… pois para a generalidade dos visados e para os actuais (e pretéritos) governantes o que foi descrito é motivo de orgulho e não de vergonha.

Para isso bastou ver a forma cândida como as imaculadas irmãs falaram da coisa, em especial daquela que, sorrindo, disse que as escolas públicas fechassem isso é que seria uma poupança, não?

Mas o essencial é que a reportagem, para os putos tóxicos, até prova que as escolas estatais não prestam, pois as outras é que são boas, pois são muito concorridas (escondendo por quem são procuradas e porquê).

O que para uns é delapidação de dinheiros públicos – há escolas públicas que poderiam acolher os alunos que estão com subsídio em escolas privadas – é empreendedorismo e apontam os rankings como justificação, ocultando que a percentagem de alunos carenciados ou com necessidades educativas especiais que acolhem é muito menor do que a dos que são recebidos nas escolas públicas com que concorrem de forma pouco leal.

A narrativa tem vindo a ser construída com paciência ao longo de uma década.

  • As escolas públicas estão a falhar e vão-se criando as condições para que, mesmo não falando, pareça que sim.
  • As escolas privadas são de sucesso, não se explicando como ele é construído e aproveitando para confundir ensino privado puro com o subsidiodependente.
  • A rede pública de ensino tem procedimentos rígidos, não permitindo a liberdade de escolha (o que não é verdade) e a rede privada é muito mais flexível (embora o regulador seja o mesmo).
  • Deve ser dada liberdade às famílias para escolheres a escola em que querem matricular os seus educandos (escondendo que isso só é possível para uma minoria, já favorecida à partida).
  • Argumenta-se que o pagamento directo aos privados pelo serviço público de Educação é mais barato para o Estado, não revelando que isso é conseguido através da precarização laboral dos docentes.

Quando se provar – como aconteceu em outros países – que tudo isto é uma mistificação para redireccionar parte das verbas do orçamento do MEC já os actuais decisores políticos estarão a coberto de qualquer responsabilização, como se pode ver pelos que, há não tantos anos assim, deram autorizações indevidas, colaboraram activamente no combate à rede pública de ensino e acabaram como gestores e consultores dos grupos a quem prestaram favores. E não olhemos apenas para os políticos, pois as chefias intermédias e os facilitadores de gabinete estão enterrados nisto até ao pescoço.

Não é por acaso que dos dois lados das negociações nesta matéria encontramos dois antigos chefes de gabinete.

Mas orgulham-se disso e gozam com quem lhes faz qualquer reparo sobre deveres éticos. Pior, acham que todos agem como eles e que o discurso público não deve condizer com as práticas privadas.

Sei disso, não por ouvir dizer, mas por ver e ouvir em primeira mão.