… pois era a quinta ou sexta essência da mentalidade submissa aos poderosos, capaz apenas de chatear a vida aos pares, em especial os próximos que com ela tinham de se cruzar ou conviver, por pouco que fosse, pois a mentalidade tacanha é coisa que – acreditem ou não – tem enormes poderes peganhentos.

ToinoEm nada se destacava do infeliz anonimato numa multidão, excepto pelo ar patusco do marido Tóino que ela atazanava sem parar acerca das suas incapacidades – ao ponto de o fazer emigrar em contra-ciclo, nos anos 70, até ao homem voltar da Alemanha com uma größe grippe que o ia deixando maleitado para o resto dos tempos – ou pela gritaria associada a cada refeição da sua filha (ainda viva, da minha geração e ainda com voz estridente) que insistia em não engolir a comida e guardá-la na boca, junto ao maxilar inferior, provavelmente pela razão de ser pouco comestível.

Mas não nos afastemos do essencial da mensagem dessa minha vizinha sábia, entalada entre gente proletária que trabalhava nas grandes unidades industriais da margem sul e era assustadoramente comunista e gente mais prudente e temerosa, dependente dos pequenos comércios e unidades fabris de bairro ou freguesia.

A sua mensagem era que não se deveria contestar os patrões pois eram eles que nos davam o pão, através do ordenado. Os empregados deveriam estar agradecidos a quem lhes pagava – nos tempos de hoje chamam-se job creators – pois o que interessava era ter um empregozinho e era muito pior não ter nada, pelo que a obediência era muito bonita e aqueles cartazes todos nas paredes em meados de 70 uma coisa incompreensível, a par das greves e manifestações que só gente mal educada e ingrata poderia fazer ou apoiar.

A minha vizinha, que não me lembro alguma vez ter trabalhado em algo a não ser a infelicidade do próprio marido Tóino, era inflexível na condenação de tudo o que lhe cheirasse a comunista, mesmo quando o marido foi posto na rua sem indemnização já em idos dos anos 80 (após a fracassada aventura alemã), por falência pouco transparente da fábrica de cortiça onde trabalhava, tamanha a sua fúria com os restantes colegas de trabalho do Tóino, incapazes da inabalável subserviência que ele sempre manifestara, não fazendo greves, aceitando como tenças as migalhas que lhe davam e agradecendo, no fundo, que o deixassem descansadinho.

Nessa altura, quando a sobrevivência familiar ficou dependente de uma aposentação conseguida ainda em idade útil, com alegadas razões de défice respiratório que o médico adequado conseguiu entrever de forma oportuna, graças à legislação conseguida pelos arruaceiros esquerdistas anos antes, a tal minha rica vizinha deveria ter-se recusado a receber dinheiro não dado directamente pelos patrões, muito pelo contrário, mas sim dinheiro da Segurança Social, conseguido com o pagamento de todos para valer aos que dele necessitavam.

A minha vizinha seria, nos tempos que correm, a cidadã ideal do país idealizado pelos nossos liberais de ocasião: submissa ao patrão, encorajadora da emigração em detrimento do desenvolvimento interno, aproveitadora dos dinheiros públicos quando os privados optam pelo incumprimento das suas obrigações.

Penso que, a título póstumo, Pires de Lima Júnior lhe deveria atribui uma qualquer medalha de mérito.