Domingo, 6 de Abril, 2014


Human League, (Keep Feeling) Fascination

Key For Schools, ou o eduquês facilitista da direita

 

Em coerência com um programa político globalmente baseado no “emagrecimento” do Estado e na inevitabilidade dos cortes da despesa pública, também na educação o actual governo desinvestiu fortemente na educação pública, alegando a necessidade de “fazer mais com menos” e dessa forma justificando o emagrecimento dos currículos e dos apoios educativos, o aumento do número de alunos por turma e a redução do número de professores, o encerramento de escolas e a política concentracionária dos mega-agrupamentos.

 Corolário de uma política educativa que, apesar de dar cada vez menos respostas às necessidades dos alunos e das comunidades educativas, continua a precisar de apresentar resultados, os exames surgem em lugar de destaque em toda a estratégia ministerial de promoção do sucesso educativo e de certificação da qualidade das aprendizagens. Os exames são o ovo de Colombo de Nuno Crato e dos seus acólitos, pois pressupõem que mesmo com turmas maiores, menos apoios, eventualmente maiores dificuldades a nível sócio-familiar, pois a situação económica e social das famílias se degradou perigosamente durante a vigência do actual governo, mesmo assim os alunos estudarão e aprenderão mais, apenas porque sabem que no final têm exames “rigorosos” e “exigentes” onde “só passa quem souber”…

 Pomposamente anunciado, desde o início do presente ano lectivo, o exame de Inglês Key For Schools, a aplicar aos alunos do 9º ano em parceria com um departamento da Universidade de Cambridge que certificará os resultados finais, é uma criação original deste governo, não seguindo qualquer dos modelos de avaliação externa usados nos últimos anos, como os exames nacionais de final de ciclo, as provas de aferição ou os testes intermédios. Por esse motivo, será um bom exemplo para avaliarmos o rigor, a exigência e a seriedade das políticas educativas, ou melhor, das políticas avaliativas, pois nisso se têm vindo a especializar, de uma forma ou de outra, os ministérios de educação desde 2005.

 Dando o devido desconto aos textos empolados e propagandísticos do IAVE e indo directamente à fonte original, constatamos que o teste internacional Key For Schools corresponde a um nível básico de qualificação que mostra que o estudante é capaz de usar o Inglês para comunicar em situações simples. Este teste corresponde, no Quadro Europeu Comum de Referência para línguas estrangeiras, ao nível A2, o que significa que, para obter aprovação, e segundo afirma a própria entidade certificadora, apenas se exige que o examinando seja capaz de entender e usar expressões básicas, apresentar-se e responder a perguntas simples sobre si mesmo, interagir com interlocutores que falem devagar e com clareza e escrever notas simples e curtas.

Será isto o que se deve exigir a um aluno do 9º ano, que estuda Inglês desde, pelo menos, o 5º ano de escolaridade? Uma questão que é pertinente para aferir do nível de exigência deste novo exame, da sua adequação ao público-alvo e da relevância dos seus resultados. E que tem uma resposta clara, se confrontarmos este projecto com uma outra criação do actual MEC, as Metas Curriculares de Inglês, que identificam claramente o nível A2 como meta a atingir pelos alunos do 7º ano de escolaridade. De acordo com este documento, já oficialmente homologado, no 9º ano o nível de proficiência linguística a alcançar pelos alunos é o B1, ao qual corresponde, no catálogo de exames da Cambridge English, não o Key, mas o Preliminary For Schools.

Aplicando aos alunos do 9º ano um exame que colegas seus do 7º ano deveriam ser capazes de fazer, o eduquês de direita do ministro Crato parece assim caminhar a bons passos na senda do sucesso educativo nada rigoroso, pouco sério e falho de exigência que tanto criticou aos seus antecessores. O facilitismo de baixar o nível de exigência para que as notas subam e as “boas políticas” pareçam dar frutos. Compreende-se, aproxima-se a recta final do mandato, está na altura de começar a apresentar bons resultados e a comprovar os sucessos da política educativa de fazer mais com menos. Ou de, em bom Português, fazer omeletes sem ovos…

 

António Duarte

Consta que ainda não indicaram representantes para dar parecer sobre a prova, as seguintes orgamizações profissionais:

  • Associação de Professores de Filosofia
  • Associação de Professores de Português
  • Associação Portuguesa de Estudos Clássicos
  • Associação Portuguesa de Geólogos
  • Associação Portuguesa de História da Arte
  • Associação Portuguesa de Linguística
  • Ordem dos Biólogos

Apesar do tique no olho denunciar algum nervosismo, e engenheiro chamou burro e papagaio ao Rodrigues dos Santos ali mesmo, ao vivo e a cores.

Foi um momento bonito de luta livre.

… com anúncios de poupanças mil sem sacrifícios.

Mendes diz que cortes são de 1,7 mil milhões

(…)

Garantiu ainda que não haverá aumento de impostos, nem “cortes adicionais” nos salários e pensões. A poupança será feita, disse, na máquina do Estado e através de taxas a sectores mais ricos, como a energia e banca.

Nota-se muito o ambiente pré-eleitoral.

Marques Mendes só diz o que lhe dizem e dizem-lhe aquilo que querem que ele diga. Ele não é jornalista ou investigador, é apenas amigo de. Não passa de um efeito de eco.

