Segunda-feira, 16 de Dezembro, 2013


Echo and the Bunnymen, The Cutter

prometeu ao povo uma constituição; mas não disse para quando. Assim procedeu o delegado do ministério com a devolução dos vinte Euro, precedido pelo ministro das gravações.

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

Especialmente se a agressora se mascara em autoridade.

Directores preocupados com segurança durante a prova para professores

Meu caro Filinto, há aqui um argumento que não posso aceitar, pois as convicções estão acima de umas dezenas de euros:

Na escola dirigida por Carlos Louro, em Ponte da Barca, estão inscritos 30 docentes para fazer a prova, pelo que bastam quatro para assegurar a vigilância. Na de Filinto Lima, bastam 18 vigilantes para assegurar que 180 docentes fazem a prova em nove salas de aula. “Convoquei para esse dia todos os professores da escola – 160 – e como a prova é um serviço prioritário, até posso chamar os que estão em reuniões de conselho de turma para fazer a vigilância, se for necessário. A adesão terá de ser muito forte para que elas não se façam. E é preciso ter em conta que os professores, de uma forma geral, não estão muito disponíveis para verem reduzidos os seus rendimentos com a greve”, comentou Filinto Lima.

Claro que haverá quem possa alegar isso, mas será mais por parte de quem se queira esconder pela sua falta de coragem.

 

Os pedidos de escusa ao serviço de vigilância de exames estão aser indeferidos  tendo por base o artigo 10º do ECD:

1 — (O pessoal docente está obrigado ao cumprimento dos deveres estabelecidos para os funcionários e agentes da Administração Pública emgeral.)

2 – (h) Conhecer, respeitar e cumprir as disposições normativas sobre educação, cooperando com a administração educativa na prossecução dos objectivos decorrentes da política educativa, no interesse dos alunos e da sociedade.).

Isto era de esperar.

Resta saber se alguém estará para fazer um recurso hierárquico de tal decisão.

aqui (e aqui) pistas interessantes, em especial se certos juristas  conseguissem fazer uma minuta de um recurso hierárquico necessário, com efeitos suspensivos.

Ou ninguém esperava por um indeferimento e não pensaram num plano B?

Ouvi no rádio e li depois a peça sobre o novo comunicado da troika, com os seus inenarráveis avisos, tudo com a complacência da miséria de governantes que temos e que alinham alegremente na prática (pois o discurso já é mais intermitente) do empobrecimento da generalidade da população.

Com o pretexto de se ter vivido acima das possibilidades.

Mas quem, afinal?

Quem é que ganhou nos últimos 20 anos com o que se passou em Portugal?

Olho para o meu recibo de salário em 1993 e agora e, em termos líquidos, sendo na altura contratado e estando agora a meio da carreira e recongelado, ganho mais do dobro do que ganhava então, talvez mesmo duas vezes e meia mais.

E sou dos mais visados, enquanto professor, pela retórica dos encargos excessivos do Estado.

Vou ver os meus recibos de encargos fixos com a vidinha e o que encontro?

Facturas de electricidade umas 5 a 10 vezes acima do que eram, sobrecarregadas com taxas e mensalidades das mais variadas origens. Sendo que continuo, onde vivo, numa situação de monopólio da EDP, mais grave agora pois quase tudo depende da luz para funcionar. Só o contador custa quase tanto quanto a conta antiga.

Facturas do gás nem sei quantas vezes mais altas, pois na altura usava bilhas, duas por mês no máximo, podendo escolher – na vilória suburbana atrasada – entre quatro fornecedores diferentes, bastando mudar aquela peça de encaixe (redutor?), que ficava minha e pela qual nada pagava todos os meses.

A água ainda se mantém a factura menos abusiva no crescendo, pois por aqui as autarquias do PC – honra lhes seja feita – não fazem da água o maior dos negócios, mesmo se abusam quando há algum incumprimento, por pequeno que seja.

E depois há o que não havia, a necessidade de se ter banda larga para aceder a serviços essenciais para a própria profissão, porque agora tudo é online e o serviço vem sempre acoplado com mais isto e aquilo, pois simples é quase o mesmo preço. A televisão generalista passou pela negociata da TDT e tudo o que nela antes existia de melhor (séries, desporto, música) foi transferido para canais pagos.

Ficámos mais ricos ou passámos a receber mais para pagar o excedente directamente a essas grandes empresas que funcionam em situação de monopólio?

Foi o povinho que passou a gastar de forma desvairada ou foram-lhe impostos consumos cada vez mais caros e exigentes?

E nem vale a pena falar na compra de casas, pois raramente alguém vai acabar por pagar menos de três vezes o preço real do imóvel, entre o lucro ganancioso dos construtores e os juros gulosos cobrados pela banca que preferia emprestar mais do que menos e se prontificava para fazer todo o tipo de trafulhices para que o cliente comprasse o carro dos seus sonhos (é verdade, foi ver uma avalanche de pategos a comprar carros alemães tdi e gti e jipes e coisas assim a armar ao pingarelho) e ficasse a dever ainda mais.

Ainda me lembro da minha idiotice de ir a um banco privado pedir um empréstimo, usando como argumentos que só precisava de 65% do preço total e responderem-me que o que lhes interessava não era isso mas sim emprestar muito.

Portanto… quando ouço o camelo do Lourenço dizer aquelas barbaridades, ainda por cima com ar de risota fácil, apetece-me chamar-lhe parasita,pois ele só existe enquanto personagem mediática porque existe uma crise económica e social terrível que ele vampiriza nos seus ditos e escritos. Para não falar do César das Neves, a única criatura a quem a estrita moral sexual da Igreja parece deixar bem humorado ou todos aqueles liberais que estão bem encostados ao Estado ou em posições de confiança do poder político em empresas participadas ou influenciadas.

