Há uma enorme clivagem entre os estudiosos da coisa e os que vivem a coisa. E por coisa, entendam-se as aulas reais do Ensino Básico e também Secundário.

Dizem-nos os estudiosos, quando descrevemos o quotidiano, que produzimos narrativas, que são fragmentos de um real localizado que, por si mesmos, têm um valor relativo, pois é necessário integrá-los num grande plano, que transcende as experiências individuais.

Até hoje ainda não percebi se um quadro estatístico ou uma conceptualização muito sofisticada, por si mesmos, substituem a realidade das aulas, o concreto das narrativas que nos acusam de produzir, dizendo isso sempre com um tom de paternalista condescendência que, não raro, desperta o mais killer do meu instinct.

Dizem-nos ainda outros, quantas vezes cheios de boas intenções, que devemos assegurar o sucesso a todos os alunos, não excluir, preparar as aulas até para o mais renitente dos renitentes que por lá aparecem.

Sim, concordo, mas por vezes, a faceta de entertainer que somos obrigados a assumir para chamar a atenção dos tais renitentes, toda a criatividade que colocamos no ensino dos advérbios ou da batalha de Aljubarrota, podem fazer-nos alienar a metade da turma que até se sente confortável com uma aula mais convencional e que sente que parecemos só estar preocupados em incluir 2 ou 3 estarolas, enquanto prescindimos de prestar o melhor serviços aos 12 ou 13 (ou mais) que até estão lá para fazer algo mais conservador (porque os miúdos são mais conservadores do que se quer fazer acreditar, em especial quando precisam de segurança para se expressarem).

E depois há ainda os especialistas do sucesso e da indisciplina como mito, que nos querem fazer acreditar que é possível dar uma aula inclusiva, a todos os diferentes e os iguais, enquanto existem micro-fenómenos de falta de civilidade básica, o arroto destemido, a conversa sempre que apetece, a esferográfica atirada pelos ares para o colega só porque sim, o exibicionista mexer constante no estojo das 36 canetas que produz aquele agradável ruído de fundo a qualquer aula que se baseie numa comunicação entre 25 ou 30 pessoas.

Porque tudo isto são gotas e todos nos dirão que não são indisciplina propriamente dita, que não são razões para registar ocorrências disciplinares, que não são motivo para excluir este ou aquela da aula.

Mas…

Experimentem lá estar 90 minutos (ou várias vezes 90 minutos ao dia) a levar com uma gota de água na testa ou a cair de uma torneira, de poucos em poucos segundos, e digam-me se não mói… se não produz um estado de espírito de pré-ruptura da paciência.

Podem ensinar-nos exercícios de respiração para relaxar, técnicas de meditação para nos abstrairmos, até estratégias mais “activas” para desarmar as situações, mas há (quase) sempre um momento em que… não há conceptualização que sirva para lidar com os sujeitos das narrativas.

E depois não chega falar em burnout e coisa e tal, porque já é tarde e já lixámos muita gente na base do coitadinhos-das-crianças e do teacher-leave-the-kids-alone a cheirar mofo e com o vinil riscado.

(E nem é bom falar da parte em que, quando confrontados os responsáveis familiares com situações já mais gravosas do que a gota de água, ou ouvimos um risinho apatetado do “são crianças, o que quer?” ou o mais lacrimoso “diga-me o que fazer que eu já não sei como lidar com el@”.)

(E nem é bom falar daqueles que relacionam directamente estes comportamentos com minorias étnicas ou culturais, quando não entram mesmo por designações equivalentes ao british white trash, pois eu poderia apresentá-los a exemplos de maiorias étnicas sem especiais problemas, cujo prazer é conseguido através de shots de destrambelhamento e cujo gozo é conseguido, desde cedo, ao ver o resultado do mal por si feito de forma consciente e voluntária em colegas, funcionári2s e professor@s.)