… nas escolas públicas mas, em contrapartida, também sou capaz de encher quase outras tantas com aquilo que é feito, de positivo, para os resolver.

Todos os anos há um pouco de tudo.

A escola é uma espécie de “grande superfície” em termos sociais e humanos. Há muita publicidade enganosa, muita coisa que só serve para encher prateleiras, mas também há coisas e serviços muito bons. Ou que tentam sê-lo.

Há uns 15 anos – para não dar exemplos de maior proximidade – tive uma aluna que foi mãe aos 13 anos e que precisava sair das aulas para dar de mamar à sua bebé. No 6º ano. A gravidez tinha pouco de clandestina, apenas resultando da estupidez familiar que, depois do problema criado, nem queria saber do pai da criança (18 anos) que não pretendia fugir às responsabilidades e tentava ir esperar a aluna A ao portão da escola, dando origem a conflitos, ofensas e altercações quando os avós da criança estavam por perto. Isto dá uma má imagem das escolas públicas? Talvez, embora não seja sua a responsabilidade, antes pelo contrário, pois na escola tudo se fez para facilitar a vida à jovem mãe, ela própria uma criança que tratava a filha quase como um brinquedo.

No mesmo ano tinha o aluno I., com 15 anos, incapaz de escrever o nome sem ser na forma de desenho, com uma capacidade menmónica reduzidíssima, ao ponto de só saber ir dar à escola porque o caminho era em linha recta e de não conseguir fixar o alfabeto, embora andasse na escola há 9 anos. Estava então no 5º ano e passava por estar “incluído”, porque assim era determinado superiormente. Não sei se a sua presença incomodaria algumas pessoas e se seria uma prova da inutilidade da escola pública para resolver os seus problemas. Que ninguém diagnosticava correctamente, por falta de meios humanos verdadeiramente especializados na escola e incapacidade financeira da família para o encaminhar para quem pudesse fazer um diagnóstico a sério e delinear uma qualquer estratégia para lidar com as suas incapacidades.

Em outros anos, tive casos – tanto! – de pequena (ou já média) marginalidade nas escolas onde passei, nas turmas a que leccionei. Situações que desaguavam nas salas de aula, porque a escolaridade é obrigatória, porque por vezes eles não faltam de forma sistemática como há quem assim deseje, porque há quem ainda os tente manter nas aulas a tentar aprender algo . Enfrentando comportamentos nem sempre os mais adequados. Ouvindo e aturando o que não desejaria. Que devem ser denunciados, assim como a dificuldade em lidar com eles por motivos burocráticos e ideológicos (sejam os de matriz desculpabilizadora, seja os de matriz repressiva). Para os quais devem existir soluções não facilitistas. Porque o facilistismo do sucesso à força não se combate com outros facilitismos, os da desistência.

Mas de quem é a responsabilidade disto? Quais as alternativas? Era disso que eu gostava de ouvir falar sem ser apenas na base do “ele precisa é de um ofício, que isto não lhe interessa nada”.

O que eu gostava é que às lamúrias sucedesse algo mais.

Sem ser apenas atirar com os problemas para debaixo do tapete ou ignorar que eles vêm de fora para dentro dos portões da escola e que o colapso não é das escolas públicas mas sim de grande parte da sociedade, que a generalidade dos governantes actuais considera não ser para remediar, enquanto outros de um passado mais ou menos recente achavam que se poderia mascarar com políticas “de sucesso” obrigatório.

Adoro diagnósticos. Em especial os óbvios.

Sabem o que adoro mais?

Tratamentos eficazes.