Divulgo, com autorização da autora, a carta que a presidente da APM me dirigiu a propósito de umas observações que fiz em post de há uma semana. Transcrevo a carta propriamente dita, que anexo com as respostas completas dadas ao Expresso por LF (as minhas estão aqui).

Mais tarde, publicarei a minha resposta, para dar tempo a cada posição para ficar clara.

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Caro Paulo Guinote

Sou pouco frequentadora de blogues; não é um tipo de comunicação nem uma forma de diálogo em que me sinta minimamente confortável.

Para mim a importância da palavra no seu contexto, a construção de pensamento em diálogo colaborativo em que discordamos olhos nos olhos, em que nos reforçamos nos significados partilhados, nas buscas, nas incertezas, nas (poucas) convicções que nos unem para além de tudo o que nos possa dividir e que, em minha opinião, tende a ser sobrevalorizado neste tipo de comunicação em que o tom de agressividade e de ironia – ou pior, de desdém, de rápido e fácil julgamento, se reveste de características demasiado maniqueístas.

No entanto reconheço que vivemos uma era em que este tipo de comunicação é ineludível e por isso, ainda que reconheça a minha incapacidade, admiro aqueles que utilizam estes meios com a persistência e a atualização permanente que exige – e a exposição também – ainda que sacrificando análises mais complexas e completas, ainda que à custa da profundidade que é a minha nostalgia.

Estou fora do país desde o dia 12 de agosto a participar num seminário de interculturalidade. Talvez por isso, por estar num ambiente em que se procura encontrar aquilo que nos une enquanto condição humana e que perpassa culturas, países, nações, etnias, religiões, ideologias, gerações, individualidades (esse mínimo ético que alguns continuam a procurar como lugar de entendimento e colaboração e onde a educação joga um papel insubstituível) surpreendeu-me especialmente o tom do post que colocou e o tom das reações que provocou. Sem ser frequentadora de blogs e sem ter tido sequer a oportunidade de ter visto a peça saída no Expresso, fui alertada por email para o teor do que escreveu e dos comentários que suscitou.

Tenho absoluta consciência do risco que é a exposição à comunicação social, sobretudo no formato entrevista em diferido sempre sujeito a posterior edições com cortes e descontextualizações, quer seja na rádio, na televisão ou na imprensa escrita. Pessoalmente não assumiria esta exposição; faço-o apenas por dever associativo. Enquanto presidente da direção da APM, tenho consciência – e temor – do dever de dar voz. Faço-o em nome da Associação que tão gratamente (de agradável e de agradecida) represento. Sem a pretensão de ser voz de cada um dos seus associados mas com a convicção de que digo muito do que foi e é a palavra constitutiva, aquela que faz parte dos nossos significados partilhados, que conheço desde o seu início sabendo, certamente, que não a possuo.

Há, no entanto, algo em que tenho extremo cuidado nas minhas declarações públicas: a defesa dos professores. Por isso surpreende-me o que me parece ter entendido nas suas palavras que, ao citar a “cultura de retenção” referida por David Justino, eu: 1) tenha concluído que essa cultura de retenção seja protagonizada sobretudo pelos professores ou tenha neles os principais mentores; 2) me tenha “colado” ao presidente do CNE não sei por que espécie de aliança ou interesse de circunstância. Se referi essa “cultura da retenção” é porque, neste caso, eu concordo com as declarações de DJ e, pensava eu, que ao citá-lo me encontrava “acima de qualquer suspeita” exatamente por não me rever especialmente nas suas posições em matéria de políticas educativas, que aliás, para além da sua prática enquanto ministro, conheço pouco. Efetivamente, até pelas reações que tive oportunidade de ler no blogue, se há algo que vi refletido no teor das opiniões foi ainda uma grande afetação por essa mesma cultura de retenção; caso contrário não estaria tão subjacente o gasto, fácil e populista binómio facilitismo/exigência. E sim, digo que a escola padece – por peso do passado, por pressão social e política – de uma cultura de retenção. Senão, como se explicam aquelas sinistras e patéticas fórmulas para atribuição dos créditos horários às escolas que privilegia, por exemplo, as com melhores resultados na avaliação externa e aquelas em que as classificações dos alunos internos mais se aproximam dos resultados dos exames nacionais, sabendo nós os condicionalismos e a limitação deste tipo de provas, bem como a prática que se tem vindo a instalar, sobretudo no que à Matemática diz respeito? Já agora, seria muito pouco honesto eu referir a alteração dos programas a propósito do número de retenções no 2º ano, uma vez que estes alunos não foram diretamente afetados por essas alterações. Outra coisa é o que elas significam e têm provocado junto dos professores e a isso fiz efetivamente referência nas respostas que dei ao Expresso (que aproveito também para anexar).

Surpreende-me o tom de desdém com que se refere às minhas declarações. Alguma vez teve interesse em saber o que se está a passar com o ensino da Matemática no nosso país? Alguma vez teve a curiosidade sequer de saber aquilo que a APM defende, aquilo que denuncia e porquê? É assim tão difícil, para alguém que tem uma intervenção no espaço público sobre Educação, tentar um contacto que, ao menos, o qualifique minimamente em assuntos em relação aos quais está possivelmente mais distante? Por mim, manifesto desde já a minha disponibilidade para o diálogo e a partilha sobre o que pensamos e o que queremos para a Escola em Portugal e para o ensino da Matemática em particular.

Entristecem-me as profundas rupturas e enfrentamentos; as cada vez mais numerosas fissuras no nosso tecido social. No que à Educação diz respeito, entristecem-me duplamente por ser o âmbito onde, desde sempre, investi as minhas melhores energias, esforços, saberes; por nos sentir incapazes de definir um pacto social – ou chame-se-lhe o que for – para a Educação que nos salvaguarde das derivas ideológicas, dos ministros de turno; por nos ver a dirimir preconceitos e dogmas com pequenos e grandes ódios caseiros; por ver desperdiçado tanto esforço, tanto investimento na Escola e na educação pública. Será que não nos damos conta que, com um atraso de mais de 100 anos em relação à maioria dos nossos congéneres europeus, conseguimos enfrentar como poucos a democratização do ensino, a explosão demográfica da escola, finalmente para todos embora ainda não com todos, em épocas de instabilidade e poucos recursos? Foram os conselhos executivos, os professores (alguns até com reduzida formação académica) que com a sua entrega à causa da Educação conseguiram simultaneamente democratizar a Escola e fazer com que ela atravessasse as difíceis décadas de 70, 80 e até de 90 do século passado, fazendo com que os nossos alunos ombreiem com os de qualquer país com quem partilhamos sistemas educativos, políticos e culturais similares.

Já vai longa a carta. Ainda sou daquelas pessoas que gosta de escrever e conversar para se expressar embora, nestes temas como em quase todos os que têm alguma relevância, manejemos conceitos complexos que, se vistos só de um lado, nos aparecem como contraditórios sendo quase sempre complementares.

Peço desculpa por esta minha reação mas, às vezes, não gosto de ser mal interpretada. Outras vezes, tanto se me dá…

Com os meus melhores desejos para que todos possamos contribuir para uma escola pública de qualidade e que não desistamos de um debate sério, subescrevo-me cordialmente

Lurdes Figueiral
professora de Matemática e presidente da Associação de Professores de Matemática
Madrid, 22 de agosto de 2014

Anexo: Carta a Paulo Guinote.