Não é que antes não me tivesse deparado com teorizações do mesmo tipo mas recordo sempre aquela reunião de avaliação do meu ano de profissionalização (já a caminho dos 35 anos de idade e com mais de uma década a dar aulas) em que um colega, daqueles que entraram para o quadro logo à saída do aviário, me disse que não-não-não, eu não podia dar nível 1 porque determinado aluno até ia à maioria das aulas e não se pode dar esse tipo de classificação porque é desmotivante e não avalia todo o desempenho do aluno.

(pois, não avaliava, mas o zero é que não existe na escala.

Já com a mostarda a vir a caminho, por causa do tom de voz da santíssima criatura, perguntei em que documento baseava tamanha sapiência e determinação, se em alguma lei que eu desconhecia ou decisão do Conselho Pedagógico que eu não tivesse ouvido em reunião de grupo.

O homem baralhou-se, tropeçou em si mesmo e admitiu que não, mas que era melhor eu ir ao Conselho Directivo para não ter problemas, ao que devolvi que se eu lá fosse quem teria problemas não seria eu. Mas como sou bem mandado, lá fui, falar com a Directora (sim, uma das pioneiras, ainda nos anos 90) e de lá vim com o esperado sorriso porque a colega não era Papisa, nem mais Papisa que os Evangelhos não escritos daquela geração de sobredotados da pedagogia do sucesso em que a escala começa no 3 para quem se limita a dignar as aulas com a sua presença ocasional e sabe assinar o primeiro nome.

Desde então nunca me aconteceu nenhum episódio do género, pois não abuso do tal nível amaldiçoado, distribuindo-o com a dose que eu acho certa de parcimónia e justiça para com @ visad@ e respectiv@s colegas.

Mas sempre me interroguei acerca das raízes superficiais do discurso que quase impõe que o nível 1 só seja atribuído a quem não coloca os pés nas aulas, sendo que eu pensava que nesses casos nem se atribui nota, usando-se a alínea relativa à inexistência de elementos de avaliação.

E sempre conclui que a parvoíce é uma qualidade que anda por aí, muito bem distribuída e certificada, ao contrário de um sentido de justiça e uns pózinhos (gosto de escrever assim, desculpem-me) de justiça.

Imaginemos um aluno que até vai às aulas, mas cujo caderno é uma lástima, o manual não existe e não é por carências económicas, que não é sensível a qualquer argumento para que pare de falar do que lhe vem à cabeça com sorriso trocista e que, chegando aos testes, os atira para o canto da mesa, dizendo que não faz porque não sabe nada e pede logo para sair, repetindo-o insistentemente até eu responder-lhe em modo mostrada a sair pelo nariz.

É justo eu atribuir-lhe o mesmo nível do que o dado a um aluno com dificuldades, mas que vai tentando fazer alguma coisa, só que sem os melhores resultados?  Não estarei a desrespeitar o esforço e trabalho deste aluno, mesmo que ainda insuficiente, equiparando-o ao outro malandreco, que nem sequer sabe ainda gingar ao som de Lou Reed (nem sequer ouviu falar de qualquer música anterior a Agosto de 2013)?

A mim nem sequer complica os nervos ver um 6,5% e um 0% nos testes. Acontece, ninguém precisa de gostar de História e pode ter dois azares grandes (não é provável, mas é possível). Nem sequer que a atitude do aluno seja explicada com o seu staile… que é algo que nem avalio, apesar do escasso valor do cuidado com os dois brinquinhos que prefere acariciar de forma repetida em vez de passar um mísero sumário.

Por mim, tudo bem. Táááássssssssssssssseeeeeeeeeeeee Bêêêêêêêmmmmmm!!!

O que não posso aceitar – por muito que o já adolescente esteja em processo de definição da sua personalidade, afirmando-a por oposição à do adulto “castrador” – é que ele goze com o trabalho dos colegas e eu não possa fazer a devida diferenciação entre “atitudes e valores” muito diversos.

Porque, mesmo que não seja sempre verdade, eu sei que aquele 1 firme e hirto faz o seu efeito e é mentira que seja apenas desmotivante e que o insucesso se reproduza a si mesmo por causa disso. Pelo contrário, a experiência demonstra-me que na maioria dos casos, quando a coisa é assim bem explicadinha olhos nos olhos em sala de aula, sem véus e mantos diáfanos, o desempenho muda substancialmente.

Tanto é verdade, que ele já me perguntou que nota lhe darei caso comece a tirar Bons e Excelentes.

O nível 1 é traumatizante?

Depende.

Se for injusto é capaz de ser.

Aplicado com rigor, justiça e transparência pode ser uma lição muito útil para toda uma turma.