Sexta-feira, 25 de Abril, 2014


Peter Gabriel, Red Rain

Legitimar a violência económica e social que atravessamos como uma reacção necessária aos excessos do distante PREC – como o fazem de forma explícita ou mais encoberta alguns inteligentes da Situação actual, a começar por aqueles governantes que se apresentam como actores da desmontagem de 35 anos de socialismo ou repositores do “espírito original” d0 25 de Abril – levanta um problema de coerência.

Dentro dessa lógica, o PREC não foi legitimado pelas violência do salazarismo e da longa ditadura sobre a maioria do povo português?

Ou, com chancela de um “respeitável” ramos ou do “jovem” lomba, vamos entrar em negacionismos à maneira de um Nogueira Pinto (que merece maiúsculas porque, discordâncias à parte, nunca encobriu as crenças)?

… mais não é do que manter fora da área da governação aqueles que assim se pretendia que se mantivessem antes do 25 de Abril.

É necessário recordar a muita gente (incluindo ao actual PR) que, como Nuno Saraiva do DN escrevia no seu mural do Fbook, que no Estado Novo havia eleições. O problema é que o direito de voto era restrito, sendo proibido aos que, nos tempos que correm, correspondem às correntes políticas anti-troika.

O que se passa é que se pretende prender o país numa dovernação em que o espectro político respeitável é o que seria aceitável em 24 de Abril de 1974, numas eleições abertas à CEUD e à Ala Liberal.

Mais nada.

Na foto falta o Correio da Manhã, mas optei por não o comprar, atendendo à opção editorial de nem referir os 40 anos da revolução de 25 de Abril de 1974 na sua primeira página.

Quanto aos restantes, há abordagens claramente distintas.

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O Diário de Notícias fez a opção mais radical, uma edição de 80 páginas em papel diferente do habitual totalmente dedicada ao tema, na qual surge em caderno de 20 páginas, separado, com a edição do dia. Abordagem muito ampla, muitos factos, muita documentação, muita opinião.

O Público tem a sua edição ocupada maioritariamente com o tema, assim como o suplemento Ipsílon, bem como ainda uma edição específica do Inimigo Público, que nos revela que se fosse Relvas a fazer a revolução, bastariam dois ou três telefonemas.

O jornal I tem também um espaço alargado de análise do 25 de Abril, com testemunhos espalhados por toda a edição, sendo o maior destaque dado a uma entrevista feita a Vasco Pulido Valente que, como acontece com relativa regularidade, confunde a realidade com os seus humores e nega qualquer papel aos capitães de Abril. É um negacionismo que em vez de corajoso (como o adjectiva o próprio jornal na última página) é outra coisa… que a mim não apetece adjectivar.

Já o Jornal de Notícias faz uma referência de primeira página ao assunto como se fosse uma coisa de segunda ordem perante o futebol e a enésima investida de Passos Coelho sobre as remunerações alheias. São opções… mas a disputa do mercado da imprensa mais popularucha com o Correio da Manhã tem destas coisas que se percebem com dificuldade num título histórico da nossa comunicação social. Até a edição de ontem do temático Jornal de Negócios fazia um destaque maior.

Claro que isto não esgota de forma alguma o modo como o tema tem vindo a ser tratado ao longo dos últimos dias por estes títulos, até porque outras análises, entrevistas e opiniões têm vindo a ser divulgadas, bem como o público tem vindo a editar uma colecção de obras proibidas durante o Estado Novo.

Mas parece tudo muito curtinho… como se a estratégia do esquecimento e da relativização já fosse meia regra. Um destes dias hei-de espreitar os diários de 28 de Maio de 1966, só para comparar.

25 de Abril, 40 anos depois…

5. O “herói” da Revolução…

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Faz sentido procurar, como se tem feito ultimamente, o maior “herói do 25 de Abril”?

Faz e não faz.

Historicamente não faz sentido porque o golpe militar, rapidamente convertido em revolução popular, foi uma acção colectiva de um grupo relativamente vasto de oficiais de patente intermédia – quase todos capitães e majores do Exército – nunca tendo existido uma liderança unipessoal do movimento. Melo Antunes como “intelectual”, Otelo como organizador, Salgueiro Maia como operacional, destacaram-se entre muitos outros militares cuja intervenção desde a madrugada de 25 de Abril de 1974 foi decisiva, mas que nunca quiseram ser heróis. O sucesso da revolta deveu-se à acção colectiva em direcção a um objectivo comum, o derrube da ditadura que governava Portugal. Algo que, 40 anos depois, numa sociedade onde imperam o individualismo, o oportunismo, o hedonismo e novas formas do sempre reinventado sebastianismo, se torna por vezes difícil de compreender.

Já do ponto de vista de uma narrativa ideologicamente comprometida do passado a busca do “herói” faz todo o sentido, nos tempos que correm. Já que ela permite centrar os holofotes na figura de Salgueiro Maia, o comandante da coluna militar proveniente da EPC de Santarém que tomou o Terreiro do Paço e cercou Marcelo Caetano no Quartel do Carmo, forçando-o à rendição. Sem retirar qualquer mérito à acção corajosa e determinada do capitão Maia, nem desmerecer as suas inquestionáveis qualidades éticas e cívicas, há que reconhecer que para as forças políticas que hoje ocupam o poder, se trata do herói mais conveniente: o que recolheu a quartéis depois da revolução feita e do poder entregue a quem de direito, não tendo tido daí para a frente uma participação política relevante, ao contrário de outros protagonistas de revolução.

Precocemente falecido, Salgueiro Maia não está hoje em condições de afirmar o mesmo que dizem quase todos os seus camaradas de armas do tempo da revolução e que ele provavelmente subscreveria: que não se revêem na perversidade das políticas nem na mediocridade dos intervenientes que hoje decidem os rumos do país, e nesse sentido é o herói mais conveniente para o poder que está, e que de facto nunca assumiu a herança da Revolução.

SalgueiroMaia

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(c) Francisco Goulão

Textinho enviado já há umas semanas para um dos jornais do dia. Ainda não verifiquei se saiu, com ilustração do João Abel Manta a acompanhar e tudo.

Tinha 9 anos, não pude combater pelo 25 de Abri. Sou apenas um beneficiário da Liberdade e da Democracia que nasceram há 40 anos.

A comemoração do 25 de Abril deveria ser algo consensual, mas, em simultâneo, é impossível que o seja.

Porquê? Porque há muita gente que dele se quer apropriar e outra tanta que o quer esquecer, mesmo se quase tudo lhe deve.

Ao fim de 40 anos parece que há quem pareça querer contar os tostões gastos em tal comemoração.

É triste, é mesquinho, é vergonhoso.

O 25 de Abril não é de todos porque há quem dele não goste. Tudo bem, estão no seu direito, mas esse direito só é possível graças a esse mesmo 25 de Abril.

Era bom que disso se lembrassem.

AbelManta

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