Cumpri a primeira semana de aulas do segundo período do ano lectivo em decurso num estado a que chamei, apenas meio a brincar, de negação.

De negação, porquê?

Por muitas razões, a menos das quais não será a escassez de sentido que faz um conjunto de momentos que se insere num processo de que não se percebem exactamente os objectivos, por manifesta incompetência ou miopia de quem os conduz a que se associa a desorientação evidente de muitos dos destinatários. Perdi qualquer confiança naqueles e desespero para que estes não desistam de si próprios.

(desejava não ter de explicitar que falo da desgovernança em Educação, mas aprendi ao oongo dos anos a nunca subestimar a incapacidade alheia para perceber o óbvio)

Por estado de negação, entenda-se a ida para a escola armado apenas com as competências as capacidades (não certificadas por prova oficial) de um professor analógico comum ou dois esquemas depositado na conta do gmail e o conteúdo de um cacifo a deitar por fora de materiais que já deveria ter deitado fora, tantas são as consoantes alegadamente mudas que os polvilham.

Ahhh… e munido também do devido respeito pelos alunos e de um incómodo sentido de dever profissional que cada vez é mais empecilho do que ajuda.

Mas sem qualquer carga de esperança ou ânimo especial no sentido maior da função docente e da Educação num contexto político em que isso é desprezado ou manipulado de forma retórica e indecorosa. Quando temos uma organização de juventude governamental a apelar à redução da escolaridade e à exclusão social dos que para eles são incapazes ou, talvez de forma mais certa, indignos de beneficiar dos serviços públicos básicos de uma sociedade democrática moderna. Sendo que muitos dos rostos que encaro todos os dias são exactamente de gente assim, que outros consideram filhos de deus nenhum.

Não se entenda com isto que deixei de cumprir as obrigações decorrentes do meu horário lectivo, não lectivo ou outro qualquer.

Em boa verdade, ainda hoje reservarei um par de horas para completar uma base de dados com os resultados comparados dos alunos do 5º ano em relação ao ano anterior.

Assim como as turmas do 6º ano de Português tiveram direito a uma introdução à Grécia Antiga, à sua mitologia e aos mecanismos de transmissão das tradições orais para suporte escrito, como preparação para a leitura do Ulisses de Maria Alberta Menéres. E as turmas do 8º ano de História tiveram direito a aulas que julgo moderadamente interessantes sobre as origens, características e difusão do Renascimento na Europa, incluindo explicações que penso bastante operacionais do antropocentrismo, heliocentrismo, classicismo e racionalismo daquelas centenas de mentes geniais que fazem parecer que 98% da população europeia do século XVI não viviam como 99% da população europeia do século XV ou XIV.

Cumpri os meus deveres profissionais, mas tão só isso. Cheguei, desempenhei, saí. Como se quase nada se estivessse a passar. Como se não tivesse voltado para a insanidade quotidiana de um sector da vida nacional que está entregue a uma cambada de ineptos e vulnerável, como não estava há muito, à influência de imbecis preconceituosos, escassamente formados e ainda pior informados.

Estou a exagerar?

Nada disso.

Bastam alguns minutos de congresso do CDS para se provar à saciedade como a mediocridade de sucesso se compraz consigo mesma e a sua incompetência vaidosa que nenhum fato de bom corte e risquinhas subtis pode disfarçar, muito menos dentinhos de porcelana e gel mal distribuído. Daqui por uns dias veremos o mesmo em tons laranja e com mais actores.

Estarei eu a dizer que, se assim estou, devo dar o lugar a quem mais ânimo terá para desempenhar a função que agora é minha?

Nada disso.

Porque sei perfeitamente que grande parte do lumpen desesperado por um emprego e que muitas vezes critica o corporativismo de quem tem um lugar “dos quadros”, embora merecendo exercer a sua profissão com dignidade, dificilmente chegaria em melhores condições ao ponto do trajecto a que eu e muitos como eu chegámos. Há quem grite que faria melhor, mas que chegando ao lugar se satisfaria em mandar fazer cópias das matérias por dar e em carregar no play dos inovadores meios audiovisuais. E correriam atrás de toda e qualquer hipótese de encosto. Generalizo, eu sei, mas deixo espaço a excepções.

Estarei eu a dar razão aos que acham que é tempo de fazer entrar “sangue novo” nas escolas e que é preciso renovar, domesticando, a classe docente?

Não, pelo contrário.

A esses digo, sem rebuço ou receio de perder tença, que mais vale irem bardamerda com as suas teorias e teses que rebuscaram em leituras mal compreendidas e numa vidinha de aquário, que os faz pensar que aquelas plantas de plástico são verdadeiras e na realidade são verdinhas eternamente e que a comida cai do céu só porque são peixinhos dourados. E acrescentarei que não os invejo de modo algum, apenas os deploro por só conseguirem ser medíocres como são e ou não o perceberem ou, percebendo-o, serem incapazes de contrariarem e/ou ultrapassarem essas suas limitações, mesmo que brindadas com sucesso em nomeações.

Acho que há uma altura em que se deve dizer aquilo que se pensa sem recorrer a especiais floreados, meias palavras, véus ou cortesias desnecessárias. Sem que isso signifique que o vernáculo transborde do essencial para se vincar a ideia essencial ou que se lance mão da cassete tradicional dos revolucionários de papel.

Este país é há muito pasto fácil para medíocres que se sucedem na Situação (no sentido hegeliano em que tudo se acaba por harmonizar numa síntese final) e parece que é inútil esperar que mesmo aqueles que o sabem ser se esforcem por se superar.

Esta semana que passou foi assim, a próxima logo se verá.

Quem se sentir incomodado, que se coce nos sítios adequados e siga o seu caminho.

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