… é o traço mais evidente nos alunos à entrada do 2º ciclo.

Esclareça-se desde já que isto não é qualquer crítica à(o)s do 1º ciclo, que se debaterão com o mesmo problema, provavelmente numa escala ainda mais assustadora.

Mas apenas posso falar do que constato directamente.

Se o défice é alarmante em Português, de um modo geral, é ainda mais dramático em disciplinas com algum vocabulário específico, como a História ou as Ciências.

Eu sei que o quotidiano é diferente e quebrou laços com realidades que antes eram comuns e agora são periféricas e residuais nas zonas (sub)urbanas. e sei que parte da perda é compensada com a aquisição de novos termos, muito ligados às novas tecnologias e aos novos tempos.

Mas…

… tudo isto implica que seja necessário reavaliar a forma como comunicamos com os alunos e que opção devemos tomar como prioritária: simplificar ao máximo para nos tornarmos compreensíveis, manter uma linguagem mais complexa e exigir uma maior esforço aos alunos para colmatarem as suas lacunas ou andar ali a navegar à vista, em busca do melhor meio termo?

Em Português, esta situação tem implicações directas nos textos escolhidos para leituras na sala de aula ou como propostas para leituras autónomas. Há textos tidos como “clássicos” para o público infanto-juvenil que é necessário levar o tempo quase todo a explicar; em contrapartida, há textos “modernos” que confrangem pela sua mediocridade assustadora, na tentativa de “chegar aos jovens”.

No caso da História, a leitura de fontes escritas tornou-se um exercício de criptologia e mesmo as fontes iconográficas envelheceram vários séculos num par de décadas. Explicar as inovações da agricultura no século XII com base em gravuras com charruas e arados exige mais esforço do que imaginar o Carlos Moedas numa rave gótica.

E nem sempre nos apercebemos disso, pois a evolução foi rápida mas muito subtil.

Um aluno dos anos 80 ainda percebia o vocabulário de um professor formado nos anos 50, mas os alunos actuais dificilmente seguem alguém que se tenha formado há 20-25 anos. Os mundos são muito diferentes. Acho que só “austeridade” e “FMI” aproximam 1984 a 2014 e isso não faz parte dos programas.

Mas uma das consequências mais complicadas do “novo vocabulário” é que fragmentou o discurso a um ponto que torna muito penoso o esforço para produzir textos vagamente conexos com mais de 20 ou 30 palavras.

E muito do insucesso escolar/académico tem origem em problemas graves de comunicação nas salas de aula, como se estivessem em confronto línguas diferentes.

São queixas de alguém velho, que despercebe e critica (como sempre aconteceu) o discurso dos novos?

Nem por isso… é mesmo a constatação de que a comunicação se tornou gutural.

O mais problemático é que linguagem e pensamento estão muito ligados…