Vamos lá, dia novo, malhação nova.

Eu bem que quis evitar isto, porque não gosto de ter de voltar pela 741ª vez a coisas já escritas e rescritas ao longo dos anos, mas a tertúlia económica insurgente para totós provocou demasiado e esticou-se na presunção de ter “factos&argumentos” e os seus odiados de estimação – os professores – não serem capazes de rebater a sua “narrativa”, herdeira do socratismo e tão honesta quanto ela na utilização dos “dados”.

Ahhh… e depois há aquela peneirice de serem os “economistas de formação” dotados de um conhecimento técnico de tipo iniciático a que os comuns mortais não conseguem chegar só porque usam termos ingleses para designar platitudes.

Mas vamos lá… concentremo-nos em outra parte da “narrativa”, aquela em que dizem que o nossos sistema educativo, em especial o público, é de má qualidade em termos comparativos, que o nosso desempenho é medíocre e que isso é culpa de professores que trabalham mal e recebem muito.

Tal como em post anterior, poderia ir buscar as fontes próximas deste tipo de discurso anti-professores do ensino público, muito comum há anos nos EUA e que entre nós é decalcado com ligeiras alterações. Mas, acho que já deu para se perceber que os entusiasmados falácios estão longe de ter um pensamento próprio.

Bom… não nos dispersemos.

Concentremo-nos num sistema educativo que teve de recuperar de um atraso de décadas, pois nos anos 50 do século XX era um dos mais atrasados – de longe – da Europa.

Os dados estatísticos da época são da UNESCO:

LiteracyLiteracy2Foi este panorama que foi necessário combater, pois estávamos muito longe de quaisquer padrões internacionais, em particular europeus. Poderia falar de benchmarks e de como partilhávamos com Malta a base da distribuição, mas parece-me desnecessário.

Essa evolução foi especialmente acelerada a partir dos anos 70, com uma massificação do ensino que conduziu a que os resultados, em termos qualitativos, nem sempre fossem os melhores.

A estabilização do sistema só acontece nos anos 90, apesar de muitas inflexões, truncagens e adaptações da reforma de Roberto Carneiro, em especial no período final do cavaquismo, quando as coisas apertaram e a Educação foi lançada para o fim das prioridades e se sucederam muito maus ministros da Educação, desde o efémero tio do Zé Durão à Dama Ferreira Leite de Ferro. O guterrismo chegou, com paixão pela Educação, mas muita outra ganga à mistura.

Mas isto não é uma aula de História da Educação, mas sim um texto que deve demonstrar como o desempenho do nossos sistema educativo, apesar das falhas que sempre lhe apontámos, até conseguiu muito.

Comecemos pelo primeiro ciclo e vejamos como foi a evolução dos alunos portugueses nos testes comparativos internacionais PIRLS e TIMMS.

Ao contrário do que se tenta dar a entender, os alunos portugueses foram dos que mais evoluíram dos anos 90 até 2011, apresentando uma performance próxima ou acima da dos alunos de outros países “de referência”, aqueles que há 50 anos tinham 40 pontos de avanço sobre nós em termos de literacia da população:

PIRLS2011PIRLS1Pois é… estão ali a ver o “PIRLS Scale Centerpoint”?

Estamos muito acima.

Mas passemos para a parte da Matemática, em que tradicionalmente esbarramos:

TIMMS2011Phosga-se!!!

Estamos bem acima da média internacional!

Mas lá isto é possível!!! A teoria económica educacional insurgente não contempla tal possibilidade!

Muito pior… conseguimos recuperar do atraso em que ainda estávamos nos anos 90 e tivemos uma evolução capaz de envergonhar germânicos e escandinavos.

TIMMS1

Olhem lá agora os benchemarquises:

TIMMSCiencia4

Ganda tareia que damos à maioria dos europeus!!!

E logo no início do Ensino Básico, leccionada por “professor@s primári@s”, que merecem o desdém sistemático dos inteligentes.

Mas… pois… eles não sabem que testes são estes, só conhecem os resultados do PISA.

Aqueles sobre os quais escrevi várias vezes como aqui, revelando as minhas reservas sobre a evolução dos resultados em 2009.

A verdade é que os alunos portugueses apresentaram uma evolução positiva no médio prazo, apesar de eventuais distorções localizadas, recuperando bastante da posição baixa em que estavam e aproximando-se progressivamente da média.

Mais interessante… revelaram-se dos melhores a resolver problemas:

Pisa2012Tec1PISA2012TecE conseguiram isso, alcançando dos mais elevados ganhos anuais:Pisa2012fMais interessante ainda, conseguiram resultados bem acima do expectável com base no seu background socio-económico. Há dados do PISA que revelam isso, mas que foram sistematizados e tratados pelo insuspeito ex-ministro e actual presidente do CNE, David Justino:

Justino2Ora bem… agora vamos lá PENSAR um pouco…

  • Os alunos melhoraram os seus resultados de forma consistente do 1º ao 3º ciclo.
  • O sistema conseguiu passar da massificação à melhoria da qualidade do desempenho, atendendo aos padrões comparativos internacionais.
  • Os resultados são acima do que seria de esperar, atendendo ao perfil socio-económico das famílias.

Então… se calhar… quiçá… porventura… talvez…

… tenham sido as escolas e os professores a contribuir para isso, com o seu trabalho quotidiano, aquele trabalho que alguns imbecis amesquinham, na base do preconceito, da ignorância e da desonestidade.

Já agora… que actividade (económica) em Portugal se pode gabar de apresentar estes resultados?

Que outros profissionais (à excepção do SNS) pode gabar-se de ganhos tão significativos, que demonstram a qualidade de um serviço público universal que muita gente gosta de desdenhar?

A verdade é que… comparados com certos “economistas de formação”, “empreendedores” subsidiodependentes e “consultores” de empresas que vivem de contratos com os poderes públicos, “encostando-se” ao Estado que criticam em textos indigentes, os professores são génios, overachievers, incomparáveis com base em qualquer padrão reconhecível, benchemarquises ou outros.

É minha opinião que, atendendo ao que se pode demonstrar, os professores deveriam ganhar muito mais e ter o respeito – ou pelo menos o silêncio respeitoso – de blogueiros de quarta categoria.

Chega assim, com muitos gráficos e números, ou precisam de ser mais malhados?

(todos estes dados e gráficos são de posts publicados desde 2006, nem foi preciso ir buscar nada de novo…)