Caros e caras investigadores e/ou professores,

Somos investigadores no Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) da Universidade do Porto. Temos vindo a desenvolver estudos acerca da inflação de notas no ensino secundário e do seu impacto no acesso ao Ensino Superior. Publicámos recentemente um artigo na revista Higher Education, intitulado “Unfairness in access to higher education: a 11 year comparison of grade inflation by private and public secondary schools in Portugal” (em anexo). No seguimento dessa publicação, o nosso estudo foi divulgado nas edições de 3 de maio dos jornais Público e Expresso (em anexo), tendo posteriormente merecido alguma atenção de outros orgãos de comunicação social, designadamente da SIC e da TVI24.

Por considerarmos que a inflação de notas é um problema que anualmente gera graves e extensas injustiças, afetando a vida de milhares de jovens, pensamos ser nossa obrigação a divulgação destes dados junto de investigadores e/ou personalidades com interesse neste tema.

Abaixo segue uma pequena síntese dos resultados do estudo:
— a análise foi realizada considerando 3 grandes grupos de escolas (públicas, privadas com contrato de associação, privadas sem contrato de associação);
— existem grandes diferenças entre os dois tipos de escolas privadas, sendo que a inflação nas escolas com contrato de associação é consideravelmente menor do que nas escolas sem contrato de associação. Assim, como se pode verificar no gráfico em anexo, a linha das escolas com contrato de associação é bastante próxima da linha das escolas públicas, apresentando uma ligeira inflação (por volta dos 0,2 valores) a partir dos 13 valores nos exames nacionais. Em contraste, as escolas privadas sem contrato de associação distanciam-se bastante, quer das escolas públicas, quer das privadas com contrato de associação, chegando as diferenças a ultrapassar um valor (em 20) entre os 12 e os 15 valores nos exames nacionais;
— parece-nos igualmente importante destacar que estas diferenças se verificam em todos os anos analisados (desde 2001/2 até 2011/12), implicando a análise de mais de 3 milhões de pares de exames nacionais e classificações internas;
— outro aspeto relevante diz respeito à metodologia: as diferenças entre os 3 tipos de escolas são calculadas relativamente às diferenças médias a nível nacional (e não relativamente à ausência de diferenças entre nota interna e nota no exame nacional). Consequentemente, não faz sentido argumentar que é normal existirem diferenças entre as notas internas e as classificações nos exames, uma vez que, repetimos, as linhas apresentadas no gráfico dizem respeito aos desvios de cada um dos tipos de escola relativamente à média dos desvios nacionais (representada pelo eixo do x);
— adicionalmente, tentámos ainda perceber de forma mais concreta e objetiva o impacto que estas diferenças têm no acesso ao Ensino Superior. Como exemplo, apresentamos o caso do último candidato a entrar no curso com média mais elevada no ano de 2012/13 (Medicina da Universidade do Porto). A nota de entrada foi de 18,35, o que colocou o candidato no lugar 504 da lista de acesso. A nota meio valor acima desta (18,85) corresponde já ao lugar 182 da lista de acesso, representando uma subida de 64%. A nota um valor acima (19,35) corresponde ao lugar 33, mostrando uma subida de 93% na lista de acesso. Desde que o artigo foi submetido para publicação, sistematizámos esta análise, procurando apurar o impacto de alterações de meio e um valores nas listas de acesso ao Ensino Superior de forma mais representativa. Para isso, recorremos à lista ordenada dos cursos por nota de acesso do último classificado. Seguidamente, dividimos os cursos por quartis e verificámos o impacto para os 10 primeiros cursos de cada quartil; assim, o primeiro quartil refere-se aos 10 cursos com médias mais altas, o segundo quartil aos 10 cursos cujas médias de entrada os colocam no percentil 75, etc. São estes dados que são apresentados no 2.º gráfico. Neste podemos confirmar o tremendo impacto que subidas de meio valor podem ter na posição de um candidato: por exemplo, nos 10 cursos com médias mais elevadas (1.º quartil), meio valor corresponde a uma subida de 60% na lista de acesso e 1 valor a uma subida de 90%.

Com os melhores cumprimentos,
Tiago Neves (Universidade do Porto e CIIE-UP) e Gil Nata (Universidade Portucalense e CIIE-UP)

 

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