Vou tentar fechar esta série de posts, que já vai longa para quem não queria dar conversa a miúdos reguilas, abordando de novo o tema dos salários, seu valor e evolução, em conjunto com a questão dos rácios alunos/professor, para que não se pense que não tenho “factos&argumentos” a esse respeito, para além de questões metodológicas…

Porque não gosto de ler coisas como esta (e outras coisas bem mais inanes nos comentários):

Portugal é também dos países em que os salários dos professores mais aumentaram entre 2000 e 2011. O que só demonstra a necessidade da correcção que os sindicatos tanto lutaram por evitar.

Em especial quando se insere numa narrativa que vem dos tempos do engenheiro (se pensarmos bem, foi desde o início a sua linha de acção mais consistente) e que se pode resumir assim:

  • Os professores ganham muito, em especial em termos relativos, quando comparados com os de outros países, sendo muitos e com um rácio de alunos por professor muito mais baixo do que nesses países. Por isso, devem ganhar menos, o seu leque salarial deve ser estreitado, pois chegam muito rapidamente ao topo da carreira, e devem existir menos professores para o sistema ser mais eficaz. Para além disso, não perderam poder de compra na última década.

Eu vou dividir esta narrativa em duas partes: a do nível salarial e a dos famigerados rácios. Para isso, vou usar os dados de diversas publicações da rede Eurydice, que é a base de dados especificamente sobre Educação na Europa com maior rigor na sua apresentação e na explicitação das metodologias usadas, incluindo quando assumem que existem dados para alguns países que não são completamente compatíveis entre si.

Quanto aos salários, não vou contestar aquela parte em que se diz que os professores portugueses ganham imenso (o que é ridículo), mas apenas desmistificar alguns dos aspectos da narrativa e apresentar uma explicação que deveria ser óbvia, mas ao que parece não ocorre a certos inteligentes.

Antes de mais, vejamos a tabela comparativa dos valores NOMINAIS dos salários mínimo e máximo:

SalariosProf12a13bNo caso do valor mínimo, ajustado ao PIB de cada país, Portugal não está muito longe da generalidade da amostra. No caso do valor máximo, já expliquei em post anterior que ninguém está no mítico 10º escalão (Índice 370), pelo que há ali uma representação (assinalada com um círculo verde( que não tem correspondência com a realidade.

Vejamos agora se é verdade que os professores portugueses chegam muito rapidamente ao topo da carreira:

SalariosProf12a13Como facilmente se verifica, é falso, pois os professores portugueses são dos levam mais tempo a chegar ao topo da carreira, mais exactamente 34 anos. Na maior parte dos países, o topo da carreira é alcançado em menos 10 anos.

Passemos então a outro aspecto, que é o da evolução salarial dos docentes desde 2000… é fácil verificar que, tirando o ano pré-eleitoral de 2009, não existem ganhos salariais. é ainda interessante ler a nota explicativa no fim do quadro.

SalariosProf12a13c

E quanto à evolução nos últimos anos?

Diga a tertúlia insurgente e o seu jovem “economista de formação” CGP mais a “claquezinha” de comentadores, os números são indesmentíveis. Portugal foi um dos poucos países onde as perdas salariais dos docentes ultrapassaram os 5% anuais desde 2010:

SalariosProf10a12SalariosProf12a13d

Com a Eslovénia e a Grécia, Portugal é um dos países onde os professores foram mais atingidos pelos cortes salariais.

Mas… ainda assim ganham demais?

Porque será?

Será que… por estranha que seja a ideia… é porque os professores portugueses passam mais tempo na sala de aula?

Será?

Vejamos:

HorarioProfesHorarioProfesbHorarioProfesc

 

 

Um professor finlandês do 3º ciclo deve leccionar 14 a 16 horas lectivas e ficar na escola entre 17 e 21. Um português deve leccionar 22 horas e permanecer na escola pelo menos 25. Uma ampla maioria dos professores apenas deve leccionar até 20 horas e são muitos os países que se ficam pelas 16 e 18 horas.

Os professores portugueses ganham mais, em termos relativos?

PORQUE TRABALHAM MAIS, DANDO MAIS AULAS OU DESEMPENHANDO OUTRAS TAREFAS NA ESCOLA!

Não defendem que se deve remunerar de acordo com o trabalho? Se um professor português lecciona mais 20% do tempo não deve receber mais do que quem trabalha menos?

Eu penso que sim.

***

E quanto aos rácios?

Haverá explicação para essa praga de haver mais professores portugueses nas escolas do que em outros países?

Há várias explicações, mas eu deixaria aqui uma, em busca de confirmação pelos factos.

Será que é porque… o currículo dos alunos portugueses é mais extenso, implicando mais horas de aulas e, por consequência, mais professores?

Não é natural que, antes de se insultarem os professores por serem muitos, e na sequência do que ficou acima já exposto, se busquem explicações naturais e óbvias?

Será que dá para tentar confirmar esta minha ideia?

Vamos lá…

HorariosCargaJá repararam como desde o 5º ano, mas em especial desde o 7º ano (estes dados ainda não contemplam a escolaridade obrigatória de 12 anos entre nós), o número de horas de aulas dos alunos é, em Portugal, bem maior do que em outros países?

Uma diferença bem significativa… sendo por isso que o ministro Crato andou a tentar cortar o máximo no currículo, não em defesa dos alunos, mas para cortar professores, cortando as ACND, mas não repondo as horas que tinham sido retiradas às restantes disciplinas “nucleares”?

Dá para perceber porque há mais professores nas escolas?

E que não é por terem menos alunos do que os outros?

Mas porque existe uma carga lectiva maior?

É preciso fazer um desenho para ensinar os economistas-gestores-empreendedores insurgentes inteligentes A PENSAR?

Não será que é mais honesto procurar as explicações REAIS antes de