A entrevista de Sofia Galvão ao suplemento Dinheiro Vivo do DN de hoje merece ser lida por todos aqueles que desejem estar informados sobre o plano A deste governo para o país, aquele plano que existiu desde sempre nas tertúlias de auto-nomeados jovens liberais empreendedores que orbitam em torno da actual liderança do PSD.

Declaro desde já que, em termos pessoais, os escassos contactos que tive com Sofia Galvão por ocasião daquele debate no palácio Foz, foram bastante cordiais e que ela fez o possível para que as conclusões na área da Educação fossem vagamente equilibradas e não um panfleto de um grupo de interesses que estava ali para mimar os secretários de Estado que conhecem dos tempos da Faculdade.

Mas, dito isso, dificilmente encontraria alguém que expressasse de forma tão completa e articulada um pensamento sobre o mundo e o país do qual estou em completo desacordo.

E não estou em desacordo por questões apenas de “ideologia política” mas sim, e mais profundamente, por questões de “ideologia de vida” e de análise do trajecto do nosso país.

Para Sofia Galvão todos os valores que geraram alargados consensos sociais e políticos entre nós são relativos e conjunturais, dependendo da contabilidade do dinheiro que sobre dos negócios do BPN, BPP, para falar dos falidos, e do Banif e BCP, para falar dos que o Estado vai impedindo de falir, mesmo que com isso arrase a CGD e o Orçamento de Estado. Um chumbo que representa mil milhões de euros é pretexto para demolir conquistas sociais, mas não para estancar o oleoduto de verbas enterradas nos ruinosos negócios do grande Centrão. Relembremos que há pouco mais de 3 meses só o Banif levou mais dinheiro do que o montante real das medidas chumbadas pelo Tribunal de Contas.

Para além disso, Sofia Galvão acha que nos devemos comprar com os países de Leste da Europa, os que saíram de ditaduras de matriz comunista há 20 anos ou pouco mais, quando nós já estávamos integrados na CEE e com um regime democrático há quase duas décadas.

IMG_0578

Sofia Galvão esquece-se de duas coisas, que acredito de somenos para a elite que despreza a História:

  • Quem desperdiçou os pletóricos dinheiros europeus na segunda metade dos anos 80 e nos anos 90 foram muitos daqueles que agora querem passar por salvadores da Pátria e grandes gurus. É agarrar em qualque manifesto de economistas ou liberais e traçar-lhes o currículo de encostanço aos Estado que dizem ser gordo e aos subsídios que renegam para os mais carenciados. Não adianta comparar um PREC de menos de um ano com ditaduras de mais de 40 na Polónia, Roménia ou Bulgária. É desonesto.
  • É no quadrante político de Sofia Galvão que existem diversos intelectuais de alegado grande gabarito que afirmam ter sido o Estado Novo uma ditadura benigna e o período dos anos 60 e depois do marcelismo uma época de desenvolvimento económico e início de uma convergência com a Europa, como que antecipando (via ligações à EFTA) a posterior adesão à CEE. Já sei que se falar nas teses de Rui Ramos vão achar que eu estou a embirrar com o homem, mas nem é preciso ir ao grande guru da nossa direita inteligente para encontrar muitos outros (que transitaram da blogosfera para os gabinetes do PM, d’o relvas e de mais alguns) que defendem essa teoria que inviabiliza a comparação agora ensaiada por Sofia Galvão para nos equiparar à Ucrânia, ao Kosovo ou à Letónia.

A verdade é que Sofia Galvão pertence a um grupo de liberais poedeiros de teorias, que não conseguem sentir-se bem no país em que vivem, a menos que o país os considere uma espécie de casta superior, iluminada, sobredotada, que tem o poder e a capacidade de definir quem deve ter direito ao quê, com base nos números falhados de um ministro incompetente e em relatórios feitos por encomenda e com guião a amigos de instituições internacionais escolhidas a dedo.

Sofia Galvão deveria, antes de debitar quem precisa ou não disto ou daquilo, deveria colocar diante de nós os interesses que defende e o que tem ganho, ou não, o escritório de que faz parte em contratos com o Estado e para fazer o quê, já que diz que há funcionários públicos a mais e dinheiro a menos para lhes pagar.

Porque eu gosto de ser claro nestas coisas: quem dá lições de moralidade e cidadania deve, em primeiro lugar, dar o exemplo. Porque se não há dinheiro para pagar a escolaridade que o seu partido votou ser obrigatória também não há para pagar estudos e pareceres aos gabinetes dos amigos.

Se isto é demagógico da minha parte? Olhem que não, olhem que não…