Da(s) Morte (s)
Por uma questão de sobrevivência, tenho que acreditar que nada é por acaso. Morreu um jovem. Ninguém aceita a morte. Muito menos a de um jovem. E nós, pais e mães, sentimos uma parte duma dor inimaginável porque somos pais e somos pais. E não aguentamos essa dor reflexo e não queremos imaginar mais.
Repito: morreu um jovem. Todos sabemos que nenhum jovem pode morrer. Porque é jovem. Morreu um jovem. A avidez sobre esta morte leva a uma desmultiplicação de reacções sobre a morte deste jovem.
Morreu um jovem e aqueles que o amavam acima de tudo desejaram essa dor privada, recatada, longe dos olhos voyeuristas do mundo.Morreu um jovem. Com um pai e uma mãe. Com uma mãe que todos pensamos conhecer pelo menos o suficiente para partilhar dessa dor. Uma mãe-mãe. Uma mãe que não é uma “mãe qualquer”. Uma mãe jornalista.
Morreu um jovem e morreu uma mãe. E pela minha cabeça passam imagens tantas vezes repetidas e filmadas até à exaustão até ao pormenor das rugas de olhos que choram ou que já nem têm lágrimas.
Morreu um jovem e com ele morreu uma mãe. E a dor torna-se e revela-se pública. Como todas as dores da viúvas dos pescadores de Caxinas ou de órfãos das grandes catástrofes. Com zooms repetidos sobre olhos que se quereriam espelhos de uma alma protegida das lentes de quem as filma. Em nome de uma qualquer deus maior que se chama interesse público ou audiências ou o que quer que lhe queiram chamar.
Repito: morreu um jovem e morreu uma mãe.
E termino como começo: por uma questão de sobrevivência, tenho que acreditar que nada é por acaso.
Ana Mendes da Silva, mãe, 1 de Julho de 2014
Julho 1, 2014 at 7:43 pm
Se nada é por acaso, tudo faz sentido? Acho que não. Há coisas que não têm sentido nem razão nenhuma. A vida é absurda.
Julho 1, 2014 at 7:59 pm
A única coisa nesta vida que tem sentido é nada ter sentido algum.Nós queremos ver sentido nas coisas por uma questão de confortomental porque se chegarmos à conclusão que não existe mesmo sentifoalgum estamos fod.dos.
A vida é um breve respirar..
Julho 1, 2014 at 7:59 pm
Texto emocionante. Só não concordo com a relevância dada a Judite de Sousa – mãe. Judite de Sousa é uma mãe como outra mãe qualquer… E sofre como outra mãe qualquer …
Julho 1, 2014 at 8:30 pm
Texto emocionante ou emocionado??
Quem perde um filho percebe que nada mais faz sentido, e muito menos a procura do sentido da vida.
Julho 1, 2014 at 8:36 pm
hn5: Emocionado tb certamente. Mas emocionante por despertar ou acrescentar emoção nos outros ( em mim acrescentou…)
Julho 1, 2014 at 8:48 pm
# 4
“Quem perde um filho percebe que nada mais faz sentido, e muito menos a procura do sentido da vida.”
Subscrevo inteiramente.
E acrescento apenas isto (e decorrente da afirmação do h5n1): Os filhos são as únicas pessoas verdadeiramente insubstituíveis na nossa vida…
Julho 1, 2014 at 8:53 pm
Como será sobreviver a/com essa dor? Não dá para imaginar.
Julho 1, 2014 at 8:57 pm
Texto muito emocionante!!! Perder um filho deve ser uma dor que nada nem ninguém a fará atenuar.
Julho 1, 2014 at 10:55 pm
Para morrer só é preciso estar vivo! A morte é sempre triste seja novo seja velho. Pior que esta morte física é a morte eterna e com essa poucos se preocupam. Nesta morte ainda há esperança mas na segunda morte não há nenhuma esperança.
Julho 2, 2014 at 1:55 am
Hoje não falarei das mortes dos vivos, pior do que a vida dos mortos.
Julho 2, 2014 at 2:41 am
#3
mas é disso que o texto fala. Por ser Judite não pôde sofrer a sua dor no recato que merecia porque as lentes têm uma imensidão de olhos que a espreitam
Julho 2, 2014 at 8:44 am
é de esperar que tudo isto tenha feito a tvi aprender a tratar este tipo de assuntos.
pelo menos é de esperar que a partir de agora a repórter da tvi não vá perguntar, por exemplo à mãe de um jovem que morreu num acidente, “antes da entrega do prémio do joker e em exclusivo para o programa da ginchadora, como se está a sentir?”
Julho 2, 2014 at 9:51 pm
Treze.