Professores dos “quadros” de escola/agrupamento – o ódio de estimação, quando não domesticados ao serviço dos novos desígnios, pelos governos do PS e PSD/CDS mais as suas extensões comunicacionais. Por um qualquer problema mal resolvido – ou um conjunto deles – os professores tornaram-se desde 2005 o alvo preferencial do discurso anti-corporativo, anti-privilégios e anti-gorduras do Estado dos governantes pseudo-socialistas e pseudo-liberais que, em vez de os encararem como potenciais aliados numa estratégia de mudança do país, que necessariamente passa pela Educação, optaram por os querer proletarizar, precarizar e demonizar perante a opinião, como se fossem eles os causadores das desgraças nacionais, do défice orçamental, da crise económica, etc, etc. Falo em especial dos professores da rede pública pois, como se sabe, na rede privada há muito impera o professor por ajuste directo, sem garantias laborais que não sejam os favores patronais. Talvez por questões relacionadas com o passado político de muitos governantes, em especial de alguns na área da Educação, a estratégia anti-sindical baseou-se num ataque aos professores “dos quadros” como representantes de uma classe “privilegiada” e tudo foi feito para amesquinhá-la, sendo a fase actual a amputação dos quadros de escolas e agrupamentos na base (horário-zero para os menos graduados) e no topo (criação de condições de trabalho que levam a aposentações antecipadas em largo número), fazendo com que se mantenham na carreira aqueles que ainda não beneficiaram de regalias entretanto eliminadas ou reduzidas, bem como de uma carreira transfigurada, em que a progressão se tornou das mais lentas a nível europeu. No momento presente, ser professor “do quadro” não tem qualquer significado substancial, em termos laborais ou jurídicos. Todas as garantias, constitucionais ou outras, são tábua rasa e todas as medidas são possíveis para enfernizar a vida dos que restam e, tendo vergonha na cara e dedicação à profissão, insistem em não ceder. O espectáculo indecoroso do ano anterior de produção de horários-zero a parte de um exercício de engenharia curricular foi repetido este ano, com um mês de atraso (que é para aprendermos a não fazer greves) com o recurso a uma manipulação absolutamente inaudita da rede escolar, com a proibição de abertura de turmas em escolas com alunos e professores disponíveis e a sua autorização casuística, num dos exercícios de maior centralismo de que me recordo, a que alguns quiseram chamar “reajustamento”. Em simultâneo, enquanto a equipa política procura não polemizar directamente com os professores – embora o desastre de algumas declarações seja a regra sempre que falam mais de uma vez por semana – são mobilizados outros recursos comunicacionais para dar a entender que: a) há professores a mais (quando eles diminuíram muito mais do que os alunos); b) o problema do excesso de contratados no desemprego se deve ao egoísmo dos professores “instalados”. O objectivo permanece o mesmo desde Maria de Lurdes Rodrigues/Sócrates, só que agora, nos tempos de Crato/Passos Coelho o estilo irritadiço e quezilento perante as críticas deu lugar a uma calma falta de vergonha completa, sendo raros os momentos em se tem a coragem para assumir abertamente o plano em desenvolvimento. Os professores “do quadro” são um empecilho a um modelo de carreira docente quase plana – consensualizado com os interesses privados que querem assumir a gestão directa das escolas públicas num novo “movimento” – e em que a domesticação laboral tornará “previsível” o pacote financeiro dessa mesma gestão. Não é de estranhar, portanto, o insucesso de qualquer potencial auditoria às práticas abusivas de grupos empresariais instalados no “mercado da Educação”, num modelo de “PPP-Educação” próximo do que foi feito para a Saúde com os resultados que se vão descobrindo. Por isso, os professores “do quadro” já nem o sequer são formalmente, esperando-se apenas o momento certo para que a mobilidade especial ainda “cega” se torne uma mobilidade especial “direccionada” para aqueles que, como os alunos, se revelarem “indesejáveis”. Quanto a “lutas”, pá, enquanto quem tem a missão oficial de as decretar não sentir no couro o que dói aos outros, há sempre que estar prevenido para todo o tipo de acordos, mesmo daqueles que os não assinam formalmente, mas apenas em acta, Como escrevi já há anos, as “lutas” mais duras são as do quotidiano, travadas na proximidade, quantas vezes com a necessidade de prever todo o tipo de truques e em que a solidão é, tantas vezes, a solução mais segura. São lutas em que a consciência pessoal é a última barreira contra a intoxicação a que estamos a ser sujeitos de forma sistemática.