Na terça-feira, Cavaco Silva cedeu a uma tentação trágica. A entrevista que deu à Primeira Página da RTP foi certamente uma das maiores vergonhas do jornalismo português. É indiferente saber se os assessores do Primeiro-Ministro deram ordens directas ou indirectas aos entrevistado[re]s. Vamos ser ingénuos e admitir que não deram. Então tem de haver uma explicação para o facto dos jornalistas se prestarem àquele papel de estúpidos e ignorantes, indigentes e incompetentes, cabotinos e sabujos. A explicação ainda é pior do que o zelo dos assessores. Se os jornalistas da televisão são mais cavaquistas do que Cavaco, e são a tal ponto que negam o profissionalismo, é porque não sentem a liberdade de dizer não e pensam que só fazem carreira quando obedecem e vergam. Em suma, é a própria ordem laranja que os torna escravos mentais do poder instituído.

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O País inteiro viu esses jornalistas seguirem o princípio do preconceito, pois cada crítica que se atreviam a murmurar não era do senso comum nem da inteligência, era sempre «o que diz a oposição». O país inteiro viu esses jornalistas dar a deixa, limitando-se a ordenar perguntas mecânicas e inofensivas para Sua Excelência dizer do seu alto pensamento só sobre o que lhe convém pensar, como estradas, empregos, drogas, abonos, até, imagine-se a independência da televisão. O país inteiro viu esses jornalistas com a lei da rolha, arrumando em meio minuto, questões interessantes como as listas sociais-democratas, os lobbys dos senhores barões, a estratégia de coligações e até o famoso caos de que simplesmente se esqueceram. O país inteiro viu esses jornalistas sistematicamente incapazes da réplica, permitindo ao primeiro-ministro dar lições parvas sobre impostos, citar nomeações de técnicos especializados socialistas e centristas e dizer que sempre defendeu dois canais públicos, quando o país talvez preferisse ouvir o primeiro-ministro explicar o terrorismo fiscal que pratica, os militantes laranja que nomeia para todo o lado e a promessa à Igreja que fixou por cumprir. O país inteiro viu esses jornalistas apavorados, cheios de salamaleques cada vez que tinham de fazer de conta que estavam a fazer perguntas difíceis.

Ahhh… o regresso a 7 de Junho de 1991… a esse tempo quase perdido em que havia gente com convicções a criticar o jornalismo subserviente, medroso e vulnerável a pressões e a notícias plantadas.

Na altura “esses jornalistas” eram… Artur Albarran (jornalista?) e Judite de Sousa.

O escriba era… 🙂