Declarações completas para esta peça do I:

1. O que pensa à partida deste programa governamental do Reino Unido [Prevent]?

Penso que é um programa excessivo, hiper-securitário e que pode provocar reacções mais negativas do que resultados positivos. è daquelas medidas que se aproveitam de um medo irracional para impor medidas que limitam gravemente os direitos civis, um pouco como após o 11 de Setembro nos EUA.

2. Existe alguma forma de traçar o perfil de um terrorista em potência em crianças nos infantários ou na escola primária?

Só se poderá fazer isso com base no seu contexto familiar e sempre com uma enorme dose de incerteza. O próprio processo de identificação e categorização pode ser um factor de aumento de risco e não da sua redução. Para além de que não se percebe exactamente o que se fará em seguida. Ostraciza-se a criança? Integra-se num programa de “reeducação”? Retira-se à família?

3. Os críticos da medida dizem que esta abre a porta para discriminar à partida crianças árabes filhas de imigrantes. Que outros riscos potenciais representa este plano?

Pode representar um perigo de aumento da sensação de exclusão e vitimização, o que levará a uma escalada da sedução pela ideologia do martírio.

4. Não havendo ainda directivas definidas para os pedagogos e educadores sobre que crianças “suspeitas” denunciar, como se aplicaria um programa destes em Portugal? Que tipo de características seriam imputáveis a um “potencial terrorista” em idade escolar?

Não faço a mínima ideia.

O que é possível é identificar atitudes e comportamentos agressivos e de risco, mas num âmbito mais alargado que não se pode associar a “terrorismo”. Mas o profiling é algo passível de conduzir a demasiados alertas falsos e à prévia sinalização injusta de gente inocente.e tenho sérias dúvidas sobre o próprio perfil de quem pudesse ser seleccionado para essa missão de identificação de precoces potenciais terroristas.

5. No geral como avalia esta medida? Pode surtir efeitos positivos a médio, longo prazo ou fará mais mal do que bem?

Julgo que é uma medida demagógica e que exacerbará ainda mais as clivagens e ódios existentes ou apenas potenciais. Muito provavelmente, Como consequência do recente ataque à redacção da Charlie Hebdo até poderá parecer algo apropriado a muitas pessoas que vivem num universo mental que as leva a sentirem-se sob permanente ameaça e cercadas por inimigos disfarçados. Só que uma coisa é um comando treinado para uma missão semelhante a muitas operações secretas de forças paramilitares internacionais e outra uma criança estigmatizada por meros indícios resultantes da sua origem cultural, étnica ou religiosa. Reparemos como nos EUA o “profiling” com base em grupos étnicos ou etários tem conduzido a intervenções policiais despropositadas.