Está dado como adquirido que não há regras.

Por certo, ainda pela influência de demasiados anos de ditadura, acompanhada por uma forte predominância, por vezes “misturada”, da Igreja de Roma, foram-nos impostas demasiadas regras, excessivamente restritas, que deixarem, nessa medida, de existir – e ainda bem – em democracia.

Com um paradoxo, evidente, não querendo ter regras obrigatórias – excessivas! – , por nos terem à força sido impostas, entramos “numa” de ser anti-regras, que podia ser benéfica se não estivéssemos demasiados formatados para as ter. Foram várias gerações a quem a liberdade foi coartada, e a dependência à força de outros, era uma “imposição”.

E, por isso mesmo, hoje, em suposta democracia não conseguimos, e em sítio algum se consegue, viver sem regras. Com a agravante de nosso ADN haver marcas de ter que ter regras, não as querendo “ter”! Mas, como é de “bom tomo” rejeitar regras, mas como não sabemos em elas viver e não damos como fazer consensos – também é de bom tom – , que é palavra que queima. Anda tudo à balda!

E, o mais grave, é que os que sugerem “consensos”, no seu quotidiano são os que mais deles se afastam. E do lado oposto, a negação do consenso, é a única forma de se mostrar resistente, ao que quer que seja e sobretudo, mesmo que de forma espalhafatosa, achar estar do contra.

Claro que uma imposição exacerbada de regras, não deve ser permitida. Claro que seja quem possa ser, achar-se supremo ou com direitos de impor tudo o que lhe convém por lhe convir e dado cabo dos outros, é inadmissível.

Mas, não haver qualquer tipo de regras, como uns quantos defendem, é cair-se no vale tudo, até se necessário” tirar olhos, se quem os tirar poder ficar dono da visão de tudo e sobre todos”.

Assim, convirá democraticamente assumirmos que somos todos diferentes – o que é um facto -, mas que vivemos em espaços e tempos coincidentes. E para apaziguar diferenças sem as anular, e para haver hierarquias sem as quais a vida em sociedade não tem como ser vivida, tempos que viver com “algumas” regras.

E não vale a direita arvorar-se em dona da sabedoria das regras e a esquerda apostar que não têm que haver regras. Não! Haverá que haver consensos, haverá que haver regras, e terão que ser respeitadas.

E para não nos ficar tudo virado do avesso, vem sempre à ideia o trânsito a circulação civilizada – que não existe! – entre nós, os mesmos, quando somos peões e nós, os mesmos, quando somos automobilistas, e até aí estamos a querer tudo confundir, é de “bom tom”! Mas convirá que os automóveis continuem com regras a circular pelas ruas e os peões com regras pelos passeios e não o contrário, a não ser que estipulado, por novas regras!

Augusto Küttner de Magalhães