Sexta-feira, 15 de Fevereiro, 2013


Elbow, One Day Like This

Belíssimo.

Repescado de post anterior apenas com título e link para o Parlamento Global:

Depois de uma redução absolutamente draconiana da despesa no sector da Educação, anunciam-se mais 900 milhões de cortes para 2013-14, A narrativa oficial emanada dos gabinetes governamentais é a de que se gasta muito e mais do que as nossas possibilidades financeiras permitem e que o peso maior da despesa é com encargos “sociais” e com “pessoal” ou “salários”.

Destas premissas decorre que os cortes devem incidir nessas parcelas da despesa. Parece elementar e satisfaz os camiloslourenços que ecoam a narrativa oficial para a opinião pública, quais justiceiros anti-privilégios, nas páginas da “imprensa especializada”, enquanto outros gurus da situação (Bento, Borges) se dedicam a lamentar as falhas de comunicação do governo, que acham inábil na inculcação da “mensagem certa” e da transmissão da “inevitabilidade” das medidas.

A informação com que se polvilham as redacções é seleccionada, amputada, retorcida, de forma a comprovar a dita narrativa e parte do pressuposto que os “indicadores” são aceites com escassa ou nula crítica como bons, fiáveis e actualizados. A quem se opõe a isso tenta descredibilizar-se com o estribilho dos “interesses instalados” ou “corporativos” que tenebrosamente estarão a prejudicar o “interesse nacional”… Como se houvesse corporação mais forte do que a de um punhado de banqueiros.

Assume-se ainda que, pelo meio do “ruído” comunicacional, a injecção de mais 1000 milhões de euros no BPN, os prejuízos na CGD e nos intervencionados BCP e Banif passem como encargos legítimos e não um peso brutal na despesa, enquanto se protesta com aparente indignação contra quem acha que cortar 900 milhões na Educação é trágico para o presente e o futuro do país. Tudo isto combina o despudor típico da aldrabice factual com uma inaudita impermeabilidade moral e ética em relação a qualquer tipo de acusação e demonstração de más práticas, tropelias e falsidades variadas.

A “narrativa” exige tranquilidade e uma postura não conflitual na superfície, um estilo “português suave” de baixa nicotina. Aposta-se na não crispação, na ausência de reacção imediata, na anuência quanto à necessidade de corrigir dados que nunca acabam por o ser. Como aconteceu com o relatório do FMI que alguns já querem fazer renascer como uma “ferramenta útil”, depois de trucidado na primeira vaga da sua apresentação.

Após uma curta retirada estratégica, eis que os dados e propostas renascem como “válidas” na pena e prosa de “especialistas”, os mesmos que de forma recorrente sabem qual a salvação, mas nunca a praticaram. Em particular quando foram ministros, secretários de Estado, assessores, consultores. Os Borges e Gaspares de ontem. Todos apostam na nossa fraca memória, tomando como geral a maleabilidade e volubilidade das suas próprias convicções.

Foi o meteorito.

… em sucessivas peças televisivas. A degradação urbana extrema em Xabregas numa reportagem sobre o aumento das rendas de tugúrios (TVI) ou a semi-ruralidade de algumas zonas do norte onde a água se tornou uma cascata de ouro para os interesses privados (RTP) e as pessoas buscam as fontes ou o rio…

Na SIC ia-se fazendo uma espécie de redescoberta das artes e ofícios de outrora…

Ainda não percebi se é isto que é viver acima das possibilidades.

O que sei é que muito jornalismo andou anos a fio abaixo das suas capacidades.

Na Visão desta semana, afirma António Capucho em entrevista: “Que Relvas continue no Governo é um mistério para mim insondável”.

Não gostaria de insinuar que Capucho está a faltar à verdade ou que está distraído.

Vou dizer que ele está apenas a proteger-se de dizer o que muita gente sabe e comenta, mas que fica mal num senador e conselheiro de Estado, para mais do PSD, dizer em voz alta ou para letra impressa.

Claro que a permanência de Relvas no Governo não é qualquer mistério insondável. Pelo contrário, é natural e respeita ordem natural das coisas.

Miguel Relvas está no Governo porque foi ele que produziu a ascensão de Passos Coelho e este não existe sem ele. Mesmo que o próprio Relvas quisesse apear-se da carruagem, mesmo que a sua teia já estivesse acabada, Passos Coelho ainda não ganhou balanço para se deslocar por si mesmo, com força própria. Miguel Relvas é que o ampara, não o contrário. Não é Passos Coelho que mantém Miguel Relvas no Governo. É exactamente o inverso.

António Capucho sabe disso. Nós sabemos disso.

Como saberá, tal qual como qualquer autarca ou ex-autarca do PSD, que Miguel Relvas conseguiu isso através do seu trabalho de sapa pelo país, de múltiplos contactos e tramas com estes e aqueles, de equilíbrio de múltiplos interesses particulares em busca de uma maior fatia do bolo que o Orçamento de Estado pode distribuir.

Não é por acaso que a sua primeira grande vaia pública tenha acontecido num encontro de autarcas e que a sua 2reforma administrativa” tenha ficado ao nível das freguesias e não tenha tocado nos feudos autárquicos a sério. E que a legislação de limitação de mandatos esteja a experimentar o destino que sabemos.