Os cortes anunciados dificilmente significarão que as pessoas não verão os rendimentos reduzidos, a menos que perder o posto de trabalho ou a sua prestação social deixe de se considerar uma

“Está a ser visto Ministério a Ministério. Neste momento já há ao que parece uma poupança de 800 a 850 milhões de euros, ou seja, metade do 1,7 que está previsto, sobretudo à custa, digamos assim, com a colaboração de três ministérios – Segurança Social, Economia e Educação”, afirmou Marques Mendes no seu espaço de comentário semanal, na Sic.

“O que significa que já só falta metade e esta metade há-de ser repartida entre cortes na despesa” de “outros ministérios e eventualmente algumas taxas, como na energia e outras”, continuou.

Marques Mendes referiu que as poupanças passam, entre outras, por cortes em despesas intermédias, fusões e reorganização de serviços, e sublinhou as palavras já ditas por Passos Coelho, de que não haverá cortes adicionais nos salários e pensões. 

O que há a reter? A palavra “algumas” antes de taxas que é indefinida q.b. para ficar paredes meias com a irrelevância.

Por gastos intermédios na Segurança Social e na Educação é difícil imaginar algo que não passe por medidas relacionadas com a diminuição de prestações sociais (que não sejam pensões) ou postos de trabalho (para esta malta os professores não auferem salários, constituem despesa).

Quanto a poupanças na Economia, deve ter sido engano do recadeiro. Não se vê por onde possam poupar numa área que só serve para alimentar o ego do actual ministro,

 

Às vezes o excesso de alegada inteligência dá em figuras destas:

Pedro Lomba. “O governo tenta continuar e desenvolver o espírito do 25 de Abril original”

Mas ele sabe definir o que seria “o espírito do 25 de Abril original”?

Ou, como muitos outros mistificadores da memória, fez a sua reconstrução a gosto?

Mais um que, quando espremido, só tem para dar uma racionalização”:

Gosto de distinguir o 25 de Abril original do que veio a seguir. Não tendo eu vivido essas memórias, tive de ir racionalizando ao longo do tempo o que pensava. O 25 de Abril foi o acto fundacional do primeiro regime verdadeiramente legítimo da nossa história. Um regime de liberdades, porque existem liberdades e não uma liberdade abstracta.

Pedro Lomba, pelo que se lê, percebe pouquíssimo de História e de Teoria Política (o que é um regime verdadeiramente legítimo?)  e é uma daqueles que, da Esquerda à Direita (dos Rosas aos Ramos), tem daquela uma visão instrumental, destinada apenas a justificar o seu presente e nacos do seu passado.

No fundo, confessa o que sabemos… a filiação destes meninos num pós-marcelismo português suave e tropicalista (prós Relvas), moderadamente cosmopolita (para os lombas e maduros), em que os “radicalismos” seriam evitados e o povinho se manteria sereno e domesticado pelos inteligentes.

Patético.

Perigoso.

Entre algumas coisas que foram ditas ontem na conversa toda depois das 17 horas, houve uma ou outra que se mostraram – no desânimo do desespero actual – especialmente carentes de perspectiva em relação à evolução da situação dos professores na última década.

Se valter hugo mãe teve o cuidado de sublinhar que a erosão da situação do professorado tem vindo a ser um processo continuado, houve quem, da audiência (não retive o nome, apenas que era um colega mais ou menos da minha idade), em termos mais inflamados, quase ensaiasse uma recuperação de Maria de Lurdes Rodrigues por comparação com Nuno Crato.

Eu percebo a reacção de quem, doendo-lhe fortemente um dente, culpa a dor e quer remédio rápido que a anule, perdendo a perspectiva da origem da dor.

É uma reacção natural, mas fica pela resolução do imediato, não resolve a doença e abdica de determinar a sua origem. É um erro. Grave.

A origem do mal está – para não ir mais longe – em 2005 e num estudo encomendado por Maria de Lurdes Rodrigues a João Freire, seu mentor político e académico, e que lhe foi entregue em Dezembro de 2005 (é essa a data do documento) e que teve uma circulação muito restrita, até eu o ter recebido através de uma fonte ligada ao movimento sindical e ter feito neste blogue sete posts (A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7) a propósito desse guião destinado a domesticar a classe docente, estrangular a sua progressão na carreira e aplainar a sua remuneração.

Que parece ser bom recuperar.

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Parece que muita gente não leu ou já se esqueceu dessas mais de 100 páginas em que João Freire faz um desenho técnico-político da melhor forma de quebrar a força de uma classe profissional, através de uma negociação hábil destinada a criar quotas de progressão, categorias diferenciadas entre professores e tudo o mais que em seguida se viu.

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Até mesmo uma plafonamento da progressão salarial lá está, aquela que agora se está a tentar impor como definitiva, depois de apresentada como provisória.

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Ao colega muito inflamado que falou, respondi que não sei bem se a culpa maior pelos males que nos entrem pela porta é de quem a escancarou se de quem a abriu em primeiro lugar.

No meu caso, não ilibo ninguém, não tenho falta de memória e não estou disponível para recuperar algozes do passado, só porque agora há novos.

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Se for necessário, eu ainda me recordo de quem esteve na Almedina do Saldanha, no lançamento do livro de MLR, a prestar-lhe vassalagem.

Alguns, por não gostarem de Passos Coelho e Crato até agora dizerem umas coisas assim vagas a favor dos professores, até podem enganar os mais incautos. Mesmo na área do PSD já então ela muito admirada, pelos que estão e pelos que gostariam de estar.

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