A SAÍDA, CRATO, É… SAIR!

Aceitar que o começo (e cada começo) do ano lectivo seja uma bagunçada, considerar que isso seja normal e tentar torná-lo aceitável – como se cada ano trouxesse grandes novidades ou problemas técnicos inultrapassáveis e imprevisíveis no domínio organizativo e na colocação dos professores -, tal é, muito simplesmente, a posição que vemos o governo tomar, perante o espanto das escolas, famílias e professores.Trata-se de uma posição política, como resulta evidente. Mas de que o governo não aceita as consequentes responsabilidades. Políticas.

Porque, com efeito, os deploráveis acontecimentos que marcam este início de ano lectivo não são uma fatalidade, não decorrem de uma inevitabilidade técnica – mas de orientações de ordem administrativa e organizativa resultantes de determinadas decisões e opções políticas. A trapalhada indescritível que vem rodeando a colocação dos professores constitui, em primeira e última análise, uma questão política. Com responsáveis políticos.

Isto deveria ter, portanto, consequências. Políticas. A responsabilidade política por esse falhanço clamoroso é, obviamente, do ministro da tutela. E quem é responsável por um desastre dessa monta – se tivesse um módico de decência pessoal e de consciência do seu indeclinável dever público – só podia tomar uma decisão: a demissão.

Mas Nuno Crato, não apenas não o assume, como acrescenta uma nota de suma hipocrisia à sua posição. “Estão a assistir a uma coisa que não é comum na História (!), que é um ministro chegar ao parlamento e reconhecer a responsabilidade por uma não compatibilidade de escalas, e um ministro assumir que o assunto vai ser corrigido”.
Como se tal acto de contrição, por supostamente designar um gesto de um ineditismo exemplar (só na cultura laxista em que vivem os nossos governantes é que se pode pensar isto), o isentasse, por si só, de responsabilidades e o eximisse de prestar contas. Responsabilidades e contas políticas. Pois não são a outras que, dado o seu cargo, tem que responder em primeira linha.
Atribuir os erros colossais detectados na colocação dos professores a meras “falhas de ordem técnica” (e, implicitamente, ao supervisor dessa área, que se viu assim compelido a demitir-se), como se, misteriosamente, por outro lado, lhe tivesse sido outorgado um estatuto que lhe reconhecesse uma espécie de “bondade natural do governante”, cuja vontade, no fundo, se inclinaria sempre no sentido de preservar a verdade e o interesse público: eis um refinado maquiavelismo que (ainda) alguns julgariam de todo inacessível ao “académico inexperiente” Nuno Crato.
FARPAS