lutar- indefeso- contra tudo e todos! Arranjam-se sempre pretextos e desculpas para ser feito o que vem a fazer-se, mesmo que de forma “exemplarmente” selvagem.

Assim, o que está “a dar “é quanto mais balda, mais desorganização, mais desnorte a acumular ao existente, melhor.

E, já nem se torna uma opção voluntaria manter alguma cividade, bem pelo contrário, é um “ter que deixar-se ir na corrente”, para não ser achado um “monstro”!.

De facto, tudo proporciona a que não se tenha que ter coragem, força, vontade, energia de “construir!”, uma diferença consistente, sólida e positiva. Para quê? Com quem? Onde? Como? Quando?

Entra-se por uma imbecilidade arrogante e generalizada, que progressivamente vai destruindo qualquer “coisa” que ainda possa sobreviver com princípio, meio e fim. E respeitarmo-nos respeitando os outros, seria o que mais faltava. E já não é uma prerrogativa dos jovens, os velhos, para estarem e serem “fixes”, vão na maré!

E, daí a totalmente caírem em desuso palavras e implicitamente serem de facto totalmente abolidas dos dicionários, por caducas, tais como “por favor, obrigado, não tem de quê”, bem como alguns gestos comportamentais, como deixar passar idosos, senhoras ou crianças, cordialmente à nossa frente, é uma pressa, “já foi”! Era o que mais faltava, persistirem!

Quanto mais intenso for o nosso ego, quanto mais brutos formos – elas e eles – quanto mais berrarmos sem falarmos, melhor.

Tudo isto é a antecâmara que desmorona qualquer veleidade de saber assumir compromissos e consensos. Já nem é uma opção, é uma vergonha sequer pensar em consensos e compromissos. Quer por não estar na moda, quer por não haver como fazer os próprios, e os outros saberem assumir os ditos compromissos e consensos. O que hoje é prometido, amanhã com o mesmo à-vontade é desmentido.

Vai daí que vamos continuando a baixar o nível de relacionamentos inter-pessoais e comportamentais, para quanto pior, melhor.

 Sem consensos, sem compromissos, sem auto-estima, até tudo cair de podre. E aí, não havendo como mais baixar, depois de tudo devastado aprende-se e apreende-se dos escombros a lentamente começar a subir. E aí, com compromissos e consensos- obrigatórios e tão ansiados – para ter como sobreviver.

Talvez não valesse ter sempre que fazer todo o percurso descendente, para novamente ascender. Ou, talvez sim?

 A. Küttner de Magalhães