Isto para não falar do ex-governantes que se tornaram consultores ou empreendedores com negócios privados feitos com o sector da governação que tutelaram?

Foram os funcionários públicos, professores, enfermeiros, polícias, juízes, que enriqueceram ou os carrapatosos, as cardonas, os nogueirasleites, os mexias, os zeinais, até mesmo os frasquilhos, mas muito em especial os seus empregadores e mandantes, ulricos&salgados, amorins&belmiros.

Por serem empreendedores? Ou porque beneficiaram de condições especiais de protecção dos seus negócios por parte de uma elite política de terceira categoria, sempre de olho no emprego privado a seguir ao cargo público?

Quem é que ganhou com o crédito ao desbarato? Os depositantes com dívidas ou os bancos?

Quem ganhou com “a liberalização dos mercados energéticos”? Os consumidores  ou os accionistas e administradores?

Qual é a estrutura actual de encargos fixos das famílias e qual era há 20 ou 25 anos? E isso aconteceu porquê?

Porque enriqueceram?

Ou porque empobreceram, na ilusão de se sentirem a imitar os sinais exteriores de “sucesso”?

 

 

Uma escola só para os favorecidos?

O teimoso prosseguimento da implementação das actuais medidas de política educativa anuncia uma clara mudança de paradigma: a transição do modelo sixtie da “escola para todos”, para o modelo pós-modernista da “escola para quem a possa pagar”.

A grande reforma educativa sorvida dos quentes e vibrantes anos do final da década de sessenta, consubstanciada nas filosofias do Maio de 68, apontava para uma escola aberta, universal, inclusiva, interclassista, meritocrática, solidária, promotora da cidadania e, até, niveladora, no sentido que deveria esbater as desigualdades sociais detectadas à entrada do percurso escolar.

Os professores passavam a ser mediadores da aprendizagem, promotores da socialização e do trabalho partilhado. Os alunos metamorfoseavam-se em aprendentes activos, participativos, concretizadores, co-líderes da sala de aula e do rumo a dar às planificações. Os pais, descolarizados ou iletrados, por vergonhosa opção de quatro décadas de ditadura, entregavam os seus filhos naqueles centros de promoção do sucesso social. Era a escola aberta à comunidade, uma escola moderna, que se impunha à escola tradicional. Era, enfim, a escola inclusiva, aberta a todos.

Com o decorrer dos anos, os governantes, lá no alto do seu douto saber, entenderam que, já agora, os professores e a escola poderiam também cumprir uma imensidão de funções até então cometidas ao Estado, às famílias e à sociedade. Mesmo que não tivessem tido preparação para isso, os professores tinham demonstrado que sabiam desenvencilhar-se e, sobretudo, que não sabiam dizer não.

E desde então, essas passaram também a ser tarefas e funções da escola e dos seus docentes. A partir desse momento singular, passámos a ter uma escola que, por acaso, também era um local de aprendizagem formal, mas que, sobretudo, se foi desenvolvendo como um espaço de aprendizagens sociais, informais, socializadoras. E foi assim que se baralhou e se desvirtuou uma escola que, altruisticamente, queria ser para todos, transformando-a numa escola onde tudo cabia. Era a escola para tudo.

Mais recentemente, os últimos responsáveis pelo Ministério da Educação, entenderam que a escola gastava muito e os professores, numa indolência secular, pouco ou nada faziam. Que tinham poucos alunos a quem ensinar; que perdiam muito tempo na sua formação permanente; que davam demasiada importância ao “como ensinar e ao como aprender”, em vez de se dedicarem a verificar as aprendizagens memorizadas; que se dedicavam demasiado a combater a exclusão escolar e social; que se envolviam muito com as famílias na educação dos jovens; que desejavam que todos os seus aprendentes estivessem na sala de aula, em comum colaboração, mesmo que alguns deles necessitassem de um apoio especial….

Em fim, modernices de quem só falava entre si “eduquês”.

Aos professores, era exigido que reincarnassem de novo: que procurassem novas profissões. Que comprassem escolas. Que emigrassem. Que percebessem que o nosso sistema de ensino poderia ser muito melhor se acabassem metade das actividades desenvolvidas nas escolas e se se dispensassem cerca de 40 mil docentes.
Infelizmente não era apenas um pesadelo. Foram as opções de política educativa de que estava ao serviço do sistema financeiro internacional, dos interesses privados contra o Estado social e contra os mais desfavorecidos, os quais, por isso mesmo, seriam os que de mais ajuda necessitavam e, logo os mais prejudicados.

De resto, provaram que pouco lhes interessava o impacto negativo destas medidas na implosão da Escola Pública e no comprometimento do futuro do país. Foi a escola do “não vale nada”

O que eles não sabem nem sonham é que os professores têm dentro de si a força regeneradora do saber, da cultura e da utopia social. Modelando sabiamente os seus alunos, são os construtores de futuros. Dentro e fora da escola querem partilhar a discussão do amanhã, porque aprenderam que ter, é ceder e partilhar.

Infelizmente, como humanos que são, também erram: do seio da escola por vezes saem maus políticos e, logo, más políticas. Mas não é por isso que se deixam abater, já que exercem uma profissão que exige a reflexão permanente, a busca de consensos, e a capacidade de ser persistente, sem teimosia.

Hoje, e talvez por estarmos à beira de uma pressentida reedição dos movimentos de contestação que conduzem à mudança das sociedades, com docentes, pais e alunos a contestarem as políticas e os políticos que se enredaram nos interesses obscuros da finança internacional e na narcísica gestão das suas imagens e carreiras, fazemos nossas as palavras do título de um disco do saudoso Léo Ferré “Il n’y a plus rien?

João Ruivo
ruivo@rvj.pt

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