Sem novas ideias e novos protagonistas, não há saída

 

É uma verdadeira ironia o que se passa. Quando se pensava que o mundo estava “certinho”, entregue a economistas, burocratas e gente que sabe fazer contas, verificamos que o descalabro alastra, tomou o sul e vai tomar toda a Europa e sabe-se lá mais que países e regiões. Ninguém está a salvo, literalmente. Por cá, chegámos a um ponto que parece de não retorno, cada dia, semana, relatório ou declaração, estamos um pouco pior.

O que podemos fazer? Muitos vão para as ruas, com bandeiras e cartazes em punho, manifestar-se contra o corte de direitos. Destes, alguns são manifestantes improváveis, não fazem parte da luta ideológica, sempre presente, fazem-no, porque há um tomar de consciência de que é necessário, de que não pode ser de outro modo. Prefeririam ficar em casa, mas são impelidos por uma urgência: a de que não podemos continuar assim.

É já certo que, se deixarmos o mundo entregue aos políticos e especialistas de Bruxelas e a outros que tais (há muitos por essas instituições supra nacionais), não haverá saída. Fazem brilhantes previsões, que geralmente não acertam, análises contraditórias e soluções de madrugada que, ao comum dos mortais, parecem sempre um confronto de interesses, onde os alemães nunca perdem e os outros arranjam tristes justificações, para mais um corte, um imposto, uma taxa, um resgate…

O horizonte é sombrio, espera-nos um futuro incerto, com décadas e, se calhar, até, séculos de desmoronamento e de invernia social. Necessitamos de uma saída de razoabilidade (conceito, no sentido do Rawls) que torne possível acordar princípios de organização social, a partir de novas ideias, que todos possamos compreender, discutir, reformular, alterar…, de forma clara e aberta, sem que se perca o interesse comum, em jogos políticos ou em calendários eleitorais.

Não chega a existência de movimentos que apenas contestam, como se viu agora em Itália, é preciso movimentos que se transformem em capacidade de exercer o poder, de criar verdadeiras soluções, com objectivos individuais e sociais reversíveis e complementares, construindo, criando, inovando, propondo, comprometendo, animando…, dando “razões” para acreditar que a seguir não é o precipício, que os bancos vão abrir no dia seguinte, a segurança social tem respostas, a fábrica não fecha, não há mais rescisões…

Mas, se os que fazem propostas, assinam manifestos e criam opinião continuarem os mesmos, sempre, com ligações, mais ou menos explícitas, a interesses políticos, sociais e económicos conhecidos, é mais do mesmo. Precisam-se novos protagonistas, no centro da discussão social, sem isso, não há novidade, e, sem novidade, não há saída.

Maria Rosa Afonso

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