Gostaria apenas de lhe deixar um “breve” testemunho do que se passou hoje na escola básica de Canidelo, sede do AE D.João I de V.N. de Gaia, onde nenhum professor inscrito realizou a prova.
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Chegado à escola às 9:20 sou recebido pela visão de uma carrinha das forças policiais. Um pouco mais adiante outra viatura estacionada. Deve ser para a entrega das provas, penso eu inocentemente. Mas uma carrinha de 9 lugares?
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Os colegas apresentam-se em fila na entrada para serem confirmados nas pautas por um membro da direcção. Até parece que mais ninguém se quer ali.
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Vamos para o velhinho bloco A onde se situa a Direcção para ser-mos informados do nosso destino. Adiante, no igualmente velhinho bloco C, ao lado do qual se encontram dois contentores/salas de aula, esperamos até serem 9:50 para descobrirmos que só há professores vigilantes para duas salas. Abençoados aqueles que possuem decência.
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Os infelizes colegas cujos pais decidiram dar-lhes nomes iniciados pelas letras A, B e C são chamados para as salas. Eu e os restantes ficamos de fora a curtir uma breve chuvada que se lembrou de cair naquele momento.
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Por algum motivo cinco polícias entram no bloco. Não levavam as provas com eles.
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Pelas 10:15 o Sr. Director da escola vem ter connosco anunciar que não realizaremos a prova pois não existem vigilantes para tal. Pede para assinarmos a pauta indicando a nossa presença. A mesma da fiscalização aquando da entrada.
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Por sugestão repetida, para não dizer forçada de dois colegas, o Sr. Director acede a que todos os professores se dirijam à secretaria de modo a obter uma declaração de presença e não realização da prova.
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Começo a ver pares de polícias a andar em nossa volta. Malta simpática, conheço alguns de vista pois vivo na freguesia a que pertencem.
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As salas designadas para a prova encontram-se no rés-do-chão, pelo que nos concentramos junto às suas janelas. Bendito o mau planeamento. Seguem-se cantorias, cânticos, assobios e apupos que se prolongam uma hora depois do suposto início da prova.
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Os polícias surgem e desaparecem e tornam a surgir.
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Alguns dos colegas, poucos devo salientar, manifestam-se exageradamente  batendo nalgumas persianas fechadas das salas. A polícia entra agora sim em acção, movida por ordens superiores, e formando um cordão afasta-nos do bloco.
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Falando com um policial que me afastava pacificamente, pude perceber que nenhum deles o fazia por querer. Aparentemente foram convocados às cinco da manhã por email para ali estarem, sei-o de uma colega casada com um que só ali não estava devido a uma mudança de turno.
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Continuamos a ser afastados, curiosamente estar a dez metros ainda é pouco. Mais cantorias, cânticos, assobios e apupos. Os polícias continuam a ser simpáticos apesar de gostarem de empurrar.
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Pelas 11:30 as colegas na sala abrem as janelas e dizem que devido às condições a prova não será realizada, surgem palmas de lado a lado e lágrimas também.
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Dos 180 professores inscritos na escola nenhum realizou a prova. Estou imensamente agradecido àqueles que fizerem greve. Um obrigado não será suficiente.
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Quando fui aluno desta escola no 5.º e 6.º ano nunca imaginei que isto poderia acontecer no meu futuro. Enfim. O dia podia ter sido bem pior. Felizmente não foi.
Cumprimentos, 
Ricardo Lopes