… sobre “Profs em armas”:

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O quotidiano dos professores numa escola evoluiu nos últimos anos de forma algo diferenciada, conforme falemos da docência, enquanto prática profissional na sala de aula ou enquanto relação laboral numa organização.

Na sala de aula, apesar dos epifenómenos que por vezes têm impacto mediático, os aspectos essenciais mantiveram-se, pois a relação pedagógica entre professores e alunos é um fenómeno que não muda radicalmente em pouco tempo. O que mudou foram os meios técnicos disponíveis que agora permitem uma maior diversidade de recursos graças à banda larga, aos computadores e aos projectores que permitem, em muito pouco tempo, aceder a recursos adicionais sobre aquilo que se está a falar, a ensinar,a aprender, seja por questionamento dos alunos, seja porque o professor sente a necessidade de esclarecer melhor este ou aquele ponto. Nesse sentido, o trabalho do professor, em especial daquele que não se rege por planificações estáticas, ficou a ganhar. Em termos negativos, apenas a questão dos telemóveis na sala de aula que introduziram um factor de potencial perturbação que nenhuma legislação elimina, pois é praticamente impossível impedir que sejam usados de forma dissimulada e menos adequada, tudo dependendo da relação de confiança que se estabeleça entre todos.

Enquanto organização a escola mudou bastante num aspecto nuclear que era o da cooperação entre os professores e da troca de experiências entre gente com trajectos e idades diferentes. Agora, em virtude de medidas como a (abandonada) divisão da carreira em titulares e professores, a hierarquização da orgânica interna e das chefias intermédias e o modelo único de gestão unipessoal, existem muito menos laços de cooperação e solidariedade interna, bem como o leque etário dos professores se estreitou, com cada vez menos professores mais velhos com o papel informal de orientadores e também cada vez menos professores mais novos com ideias diversas das instaladas, pois até os contratados que chegam têm mais de 10-15 anos de carreira.

O ambiente tornou-se menos alegre, mais atomizado, menos informal, acentuando-se fenómenos como a formação de pequenos grupos ou cliques na sala dos professores, definidos por interesses muito particulares ou como uma crescente apatia e desinteresse pela informação em primeira mão do muito que todos os anos acaba por mudar na legislação. Muito acentuado nos últimos tempos foi o aumento da ansiedade perante o imenso território desconhecido em que se tornou a carreira, seja para quem se vê empurrado parta uma aposentação amputada, seja para quem, após 20 anos de carreira, é publicamente considerado descartável e excedentário.

Os professores, que na generalidade dos estudos aparecem como uma das profissões que maior nível de confiança merecem pela opinião pública, tornaram-se uma espécie de alvo preferencial de grande parte de uma opinião publicada que os escolheu como alvo prioritário de um discurso amesquinhador que combina uma desconsideração profissional (“foram para professores por não saberem fazer outra coisa”) com uma acusação generalista de “profissão privilegiada” em virtude de alguns direitos que mais do que ganhos por pressão sindical recente são há muito associadas à profissão, exactamente em virtude do desgaste específico que acarreta, desgaste esse muito acrescido nas últimas décadas com a transformação da escola num espaço em que as relações humanas se intensificaram. Há quem não compreenda, sentado no seu gabinete, frente a um computador, que um professor  tem de se relacionar, de uma modo individualizado, com dezenas de crianças ou jovens todos os dias e os tratar não apenas como alunos, mas como pessoas.

O futuro não se adivinha brilhante, com uma espécie de encapsulamento profissional dos docentes, cada vez mais reduzidos a uma faixa etária específica entre os 35-55 anos que se vê obrigada a assegurar funções que vão muito para além do plano educativo, transbordando para a esfera social e mesmo jurídica, para as quais não receberam formação específica, mas para as quais têm sido obrigados a adaptar-se de forma permanente.

Para além disso, em termos humanos estes anos têm sido penosos, pois  o discurso político dos poderes transitórios em especial desde 2005, foi o de apresentar os professores como bode expiatório de todos os insucessos de um sistema que, paradoxalmente, tem recuperado muito do seu atraso e começa mesmo a ultrapassar países que nos querem apresentar como exemplos. A juntar a isso, verificou-se uma quase total quebra da confiança entre os professores e os seus representantes, tanto enquanto cidadãos como enquanto trabalhadores. A acção dos políticos no poder ou na oposição foi a da sucessiva quebra de promessas feitas, usando argumentos falaciosos e dados manifestamente manipulados, para justificar a implementação de medidas decorrentes de um programa ideológico e não da análise objectiva dos factos. Por outro lado, o alinhamento partidário da acção dos principais representantes sindicais dos professores foi-se tornando cada vez mais óbvio, sabendo-se quase de antemão quem se entenderá com o governo em exercício, apenas existindo dúvidas sobre o respectivo timing.

Acresce ainda que se tornou especialmente notório que há uma agenda pouco oculta de medidas a implementar que derivam de interesses particulares instalados nos corredores do poder executivo e legislativo, resultado de uma promiscuidade mal disfarçada entre figuras que transitam dos gabinetes ministeriais para grupos empresariais com projectos de captação de verbas orçamentais.

Neste contexto, considero que os professores são o grupo profissional que mais legitimidade tem para contestar abertamente estas políticas governamentais, com destaque para o desnorte absoluto na Educação, prisioneira de modas passageiras, ideias desgarradas e cortes horizontais sem uma lógica sistémica que indicie um projecto integrado de reforma.

Independentemente da forma concreta destas greves, que nos pode agradar mais ou menos, a mim parece evidente que a sua realização é, de algum tempo a esta parte, um dever cívico dos professores que devem saber-se mostrar como um exemplo para a sociedade de coerência e luta contra o que me parece ser o sacrifício de (pelo menos) uma geração. E considero mesmo que é um imperativo ético de todos aqueles que não encontram neste governo, incluindo a equipa política do MEC, qualquer autoridade moral para criticar os professores por exercerem os seus deveres, mais do que direitos, de cidadãos.