Gostei especialmente da iniciativa de confronto cívico que hoje teve lugar nas galerias do Parlamento. perante um Governo que parece um bando de crianças a brincar com o aparelho de Estado na sua estratégia de destruição da vida da maioria da população do país, um grupo de cidadãos cantou a música que deu origem aos movimentos militares que levaram restauração (ou implementação) da Democracia em Portugal.

Poderá haver quem ache que é uma reacção “de Esquerda” mas é, muito em especial, uma reacção “de democratas”, pois a música em causa está directamente ligada ao golpe militar de 25 de Abril e não a outras colagens posteriores.

Perante o que se passou, Passos Coelho começou por esboçar um sorriso mas acabou por ficar com a expressão vazia típica de um daqueles personagens do Philip K. Dick que, como se fossem meros simulacros esvaziados de alma própria, estacam perante um obstáculo, esperando que o removam para avançarem no que estavam a fazer. Como se a emoção tivesse escorrido deles.

Passos Coelho é primeiro-ministro na sequência de uma saturação nacional com o seu antecessor, dono de um estilo muito diferente de intervenção política, planeado mas reactivo. Com uma emoção encenada. Passos Coelho procura a antítese, a tranquilidade encenada.

Passos Coelho sabe que o poder lhe caiu no colo, oferecido pelos portugueses, em fuga desenfreada do solipsismo socrático, sabe que fez pouco por isso, devendo ao seu homem de mão e a um punhado de financiadores, a sua ascensão. Apostou na confiança que inspirava para dizer que queria mudar. Não que ele soubesse bem o quê ou como, para além de uns quantos estribilhos repetidos por um grupo de académicos de enorme prestígio nas suas tertúlias e blogues.

Passos Coelho sabe que não sabe e parece saber que nada vale se não fizer o que lhe é soprado ao ouvido. Ao contrário de Sócrates, não conseguiu ainda alma própria. Cada vez mais é um holograma, a quem nem faz falta o Luís para escolher a gravata.

Passos Coelho optou ser o rosto de um Governo que decidiu, a partir de uns quantos think tanks que se emocionam ao ouvir falar de Friedmann, Hayek e (agora) do recentemente falecido Dworkin, ter uma governação a que chama de liberal mas que não passa de um autoritarismo fiscal em que a crítica ao Estado se faz a partir do controle do aparelho desse Estado para uma forma de redistribuição dos rendimentos que é o contrário da social democracia e que envergonharia qualquer liberal (a) sério. Um Governo que decidiu ser uma versão, para tuga sofrer, do que se passa em alguns estados norte-americanos que cederam aos fanáticos do Tea Party enquistado no Partido Republicano. Um Governo que aspira trabalhar para os ulricos & salgados, embora já trabalhe. E bem.

Não é que Passos Coelho perceba isso. Provavelmente só os Borges e os Ramos atingem isso, seguidos dos Raposos, dos Moitas de Deus, dos Macedos, quiçá uns Mesquitas Nunes colhidos à pressa entre a Católica e umas idas aos States. Ele limita-se a ouvir, a achar que é possível que sim, e a dar rédea solta ao outrora engraçado Gaspar.

Passos Coelho decidiu ser o chefe de um Governo que detesta o país que tem, os portugueses que é obrigado a governar e que, graças a um CDS a quem cortaram rente qualquer virilidade política, desculpem, patriotismo, que outrora proclamou, sente que tem 4 anos para fazê-los mudar, emigrar, empobrecer, definhar ou pura e simplesmente desaparecer. Um Governo que falha previsões sobre previsões, que proclama certezas sobre certezas construídas sobre ficções numéricas e mistificações mediáticas. Um Governo que mente. Conscientemente. Como aquele que veio substituir e que tinha garantido não replicar. Mas que replica.

Passos Coelho parecia ter um rosto humano, ser humano. Como os alienígenas naquele filme do Carpenter.