Na Visão desta semana, afirma António Capucho em entrevista: “Que Relvas continue no Governo é um mistério para mim insondável”.

Não gostaria de insinuar que Capucho está a faltar à verdade ou que está distraído.

Vou dizer que ele está apenas a proteger-se de dizer o que muita gente sabe e comenta, mas que fica mal num senador e conselheiro de Estado, para mais do PSD, dizer em voz alta ou para letra impressa.

Claro que a permanência de Relvas no Governo não é qualquer mistério insondável. Pelo contrário, é natural e respeita ordem natural das coisas.

Miguel Relvas está no Governo porque foi ele que produziu a ascensão de Passos Coelho e este não existe sem ele. Mesmo que o próprio Relvas quisesse apear-se da carruagem, mesmo que a sua teia já estivesse acabada, Passos Coelho ainda não ganhou balanço para se deslocar por si mesmo, com força própria. Miguel Relvas é que o ampara, não o contrário. Não é Passos Coelho que mantém Miguel Relvas no Governo. É exactamente o inverso.

António Capucho sabe disso. Nós sabemos disso.

Como saberá, tal qual como qualquer autarca ou ex-autarca do PSD, que Miguel Relvas conseguiu isso através do seu trabalho de sapa pelo país, de múltiplos contactos e tramas com estes e aqueles, de equilíbrio de múltiplos interesses particulares em busca de uma maior fatia do bolo que o Orçamento de Estado pode distribuir.

Não é por acaso que a sua primeira grande vaia pública tenha acontecido num encontro de autarcas e que a sua 2reforma administrativa” tenha ficado ao nível das freguesias e não tenha tocado nos feudos autárquicos a sério. E que a legislação de limitação de mandatos esteja a experimentar o destino que sabemos.

Miguel Relvas é uma criatura política que os autarcas laranja bem conhecem e que eles não receiam. Por causa da tal tessitura de interesses e equilíbrios.

A outro nível, Miguel Relvas foi um desastre político ambulante no Governo, falhando estrondosamente nas suas guerras particulares com a TAP e a RTP. Os momentos de embaraço para o Governo que protagonizou são mais do que os ganhos que garantiu. Mas a verdade é que este Governo existe, em grande parte, por causa dele e, portanto, quem lá está deve-lhe o lugar. Incluindo Paulo Portas. E ele sabe. Os dois sabem.

Miguel Relvas não gosta nem desgosta de Portugal, desde que Portugal lhe dê o que ele quer. Caso contrário, busca o que o faz feliz no Brasil, em Angola ou em Cabo Verde, tudo destinos próprios de um tropicalismo provinciano. Miguel Relvas tem pouco a ver com os génios teóricos do liberalismo nacional ou com os young brats de linhagem que polvilham os gabinetes que ele controla ou tolera. Mas precisa deles arrumadinhos e pagos para ficarem caladinhos, enquanto eles precisam dele para terem acesso directo à teta do Estado que dizem abominar. Os liberais de aviário e o Relvas formam uma curiosa aliança de circunstância, caricatural, que funciona na base da oposição em que a aparente harmonia funcional resulta disso mesmo, do tipo Bucha e Estica, Starsky e Hooch, a Bela e o Monstro.

Miguel Relvas parece ter, a certa altura da vida, achado que merecia um papel de Richelieu ou Mazarino na História de Portugal.

Não sei se não será recordado como um Miguel de Vasconcelos. independentemente do método de defenestração.