Domingo, 21 de Setembro, 2014


 

beij’ na bunda!

 

Anúncios

Cratty Walks.

 

cratty

Prince, Controversy

Ontem, quando começava a almoçar, um cidadão com nome aproximou-se da minha mesa, deu-me os cumprimentos pelo comentário que fizera na TVI24, mas disse que eu devia ser mais incisivo, porque os professores estão a ser esmagados.

Eu cá não acho que seja pouco incisivo, apenas acho que não esperneio, qual canino desgovernado.

Mas… a pessoa em causa tinha razão numa coisa… os professores sentem-se cada vez mais esmagados e o início deste ano lectivo – condenações e desculpas à parte – voltaram a não ter grandes razões para se sentirem estimados e estimulados pela tutela ou pelas mensagens que inundaram o espaço mediático.

Vejamos… ainda antes de começar o ano tivemos a desilusão de muita gente perante o logro das rescisões, enquanto ao arrancar Setembro tivemos a palhaçada da BCE. Sejam os mais “antigos”, sejam os mais “novos”… os dos quadros ou os contratados foram, mais uma vez vítimas de opções políticas e decisões técnicas que oscilam entre a falta de respeito e a falta de decoro.

Ao nosso redor, nos primeiros dias do ano, nas salas de professores ou nos espaços de debate, quase só se encontram palavras e rostos marcados pela frustração, pela irritação, pela desilusão, pela tristeza.

E com razão.

Mas havia mais à espera.

A partir de um bom relatório técnico do CNE sobre o Estado da Educação em 2013, o que foi chamado para primeiro plano?

Que as escolas falsificam as notas, beneficiando injustamente os alunos, mas também que são antros de uma cultura de retenção que custa 200 milhões de euros ao país; que os professores estão envelhecidos e que é indispensável um novo método para os seleccionar, pois são necessários melhores professores, pois na sua formação também terão classificações inflacionadas.

O que significa que tudo começa sob suspeita, com acusações de manipulação de notas, mas igualmente de um excesso de rigor avaliativo, de velhice e falta de qualidade.

Parece tudo mau, nada parece positivo. Mesmo os restantes títulos, raramente encontraram algo de positivo na Educação e nada em relação a escolas e professoras.

Phosga-se, pá! Nem vou entrar naquela coisa de rebater ponto a ponto as acusações, já só peço que encontrem alguma coisa de positivo.

Por exemplo, o facto de eu ter uma careca crescente, não significa que isso tenha de ser repetido à exaustão, ano após ano. Não poderiam, por exemplo, de quando em vez, referir que eu até mantenho muitas áreas pilosas pelo meu corpo, mesmo avaliando só pelas visíveis?

É necessário estar sempre a dizer que sou míope, não destacando que tenho uma audição de tísico?

O que quero eu dizer com isto?

Não é que a tutela, a comunicação social e a própria opinião pública tenham de andar sempre com os professores ao colo e a fazer-lhes cafuné no cocuruto.

Mas podiam dar-nos uma folguinha, de quando em vez?

Não se poderia, nem que fosse como excepção, destacar coisas positivas ou associar os professores a alguns dos aspectos mais positivos que é inegável existirem?

E se em vez de se dizer que o abandono escolar está bem acima da média europeia, se sublinhasse que os ganhos em duas décadas são enormes?

É que, parecendo que não, os professores também gostam de ver o seu trabalho reconhecido, nem que seja nos anos bissextos, em vez de estarem sempre a ouvir que são muitos, são caros, que aldrabam as notas, que chumbam, demasiados alunos, que estão velhos e precisam ser trocados por outros?

Será que quem diz ou escreve estas coisas não percebe que dificilmente está a ajudar a melhorar as coisas? Eu sei que há quem produza esse tipo de discurso de propósito mas, que raios!, não podem as outras pessoas (que acredito serem de bem) pensar que não gostariam que lhes fizessem o mesmo?

E deixar de chamar “corporativo” a quem ouse discordar da cantilena?

Estamos envelhecidos? Já sabemos! Somos os primeiros a sabê-lo!! Por isso é que um número substancial se aposentou (e esses são os únicos que aparecem pelas escolas com ar sorridente) e muitos outros tentaram rescindir o seu vínculo laboral!!!

Que é preciso formar melhores professores? Acham que não sentimos falta de colegas novos, com novas ideias, novos métodos, nas escolas?? Claro que sentimos, mas os últimos professores a conseguirem entrar para os quadros – nestas vinculações extraordinárias – têm quase todos a idade média dos que já neles estão!!!

A formação de professores podia ser melhor??? Claro que sim!!! Mas de quem é o raio da responsabilidade pelo funcionamento desses cursos??? Quem lá dá aulas???

Será que quem produz este tipo de narrativa, repetida, ano a ano, mês a mês, dia a dia, relatório a relatório, não entende que, mesmo que tenham razão, parecem apenas obcecados em ampliar a parte negativa da realidade? Que apenas ajudam a uma atitude de derrotismo que nas escolas se traduz em situações de um dramático desânimo e de uma progressiva depressão colectiva?

Quando será que os professores merecem o reconhecimento (político, público) pelo trabalho que efectivamente fazem e bem, em vez de serem os bombos da festa, a cada novo ano lectivo que arranca, seja por actos de políticos ineptos, seja por palavras de quem também tem a obrigação de ver o que não corre mal?

… mas a citação é fiel ao pensamento transmitido. Faz parte de uma peça do Jornal de Letras desta semana acerca do arranque do novo ano lectivo e da situação da Educação.

PG JL17Set14

Numa altura em que se volta a reforçar a necessidade de ter os melhores professores nas escolas, para trabalhar com os alunos da melhor maneira possível, é frustrante constatar que temos quase uma década de desinvestimento no capital humano dessas mesmas escolas, quantas vezes manipulando os dados sobre as despesas com pessoal, os rácios e muitas outras coisas.

O engenheiro desinvestiu no humano, justificando-se com o investimento tecnológico.

Este justificou-se com a troika e depois com umas manigâncias estatísticas.

Que tais opções, porque excessivas e mantidas na base de preconceitos e animosidades, já estão a ter consequências graves, é uma evidência pela qual dificilmente pedirá as devidas desculpas.

 

… na harmonização com a melhor fórmula para encarar que amanhã é segunda feira e tenho uma resma de tempos lectivos…

O ministro da Educação e Ciência considera que “quando se comete um erro deve-se assumi-lo”, daí que tenha pedido desculpas públicas aos professores e aos portugueses esta semana. Quanto às consequências políticas, apenas afirma: ” O meu lugar está sempre à disposição do Sr. primeiro-ministro.”

Isto é de uma evidência tão evidente que, evidentemente, só posso evidenciar a minha concordância.

Já quanto ao resto, acho que quando não se tem nada de interessante ou relevante para dizer para além das evidências, não vale a pena perder tempo e ocupar páginas de jornal a enunciar “progressos” que daqui a não muito tempo termos a confirmação de terem sido À caranguejo.

Quanto ao coro de críticas afinado que lhe fazem, o ministro da Educação não está de acordo com a sua existência: “Ao fazerem-se mudanças, há sempre críticas. Fizemos uma série de progressos importantes na Educação, sobre os quais convinha termos consciência.”

Página seguinte »