O tal “eduquês” – embora a paternidade do termo seja entre nós incontroversa, nem sempre a definição ou aplicação concreta segue o que foi designado” como tal pelo ex-ministro Marçal Grilo. Recordemos que, para ele, o “eduquês” era uma variante do discurso sobre Educação, produzido por alguns especialistas em “Ciências da Educação” e com um vocabulário hermético e formulações muito complexas, que pareciam ser feitas especificamente para confundir os leigos e manter a discussão afastada do vulgo. Adicionalmente, com o sucesso do termo, a sua definição informal passou a incluir também variantes do discurso sobre a Educação muito marcadas pela promoção do sucesso dos alunos a qualquer preço, com a deslocação da responsabilidade do insucesso quase em exclusivo para os professores, assim como teorizações desculpabilizantes como a excessiva contextualização das atitudes de indisciplina e violência, Em paralelo, ao discurso “eduquês” foram sendo associadas práticas pedagógicas muito marcadas pelas abordagens multi-isto ou trans-aquilo e práticas de tipo burocrático destinadas a fazer os professores justificar todas as suas decisões que pusessem em causa os desejáveis níveis de sucesso dos alunos. Sei que esta é uma definição com alguma parcialidade, mas penso que, mais coisa, menos coisa, era disto que se tratava quando, há coisa de 10-15 anos, se vulgarizou a crítica ao “eduquês” a partir dos escritos, mais ou menos justos, de um Guilherme Valente ou de um Gabriel Mithá Ribeiro, a que rapidamente se associou Nuno Crato e um ou outro latecomer, que acabou por se tornar o principal vulto do que se considerou o “anti-eduquês”, ou seja, um discurso inverso destinado a reforçar o rigor e sobriedade do discurso pedagógico, a crítica ao sucesso na base do facilitismo e às práticas curriculares com escasso conteúdo. Embora cedo alguns teorizadores mais políticos tenham associado o tal “edquês” a concepções pedagógicas de “Esquerda”, a verdade é que essa é uma visão simplista do fenómeno, visto que personalidades muito diversas e com trajectos políticos curiosos (desde logo o ex-especialista do IIE, então no CDS, e ex-secretário de Estado, então no PS, Valter Lemos) se podem associar a essa variante do discurso redondo e balofo sobre Educação, enquanto muita gente de Esquerda se distingue por abordagens rigorosas, concretas e substantivas (António Nóvoa, João Barroso). O “eduquês” é mais herdeiro de um abastardamento do discurso pós-moderno, no seu cruzamento com algumas pedagogias libertárias, realmente com raízes à Esquerda (Paulo Freire), do que necessariamente de uma corrente política. Basta verificarmos como há 15 anos o chamado “Estatuto do Aluno” continua preso a concepções teóricas confusas, com preâmbulos palavrosos e intenções fofinhas, tenha sido aprovado com maiorias à Esquerda (o anterior) ou à Direita (o actual).

Tudo isto para dizer que o actual MEC se destacou no combate ao tal “eduquês” e a sua subida ao poder foi vista como a possibilidade de inversão da lógica do discurso sobre Educação que se esconde atrás de subterfúgios de linguagem e apresenta o “sucesso” como um imperativo categórico, apresentando os professores como os principais obstáculos à sua concretização e forçando-os a legitimar burocraticamente todos os seus actos devido a uma radical desconfiança dos responsáveis políticos e especialistas de serviço a cada momento, acerca da má vontade da classe docente, no seu todo. E essa possibilidade parecia mais real quando Nuno Crato repetidamente criticava o centralismo do Ministério da Educação, os “comissários políticos” (inspectores) enviados às escolas para as controlares e prometeu a “implosão” do edifício burocrático-administrativo que estaria a asfixiar a Educação em Portugal.

Resumindo a coisa: tirando a criação das provas finais do 4º ano e a eliminação das ACND (sendo que de todas a Área-Projecto era a que representava a maior excrescência), nada mais se concretizou. O discurso manhoso sobre Educação, com as palavras a servirem de véu sobre a realidade e os números a serem usados de forma truncada e instrumental, manteve-se e a implosão do MEC só aconteceu ao nível da sua eficácia técnica em situações de regulação ou ao nível dos concursos, pois as estruturas de chefias intermédias se mantêm, apenas mudando de nome (de direcções regionais para direcções de serviços) e a estrutura orgânica do MEC ainda se tornou mais centralizada e piramidal, falhando por completo qualquer hipótese de efectiva descentralização ou desconcentração, que o discurso da “autonomia” não consegue esconder. Resumindo ainda mais: o “eduquês” enquanto estilo continua de boa saúde, apenas tendo mudado a substância da estratégia que serve. Antes servia um relativismo paralisante, agora serve um absolutismo das soluções únicas e incontestáveis. Em qualquer dos casos, o uso da “liberdade” como argumento é um enorme abuso.