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Público, 28 de Setembro de 2013

Adoro quando se fazem inquéritos a coisas perfeitamente evidentes para dar a sensação de que algo se está a fazer acerca daquilo que nada se faz de relevante. Aparentemente, o ministro que tanta trela tem dado ao argumento demográfico, esquece-se que ele não se fará sentir apenas no ensino não-superior.

Mas há algo que julgo mais grave e que passa pela sensação que isto dá de o actual MEC não perceber sequer o que se passa no seu país em virtude do discurso e acção do Governo de que faz parte.

Deixando de lado o tal argumento demográfico, temos as razões sociais e económicas que levaram a uma progressiva menor capacidade de atracção de um Ensino Superior cuja oferta é em larga medida um mercado de ilusões que culmina no desemprego ou em empregos de 3ª linha.

Nuno Crato parece não ter percebido dois fenómenos interligados que não sei se a dita comissão de inquérito também é capaz de não perceber:

  • A situação de prolongada crise económica e de erosão dos rendimentos das famílias, quando combinada com deficientes apoios aos alunos mais carenciados, tem consequências naturais na capacidade de prosseguir estudos, em particular quando eles implicam um investimento financeiro substancial, não apenas em propinas, mas em transportes, alimentação e materiais de estudo.
  • Por isso, cada vez mais o investimento no prolongamento da escolaridade para níveis bolonheses (com aquelas licenciaturas que de pouco valem sem um mestrado) se apresenta a muitas famílias como racionalmente errado, pois, salvo raros nichos académicos, não parece garantir equivalente vantagem comparativa no mercado de trabalho. Não é um punhado de investigadores de topo exportados para instituições de renome internacional que apagam as dezenas de milhares de licenciados e mestres desempregados.

Um outro fenómeno que, a breve ou médio prazo, pode agravar ainda mais esta redução (em termos absolutos e relativos) de candidatos ao Ensino Superior, resulta das próprias opções do MEC em relação a uma massificação de vias profissionalizantes sem uma continuidade natural na Universidade (os tais cursos de dois anos para salvar os politécnicos só atrairão os incautos) e a uma diferenciação muito precoce do trajecto escolar dos alunos. Nuno Crato parece – e isso é grave – não ter percebido que ao colocar metas de 40%-50% de frequência de cursos alternativos à via “regular” (mesmo que isso seja quase imposto a quem poderia continuar a fazer o seu percurso normal), vai naturalmente desviar muita gente do Ensino Superior. Mas essa é uma opção política e ideológica aceite por muita gente próxima deste Governo e deste MEC, ou seja, de que nem toda a gente necessita ir para a Universidade e que o seu futuro estará nos “ofícios” que se conseguirão através do maravilhoso sistema dual. Assim sendo, é um bocado ridículo ir instaurar um inquérito à diminuição dos alunos que pretendem prolongar a escolaridade para além do Secundário.

Quando uma das opções estratégicas a nível da Educação é um modelo “alternativo” ao que conduz naturalmente à Universidade, quando se produz um discurso político agressivo em relação aos desempregados qualificados, quando as políticas são no sentido do empobrecimento geral e só se fala em crescimento quando aparecem eleições no horizonte, a opção racional das famílias é desinvestir na Educação, pois é isso que vêem o próprio poder político fazer.

Nomear uma comissão de inquérito, só se fosse para responsabilizar os governantes pelas suas opções miserabilistas.

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