… por parte de quem sabe que mente e insiste em mentir para esconder o essencial.

Vejamos apenas algumas mentiras que se tentam repetir e multiplicar como se fossem verdades, quando não passam de bojardas.

1. O país entrou em falência devido às despesas sociais, resultantes de direitos constitucionais que não podem ser mantidos.

A verdade é que o país entrou em derrapagem orçamental há muito tempo, mas não foi apenas por isso e nem terá sido principalmente por isso, mas sim pelo facto de se terem desenvolvido habilidades para encobrir buracos e mantê-los fora do “perímetro orçamental”, ao mesmo tempo que se apostava em obras em regime de PPP que diferiam no tempo os encargos, que se tornaram progressivamente mais incomportáveis.

Parece que muitos especialistas da treta (o Camilo Lourenço é o exemplo mais insuportável, mas há outros que se podem encontrar agora em promoção na Feira do Livro) e articulistas liberais se esqueceram que, desde os governos de Cavaco, se entrou em esquemas de “engenharia financeira” para fazer obras públicas nem sempre muito essenciais, com o argumento de captar verbas europeias, embora fossem necessárias comparticipações nacionais. Essas obras conduziram a bons negócios para quem emprestou dinheiro ao Estado e se alimentou, em especial com Sócrates, de negócios em regime de PPP que não faziam entrar muita despesa nos OE daqueles anos, atirando tudo para mais tarde. Também se parecem esquecer que muitas outras despesas ficaram fora do tal “perímetro orçamental”, mas que eram conhecidas por toda a gente e mais alguém, como os défices das empresas públicas de transporte, não apenas por causa das despesas operacionais, mas em especial por causa das negociatas financeiras desenvolvidas por administrações constituídas por gente que acabou no actual desgoverno.

A verdade é que, durante bastante tempo e de forma a alimentar programas sucessivos de Medina Carreira com gráficos coloridos muito dramáticos, o peso das pensões e dos salários públicos pareceu descomunal porque dos orçamentos estavam desaparecidas muitas outras despesas… desorçamentadas, atiradas para o futuro ou, como no caso do BPN e outras negociatas de contornos muito opacos, porque os decisores políticos decidiram servir de almofada aos “empreendedores de sucesso” que não passavam de aldrabões com fatos de bom corte.

Agora querem-nos fazer crer que a crise orçamental é resultado das “funções sociais” do Estado e que ele deve ser reformado para se tornar “sustentável”. Mas escondem que o que desequilibrou em definitivo as contas foram os negócios comum ao Centrão e aos partidos do “arco da governação” que, em situações cirúrgicas, também beneficiaram (ou beneficiariam no futuro) algumas clientelas fora desse “arco”, em virtude do trajecto do TGV, da implementação de um novo aeroporto (afinal… era mesmo necessário?) e de outros esquemas relacionados com a alteração do uso dos solos por esse país fora.

A treta, é que há meia dúzia de anos os jovens galambas eram todos favoráveis a estes esquemas e agora gritam que eles são isso mesmo, meros truques, com a conivência do Banco de Portugal e da Presidência, ou seja, com o mesmo tipo de conivência de que beneficiaram os governos que apoiavam. Se Carlos Costa faz fretes sucessivos a este governo nas suas posições públicas, Constâncio fez o equivalente ao longo do seu mandato com os governos anteriores.

Comparem os encargos dos juros da dívida contraída para negócios validados por muita gente que agora sabe tudo com aquilo que se paga de pensão a milhares de portugueses e venham-me dizer que são 700 ou 800 euros de reforma que dão cabo das contas do Estado.

E, já agora… relembremos o comportamento “corajoso” de um certo PM que chegou ao poder a dizer que estávamos de “tanga” mas que fugiu à primeira oportunidade e de outro PM que chegou ao poder combatendo uma anterior líder do seu partido (Manuela Ferreira Leite) que tinha explicado que a situação era o que se foi sabendo, mas que ele (Passos Coelho) afirmava ser uma forma errada de encarar as coisas.

Em resumo, mentiu para chegar ao poder e ele – e quem o rodeia – sabe(m) bem disso, mas… a mentira tornou-se uma forma de estar… igual à dos que antes criticavam.