Convém esclarecer alguns equívocos. Em primeiro lugar, não há uma relação necessária entre melhores políticos e melhores salários. Parece incrível mas é verdade. A prova está na decadência do nível intelectual e profissional dos dirigentes portugueses em geral. Quem se recordar da Assembleia Constituinte, onde um deputado mal ganhava para comer, não pode ter condescendência com a Assembleia da República, onde o número de burros, íguaros [sic, deveria querer dizer “ígnaros”] e safados aumenta de forma muito esquisita de legislatura para legislatura. Em segundo lugar, também não há uma relação necessária entre políticos mais bem pagos e políticos mais sérios. O facto só é ilógico à primeira vista. Falamos de quantidades no primeiro caso e de qualidades no segundo. Em tese, um pobre pode ser definitivamente honesto e um rico pode ser irreparadamente corrupto. (…) Basta olhar para os governos. Não é certo, antes pelo contrário, que a corrupção tenha diminuído à medida que os salários ministeriais subiram; é mesmo possível que a grande corrupção tenha aumentado.

4 de Maio de 1990

Bons velhos tempos em que os princípios davam certezas e não era preciso ajoelhar a quem já se chamou pior do que maometano ao toucinho.