Sábado, 11 de Maio, 2013


Belle and Sebastian, Blues are Still Blue

A partir daí pensou que tinha tudo no bolso e pode perder o campeonato devido a uma variante de não jogo de bola, numa estratégia verdadeiramente parva do Jesus.

E, que raios, o Liedson, em menos de 10 minutos, consegue fazer a assistência para o golo do campeonato?

E não sei queixem do proença que marcou para aí mais de 30 faltas a um Porto que só jogou verdadeiramente os primeiros 30 minutos.

… fazer um qualquer outro post, esta noite, que não para acompanhar o jogo da bola entre os fruteiros do norte e os fruteiros do sul.

Numa manifestação de interesse digna de um suíço, até devo dar-me ao trabalho de ver o jogo nestas coisas online.

Já o pessoal que vai passando pelo blogue, numa manifestação de enorme bom senso, na sondagem abaixo, manifestava-se em grande parte neutral, pela excelente razão de não ter recebido fruta que ajude a um alinhamento.

Resta consultar o proença, que hoje deve vestir de tom menos azulado do que é costume, mas isto sou eu armado em zandinga.

O ministério que não sabe dar o número certo de docentes dos quadros ou contratados em exercício consegue, porém, contabilizar à unidade o número de horas de redução da componente lectiva desses mesmos professores.

Foi a pedido do Expresso e o número está numa peça da edição de hoje.

O número interessa-me pois é um daqueles números em que o ministério da educação (assim, minúsculo) se especializou em produzir para consumo público na última década. Em tempos de Maria de Lurdes Rodrigues costumavam ser as horas de faltas que, depois de contextualizadas, se percebia não serem nada do que uma leitura apressada e desatenta poderia fazer crer. Como os gráficos de um qualquer marquesmendes (também assim minúsculo, sem ironia física).

Calcula o mec que semanalmente há 191.775 horas de redução da componente lectiva dos professores.

O que, se tomarmos com bom o número de pouco mais de 100.000 professores nos quadros (os únicos com direito a redução), significa algo perto das 2 horas/aulas semanais de redução média (ou seja, cerca de 9% se contabilizarmos as 22 horas anteriormente consideradas como horário completo).

Vá lá, fiquemos mesmo com o valor de 2 horas/aulas por semana de redução, sejamos generosos, pois é a minha própria redução e eu não me incomodo de ser médio. E porque no caso do 1º ciclo este tipo de redução não se aplica.

Só que…

Só que nos arranjinhos que ao longo dos anos foram sendo feitos em torno dessa componente lectiva se podem destacar algumas medias que alteraram o seu conteúdo funcional, seja através da não inclusão na sua contabilidade de funções e apoios dados a alunos, seja através da necessidade de acrescentar dois tempos/horas/aulas de 45 minutos ao horário dos professores quando surgiu a novidade dos tempos de 45 minutos e blocos de 90 em substituição das aulas/tempos anteriores de 50.

O que significa que a maioria dos professores passou a ter no seu horário a marcação de 24 tempos/aulas/horas em vez de 22. O que significa que quem tinha 2 horas/tempos/aulas de redução voltou a ter 22 tempos/aulas/horas marcadas no seu horário em vez de 20.

Isto parece confuso?

Sim, é, para quem não conhece os requintes do MEC na contabilização do trabalho dos docentes obrigando-os a poupar mais tempos por causa de uma alteração que o próprio MEC fez na organização desses tempos.

Recentemente ficou estabelecido que o horário completo dos professores passava a ser contado ao minuto, sendo 1100 o seu total. Mas, em simultâneo, a fronteira entre componente lectiva e não lectiva esboroou-se ainda mais e o nevoeiro assentou arraiais na fronteira. E os professores passaram a dar mais tempos de aulas ou de trabalho com os alunos para compensar a redução dos tempos de aulas ou de trabalhos com os alunos.

A verdade é que eu, que não ocupo qualquer cargo que não seja dar aulas, tenho actualmente 26 tempos/aulas/horas de 45 minutos de trabalho directo com alunos em vez de 22 de 50 como tinha há 10 anos, antes de ter a tal redução.

Ou seja… tenho 1170 minutos de trabalho com os alunos em vez de 1100, apesar de ter direito a uma redução teórica de 100 minutos dos antigos.

E não é porque na minha escola/agrupamento exista gente maldosa.

Muito pelo contrário. Limitam-se a aplicar as regras em vigor.

O MEC é que alterou sucessivamente as regras da componente lectiva por forma a que, fazendo saber que os professores têm imensos e privilegiados horários reduzidos, toda a gente esteja a trabalhar mais.

No meu caso, a redução de 9% passou a ser um acréscimo de 6,4%.

Porque tudo isto é uma enorme mistificação, de uma desonestidade intelectual enorme mantida de governo para governo, de ministra para ministro, de secretário de estado para secretário de estado.

