Ficam aqui as minhas respostas às questões para a peça mencionada no post anterior. O que foi transcrito na dita cuja corresponde fielmente ao que transmiti e que só divulgo integralmente porque tem partes até potencialmente menos consensuais do que as que foram inseridas.

Pontos prévios:

As comparações no curto prazo, do nível de retenção no 1º e 2º ciclo, são prejudicadas pelo facto de corresponderem a um período de alteração nas regras, no peso dos provas finais e no próprio grau de dificuldade dessas provas, que variaram muito.

Também é muito importante analisar a evolução da nota interna e da sua diferença em relação à avaliação externa nestes anos, pois podem ter sido colocadas em prática estratégias “de protecção” por parte dos docentes ou conselhos de turma, no sentido de “proteger” os alunos de um dia mau (ou dois) na realização das provas finais. Em termos lógicos, essa estratégia será mais fácil no 1º ciclo em que a decisão é de apenas um docente do que nos restantes.

Passando às questões:

1.O facto de os chumbos no ensino básico terem subido nos últimos dois anos (entre 2010/11 e 2012/13), nos três ciclos, surpreende-o?

Não me surpreendem, pois correspondem a anos, em especial a partir de 2011, que conjugam dois factores importantes e pouco estudados: por um lado a mudança da equipa ministerial, por muitos conflitos que tenha vindo a gerar o ministro Crato, levou a uma descompressão inicial nas escolas em torno do “sucesso” a todo o custo que vinha em especial dos tempos de Maria de Lurdes Rodrigues/Valter Lemos; por outro lado, os efeitos da crise – por cliché que pareça – fizeram-se sentir muito duramente entre os alunos de famílias social e economicamente mais desfavorecidas, que passaram a chegar às escolas em piores condições para uma aprendizagem de sucesso, seja por causa do desemprego crescente dos pais, da redução ou desaparecimento dos apoios sociais ou mesmo da degradação evidente das condições de vida dos agregados. Por muito que achemos que é um chavão, a crise económica e a inflexão das políticas sociais do governo tiveram efeitos na vida dos alunos.

2.Sendo certo que o efeito dos exames nacionais não é claro (pode ter-se feito sentir no 6º ano, mas não no 4º – em ano de estreia no 4º ano a taxa de retenção chegou a baixar), esta evolução pode estar relacionada com o quê? Maiores dificuldades dos alunos? Uma atitude diferente dos professores nas avaliações?

O efeito das provas nacionais nas taxas finais de retenção só se pode perceber bem como a análise conjugada da avaliação interna com os resultados das provas finais, sendo a retenção final a combinação de ambas. O maior aumento do insucesso no 2º ciclo em relação ao 1º pode ser visto como a consequência de estratégias ou formas diferentes de encarar e lidar com a “ameaça” da prova final. No 1º ciclo, em regime de monodocência, é mais fácil “defender” os alunos de um mau resultado nas provas, enquanto no 2º ciclo isso depende de dois docentes e envolve ainda a classificação de outras disciplinas.

Não devemos esquecer, para além disso, o progressivo aumento do número de alunos por turma, que prejudicou bastante as condições de aprendizagem nas salas de aula.

3.Como se explica que 10,5% dos alunos chumbem no 2º ano?  Com estes valores, acha que é benéfico não haver retenções no 1º ano? .

Há muito que sou contra o sucesso por decreto (especialidade de muitas equipas ministeriais) ou o seu reverso, o insucesso como forma de passar os problemas para outrem (neste caso para outro docente ou Conselho de Turma).

O que interessa é dotar as escolas de meios humanos que permitam despistar de forma precoce situações de problemas de aprendizagem e encontrar estratégias eficazes para as superar. isso não se coaduna, em nada, com a evolução verificada nos últimos anos em relação aos alunos com necessidades educativas especiais ou problemas de outra natureza . social, emocional – que impedem o seu regular acompanhamento dos conteúdos e objectivos de anos e ciclos de escolaridade. Não se devem proibir os chumbos em qualquer ano de escolaridade, a menos que se coloquem ao dispor dos docentes desses alunos os apoios indispensáveis, de modo a não permitir a reprodução do insucesso, anos após ano ou, em alternativa, a produção de um falso sucesso que depois esbarra numa lógica de provas nacionais.

4.Se um ministro, este ou outro, dissesse que o objetivo agora era caminharmos para uma retenção de 0%, como acontece noutros países, não tinha a opinião pública a cair-lhe em cima?

Penso que muita gente o apoiaria, pois essa seria uma afirmação populista e demagógica que cai bem em muitos sectores que consideram que o insucesso é apenas responsabilidade dos professores, algo que é repetido como um “mantra” desde o final dos anos 80 do século passado.

Só que esse tipo de objectivo, com este ministro específico e com este governo, seria um paradoxo total, pois quase todo o seu discurso e praticamente toda a sua prática tem sido no sentido de combater um alegado”facilitismo” existente nas escolas. ora… não se pode acusar um sistema de ensino de ser “facilitista” e depois querer que ele produza ainda maior sucesso, quando as condições materiais pioraram nas escolas, seja para alunos, seja para professores.