… teve ontem um novo episódio, com o habitual desvio narcísico do engenheiro Sócrates. Em sua opinião, a melhoria dos resultados dos alunos portugueses em 2009 deve-se a ele e às suas políticas.

Ou seja, as políticas dão resultados em coisa de meses ou pouco mais de um ano, sendo que – ao que parece – os alunos de 15 anos beneficiam directamente de medidas que começaram a envolver os de 6-7 anos um par de anos antes?

Não estou a retirar mérito a projectos como o PAM e o PNL embora muito se tenha exagerado em relação a alguns dos seus efeitos. Mas é verdadeiramente caricato analisar as principais medidas desses anos em matéria de Educação e pretender que elas tiveram efeitos nos PISA 2009.

Vejamos: a escola a tempo inteiro com as AEC, o epifenómeno Magalhães e a introdução do Inglês no 1º ciclo, quase tudo medidas de 2006-07,melhoraram os resultados de Matemática e Ciências dos alunos prestes a concluir o 3º ciclo em inícios de 2009? Ou mesmo as de Leitura?

Será que as aulas de substituição, que funcionaram de forma medíocre, são a razão para tão enormes melhorias, num contexto de profunda agitação que então dominava as escolas e fazia prever o pior?

O resto foram medidas para domesticação profissional e salarial dos professores, sem especial impacto – muito menos positivo – nas aprendizagens dos alunos. No que é que, por exemplo, a criação dos professores titulares ou do próprio imbróglio da ADD sucessivamente simplificada afectou positivamente o trabalho pedagógico? Zero ou ainda menos.

Lembro-me que no início de 2009 alguém me perguntou, para um jornal, se toda aquela contestação, as manifestações, as reuniões e tomadas de professores em guerra aberta com Maria de Lurdes Rodrigues não seria prejudicial para os alunos…

É possível que tenha um ou mais posts desses tempos sobre o assunto , mas sei que respondi, no essencial, duas coisas: 1) os professores estavam a tentar conter que a perturbação transbordasse para as salas de aula e que, enquanto profissionais, deviam continuar a trabalhar normalmente com os seus alunos; 2) que as políticas educativas não produzem efeitos imediatos e que é necessário esperar um ciclo de tempo adequado para ver os seus (bons ou maus) efeitos.

E mantenho.

Os resultados dos alunos portugueses nos PISA 2009 não nasceram de geração quase espontânea, após um ano ou dois de AEC ou porque uma minoria de professores do 1º ciclo fez formação em Matemática.

Os resultados dos alunos nos PISA 2009 resultaram de uma melhoria progressiva de desempenho do sistema educativo português desde os anos 90. Se quisesse ser quase tão demagógico quanto o engenheiro, diria que se deveram ao trabalho daqueles que foram a invariável na equação… os professores que viram passar por eles muitos alunos e quase tantos políticos ocasionais.

Mas como não partilho uma concepção tão solipsista e unívoca da realidade devo dar mérito a tudo o que contribuiu, enquanto conjunto nem sempre articulado de medidas e esforços.

Não foram as ACND do tempo de Guterres, nem sequer foi a tão desvirtuada reforma de Roberto Carneiro. Mas foi um pouco de tudo, o próprio desenvolvimento da profissionalidade docente – com a progressiva diminuição dos biscateiros dos tempos em que até muitos opinadores jornalísticos actuais deram aulas nos intervalos de outras ocupações – e a percepção pela sociedade, pelas famílias e por muitos alunos de que a Educação poderia ser um verdadeiro factor de mobilidade social.

Algo que está completamente em causa agora e só nisso o engenheiro Sócrates terá razão. Bem como a sua estimada ministra MLR, que agora já clama aos quatro ventos que a sua obra é que era…

O que elez não dizem é que os resultados dos PISA 2012, em que os progressos estabilizam e perdem ímpeto, correspondem ao desempenho dos alunos que já fizeram a maior parte do seu trajecto no ensino básico com as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues e Sócrates. Os alunos que fizeram os PISA em inícios de 2012, com 15 anos, entraram na escola em 2003… em média começaram o 2º ciclo em 2007 e o 3º ciclo em 2010… e esses sim levaram com as políticas do engenheiro plenamente em cima.

Resumindo: a porcaria que este Governo e este MEC estão a fazer não significa que antes tudo estivesse bem. Pelo contrário, os que estavam aplainaram o terreno para que estes avançassem desta forma desembestada.

A auto-desresponsabilização deve ter os seus limites, ditadas por um decoro que, eu sei, está longe da maneira de ser de quem sente que ou ele ou o dilúvio.