Eu gosto muito dos clássicos elevados pelos liberais de aviário aos píncaros. Porque os li e gostei. E penso ter compreendido o que escreveram. E sei que foi num dado contexto e tudo.

Mas os nossos liberais tertulianos acham que as coisas são muito mais relativas e que a palavra sagrada dos seus mestres só deve ser sagrada às vezes, quando dá jeito sacar uma citação mesmo à maneira. Mas quando eles disseram e escreveram algo que contradiz claramente os seus interesses, nesse caso, vai de esquecer e seguir em frente.

Ora… eu gosto do Tocqueville e fui buscar uma edição coeva d’A Democracia na América, disponível online, que é para facilitar a vida aos maçães&lombas ou outros sobredotados juristas nas fileiras liberais do nosso actual desgoverno,

Tocqueville

Vejamos lá como ele descreve (vol. 1, pp. 103-104)as funções e independência do poder judicial face aos poderes legislativo e judicial, assim como o papel da Constituição (que precede a njossa em exactamente 200 anos nas versões originais… mas que por lá é venerada e ninguém considera “datada”):

Tocqueville103

(…)

Tocqueville104

Agora temos o papel do Supreme Court, garante supremo (passe a redundância) do cumprimento da dita Constituição, sem interferências externas (pp. 147-148):

Tocqueville147Tocqueville148

Esta parte final, aqui mesmo em cima, é especialmente divertida…

Mas continuemos (p. 151):

Tocqueville151

Curioso, não é? Que a “mãe de todas as Democracias” atribua a um órgão como o nosso Tribunal Constitucional um tal poder, sem que isso seja considerado mais do que o cumprimento do seu papel como garante da Constituição?

Podem(os) não gostar, mas então gostaria eu de saber que sistema alternativo defendem…