Nada de novo. Apenas revisão da matéria dada.
Há um governo, cujo grande líder e respectivo séquito acham que se pode manter o poder através de uma prática demagógica de investimentos públicos para encher o olho, mesmo que com escassa utilidade. Para isso, para assegurar que tudo bate certo com calendários eleitorais, estabelecem-se relações preferenciais com alguma banca, mesmo que à custa de contratos muito pouco vantajosos para o interesse público, sempre com a confiança de que, trocando-se favores, tudo se resolverá.
Na banca, entre os negociadores privados desses contratos, entre aqueles que entram no sistema de troca de favores há gente próxima do partido da oposição que pretende chegar ao poder. A informação circula, o potencial futuro PM é informado, conhece os buracos antecipadamente, denuncia o descalabro, mas nem sempre de forma completa.
Chegado ao poder, na constituição do novo governo premeiam-se alguns daqueles que antes facultaram a informação, que serviram de conselheiros, que sabem estar aqui e ali, negociar dos dois lados da barricada, servir todos os deuses e diabos. Alguns vão tendo de ser sacrificados, mas outros permanecem e reforçam o seu poder.
Os que serviram as negociatas do governo anterior sabem de tudo, sabem dos truqyes, de quem os fez, que contrapartidas existiram, mas não podem falar muito, pois também têm as impressões ditais espalhadas pelos contratos escritos e pelos apenas falados. Há demasiado em jogo para se arriscar um confronto em larga escala, mesmo quando está em causa um novo período eleitoral.
Como antes, tudo fica pelas denúncias vagas ou por alguns casos pontuais, pois esperam que – como no final de ciclo anterior – o poder lhes caia no colo, em virtude do total desgaste dos que estão.
Ao redor, alguns pretensos desalinhados, esperam por algumas fatias do bolo, por alguns foguetes da festa, esta ou aquela. Antes, eram as SCUT, o utópico TGV, o aeroporto que se anunciava como absolutamente necessário, a permitir estudos, consultorias, mais valias imobiliárias, expropriações oportunas. Eram autarquias de cores berrantes a encenar oposição sistémica mas apoio localizado às medidas que traziam remanescentes para as suas tesourarias. Limianos mais ou menos meridionais.
Agora, são lugares em empresas públicas para destruir e vender em bloco ou às fatias, em empresas com capital público enquanto há dividendos a colher ou distribuir, em empresas ditas privadas mas que vivem quase em exclusivo dos contratos com o Estado que se diz gordo. A prioridade é desmontar os serviços públicos para depois contratualizar com as empresas de onde saíram ou para onde esperam ir, concluída a fase de desmantelamento da “concorrência injusta do Estado”. Tudo feito com muita endogamia de apelidos e brasões de heráldica fraca.
Penso que é isto que se designa, em boa parte, como este belo pântano à beira mar prantado.
E assim fica a prosa, no terreno não-charlie, não ad hominem, que é para não chocar aqueles que são todos a favor da liberdade de expressão, da coragem da imprensa, desde que não se coloquem os seus nomes nos espaços em branco.
Janeiro 17, 2015 at 7:18 pm
Concordo com tudo, mas há uma coisa que não bate certo.
Não havia dinheiro.
Não-há-dinheiro – quantas vezes nos matraquearam com esta conversa?
Agora já há?…
E antes de respostas precipitadas, convém lembrar que o país está hoje muito mais endividado do que estava quando o actual governo chegou ao poder.
Janeiro 18, 2015 at 1:04 pm
#1 A dívida só poderia crescer, mesmo sem despesas, dadas as maturidades e as taxas de juro altíssimas. Não significa que tenha havido crescimento da dívida por via de mais despesas. Temos um orçamento primário (sem o serviço da dívida) que é excedentário tanto quanto sei, mas que nunca chegará para nos libertarmos da dívida.
#0 Por posts como este e outros, sobretudo sobre educação ,este blogue não deveria nunca ser descontinuado, precisamos dele, ou seja, nós, os “desalinhados” precisamos dele. Mas o colega Guinote é que sabe o que é melhor, há limites para a paciência , sei bem e o custo de oportunidade pode ser elevado, por isso compreendo mas lamento muito se isso vier acontecer. Espero que não.
Janeiro 18, 2015 at 4:26 pm
#2
Tem razão. O que só demonstra que estavam cheios de razão os que defendiam e defendem que só com uma reestruturação da dívida se poderiam equilibrar as contas públicas; nunca com políticas austeritárias e recessivas.