Não me interessa entrar na questão que animou as redes sociais e blogues quase tanto quanto a recuperação do Benfica nos descontos, ou seja, o falecimento de António Borges.

Mas interessa-me analisar com a devida superficialidade o elogio fúnebre que Marcelo Rebelo de Sousa lhe fez ontem na TVI e que se baseou em conceitos que muito estranho.

Disse MRS que António Borges, ao saber do estado de saúde em que estava e principalmente na fase mais terminal, trabalhou incansavelmente e optou por dizer aquilo em que muito acreditava, com coragem, substituindo-se nisso aos elementos do Governo.

Pelo caminho, fez um paralelismo com Maria José Nogueira Pinto e falou na forma como as pessoas que acreditam na eternidade vivem a passagem para essa eternidade, com mais calma e assumindo com clareza as suas convicções.

Isto baralha-me porque, como agnóstico e descrente da eternidade, acho que quem acredita em recompensas celestes pelos bons actos terrestres não deveria ter receio em ser corajoso toda a sua vida e não sentir essa súbita coragem só na iminência de ir para a tal eternidade.

Complicado é quem acha que tudo se paga cá na finitude terrestre falar verdade, sem receio das consequências, ao longo da sua vida, sem esperar pela proximidade do fim da vida. Porque não acredita que será compensado pelas chatices que lhe podem acontecer (e acontecem) cá em “baixo”.

Tenho a certeza que MRS não queria fazer este tipo de elogio que acaba por ser paradoxal: então quem acredita na salvação eterna dos justos só ganha coragem para falar abertamente sobre as coisas quando sabe estar de partida?