Se o MEC decidir que, por exemplo, a direcção de turma (o cargo que acho mais importante que um professor pode ocupar numa escola) deixa de ter um crédito horário específico e passa a não entrar no horário que o professor deve permanecer na escola, lá se vão mais 2 tempos/horas que serão ocupados com mais trabalho em cima do anterior.

Só que é fácil atirar um número com muitos dígitos, sem contextualização, para a imprensa e dar a sensação que é muita coisa.

Quando, no fundo, estas 191.755 “horas semanais” de redução dos professores significam, na verdade, mais trabalho dos professores nas escolas em relação há meia dúzia de anos atrás.

Uma outra coisa é o que cada um faz com essas horas e se há gente que anda a roçagar o traseiro pelos bivalves nas escolas, exibindo um vazio directamente proporcional à desnecessária peneirice.

Mas esses… esses… enfim… esses são os que estarão sempre encostados ao lado certo, mesmo quando aparecem de punho no ar. E não há modelo de avaliação do desempenho baratucho e simplório que permita penalizar a sacanice presumida.

Só que, por cada um desses, há muita gente séria que aparece misturada nestes habilidosos números que o MEC divulga em calendário apropriado.

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Disclaimer: os raciocínios e cálculos aqui expostos podem ser usados livremente, sem qualquer referência à origem, incluindo em artigos de opinião, pois eu não perco dinheiro e sempre posso ajudar alguns a complementar os seus rendimentos.

O envolvimento directo do ministro no debate em torno do programa de Matemática quando se sabe que não é parte neutra no assunto e que está de um dos lados contra o outro.

Ou então é melhor assim, já não sei, assumir abertamente a liderança da facção  que tomou o poder.

Exp11Mai13

Expresso, 11 de Maio de 2013

Nem sei por onde começar…

Texto publicado ontem no Sol:

Metas Curriculares, Ensino Básico, Ciências Naturais

Este documento está eivado de erros conceptuais.

Confunde Geologia e Biologia com Ciência, ignorando que a explicação/compreensão de TODOS os processos geológicos e biológicos vem da Física, a única Ciência de facto, por ser autónoma na procura das explicações dos fenómenos naturais que estuda.

Utiliza o termo compreender em praticamente todos os objectivos, mas os termos utilizados nos descritores não levam à compreensão pretendida. Obviamente por que não está lá a Física.

Não diz como se operacionaliza a Lei, ou seja como se vai trazer a compreensão (Física) para a sala de aula de CN. Sabendo que o comum professor de CN não tem conhecimentos sólidos de Física, conclui-se que poucas metas serão atingidas. Pergunta óbvia: Para que serve então este documento?

Veicula opinião e preconceito, em vez de informação rigorosa, para os alunos poderem, eles próprios, formar a sua opinião e decidir racional e fundamentadamente. Frases como “Relacionar os impactes da destruição de habitats com as ameaças à continuidade dos seres vivos” ou “Compreender a influência das catástrofes no equilíbrio dos ecossistemas” transmitem apenas preconceito, impedindo o aluno de um dia compreender como a vida evoluiu na Terra, que foi fundamentalmente através de grandes desequilíbrios. Distinguir catástrofes de origem natural das de origem antrópica forma na mente do jovem a ideia errada de que o ser humano não faz parte da Natureza. E frases como “Construir documentos sobre medidas de proteção dos seres vivos” só servem para criar no jovem a ideia de que o ser humano é uma espécie de Deus que pode controlar a evolução das espécies. Isto vai contra a tal Natureza que se pretende o aluno compreenda.

Parte do princípio que o actual programa de CN é relevante, definitivo e indiscutível. Mas era por aí que se devia ter começado, por uma reflexão profunda e alargada sobre o que uma pessoa com a escolaridade obrigatória deve conhecer sobre o seu planeta para ter uma atitude social educada e civilizada. Depois se discutiriam as metas, e finalmente as medidas a implementar para a correcta e generalizada transposição da Lei para dentro da sala de aula.

Infelizmente, não me foi dado espaço suficiente para comentar as escolhas do MEC relativamente aos “especialistas” que elaboraram o documento agora homologado. O cidadão comum certamente apreciaria conhecer que competências dos autores fundamentaram a escolha de Nuno Crato. Eu, como especialista em Geociências, gostaria muito de os ter à minha frente para lhes fazer as perguntas que um jovem curioso deveria fazer ao seu professor de CN, não fora a Escola actual destruir por completo toda a curiosidade e criatividade inatas ao ser humano, e tão críticas para o desenvolvimento da Ciência e das sociedades educadas e civilizadas.

Fernando Ornelas Marques, http://idl.ul.pt/marques.htm

Antero47

(c) Antero Valério

 

Porque é que as noites não têm nome? Porque metade da vida, exactamente metade da vida, é-nos desconhecida. A qualquer um de nós.

[Göran Palm]

 

Ainda há estrelas e silêncio e quase tudo.