Eram meados dos anos 80 e nós tínhamos de ler os escritos de Wallerstein sobre a economia-mundo para História Económica e Social.

Gostei, até das partes com que menos concordava pois todos os modelos simples e mecanicistas têm o seu encanto para mentes preguiçosas e aquela trindade centro, semi-periferia e periferia até fazia sentido, mesmo se eu achava que, depois, em termos sociais, a análise era ainda mais simplista ao basear-se apenas no clássico binómio entre os que dominam e os que são dominados.

Vem isto a propósito da forma como os últimos governos parecem ter optado por uma visão de estratificação trinitária do sistema de ensino pago com dinheiros públicos.

  • Com Maria de Lurdes Rodrigues e a criação da Parque Escolar tivemos como consequência uma trindade em matéria de equipamentos escolares: uma minoria de escolas muito bem equipadas para as elites urbanas e pouco mais, um outro lote de escolas intervencionadas, mas com menos aparato ou que acabaram por ficar sem dinheiro para concluir os projectos faraónicos iniciais, quase todas fora dos grandes centros urbanos, numa semi-periferia, e por fim uma maioria de escolas que ficaram na mesma, em processo de degradação e sem meios ou autonomia financeira para intervenções de pequena escala.
  • Com Nuno Crato e as alterações recentes no desenho da rede escolar, na forma de distribuir os alunos e os recursos financeiros vamos passar a ter uma trindade ainda melhor definida em matéria de populações escolares: os que podem ter acesso a escolas privadas ou públicas de topo, em virtude dos mecanismos (subsidiados) de liberdade de escolha e da concorrência no mercado da Educação; os que que ficam nas turmas regulares das escolas públicas de que foram varridos os elementos tidos como indesejáveis e, por fim, aqueles que se diz serem vocacionados para um ensino profissionalizante por se achar que não sabem fazer mais nada ou interessar por qualquer outra coisa.

Em boa verdade, Nuno Crato introduziu, no plano social, um aperfeiçoamento ao modelo da Educação-Mundo que, em termos espaciais, se tinha começado a desenvolver com Maria de Lurdes Rodrigues.

Acredito, até pelo currículo político de ambos, que a inspiração wallersteiniana não será mera coincidência.

Wallerstein