Miguel Relvas é uma criatura política que os autarcas laranja bem conhecem e que eles não receiam. Por causa da tal tessitura de interesses e equilíbrios.

A outro nível, Miguel Relvas foi um desastre político ambulante no Governo, falhando estrondosamente nas suas guerras particulares com a TAP e a RTP. Os momentos de embaraço para o Governo que protagonizou são mais do que os ganhos que garantiu. Mas a verdade é que este Governo existe, em grande parte, por causa dele e, portanto, quem lá está deve-lhe o lugar. Incluindo Paulo Portas. E ele sabe. Os dois sabem.

Miguel Relvas não gosta nem desgosta de Portugal, desde que Portugal lhe dê o que ele quer. Caso contrário, busca o que o faz feliz no Brasil, em Angola ou em Cabo Verde, tudo destinos próprios de um tropicalismo provinciano. Miguel Relvas tem pouco a ver com os génios teóricos do liberalismo nacional ou com os young brats de linhagem que polvilham os gabinetes que ele controla ou tolera. Mas precisa deles arrumadinhos e pagos para ficarem caladinhos, enquanto eles precisam dele para terem acesso directo à teta do Estado que dizem abominar. Os liberais de aviário e o Relvas formam uma curiosa aliança de circunstância, caricatural, que funciona na base da oposição em que a aparente harmonia funcional resulta disso mesmo, do tipo Bucha e Estica, Starsky e Hooch, a Bela e o Monstro.

Miguel Relvas parece ter, a certa altura da vida, achado que merecia um papel de Richelieu ou Mazarino na História de Portugal.

Não sei se não será recordado como um Miguel de Vasconcelos. independentemente do método de defenestração.

Gostei especialmente da iniciativa de confronto cívico que hoje teve lugar nas galerias do Parlamento. perante um Governo que parece um bando de crianças a brincar com o aparelho de Estado na sua estratégia de destruição da vida da maioria da população do país, um grupo de cidadãos cantou a música que deu origem aos movimentos militares que levaram restauração (ou implementação) da Democracia em Portugal.

Poderá haver quem ache que é uma reacção “de Esquerda” mas é, muito em especial, uma reacção “de democratas”, pois a música em causa está directamente ligada ao golpe militar de 25 de Abril e não a outras colagens posteriores.

Perante o que se passou, Passos Coelho começou por esboçar um sorriso mas acabou por ficar com a expressão vazia típica de um daqueles personagens do Philip K. Dick que, como se fossem meros simulacros esvaziados de alma própria, estacam perante um obstáculo, esperando que o removam para avançarem no que estavam a fazer. Como se a emoção tivesse escorrido deles.

Passos Coelho é primeiro-ministro na sequência de uma saturação nacional com o seu antecessor, dono de um estilo muito diferente de intervenção política, planeado mas reactivo. Com uma emoção encenada. Passos Coelho procura a antítese, a tranquilidade encenada.

Passos Coelho sabe que o poder lhe caiu no colo, oferecido pelos portugueses, em fuga desenfreada do solipsismo socrático, sabe que fez pouco por isso, devendo ao seu homem de mão e a um punhado de financiadores, a sua ascensão. Apostou na confiança que inspirava para dizer que queria mudar. Não que ele soubesse bem o quê ou como, para além de uns quantos estribilhos repetidos por um grupo de académicos de enorme prestígio nas suas tertúlias e blogues.

Passos Coelho sabe que não sabe e parece saber que nada vale se não fizer o que lhe é soprado ao ouvido. Ao contrário de Sócrates, não conseguiu ainda alma própria. Cada vez mais é um holograma, a quem nem faz falta o Luís para escolher a gravata.

Passos Coelho optou ser o rosto de um Governo que decidiu, a partir de uns quantos think tanks que se emocionam ao ouvir falar de Friedmann, Hayek e (agora) do recentemente falecido Dworkin, ter uma governação a que chama de liberal mas que não passa de um autoritarismo fiscal em que a crítica ao Estado se faz a partir do controle do aparelho desse Estado para uma forma de redistribuição dos rendimentos que é o contrário da social democracia e que envergonharia qualquer liberal (a) sério. Um Governo que decidiu ser uma versão, para tuga sofrer, do que se passa em alguns estados norte-americanos que cederam aos fanáticos do Tea Party enquistado no Partido Republicano. Um Governo que aspira trabalhar para os ulricos & salgados, embora já trabalhe. E bem.

Não é que Passos Coelho perceba isso. Provavelmente só os Borges e os Ramos atingem isso, seguidos dos Raposos, dos Moitas de Deus, dos Macedos, quiçá uns Mesquitas Nunes colhidos à pressa entre a Católica e umas idas aos States. Ele limita-se a ouvir, a achar que é possível que sim, e a dar rédea solta ao outrora engraçado Gaspar.

Passos Coelho decidiu ser o chefe de um Governo que detesta o país que tem, os portugueses que é obrigado a governar e que, graças a um CDS a quem cortaram rente qualquer virilidade política, desculpem, patriotismo, que outrora proclamou, sente que tem 4 anos para fazê-los mudar, emigrar, empobrecer, definhar ou pura e simplesmente desaparecer. Um Governo que falha previsões sobre previsões, que proclama certezas sobre certezas construídas sobre ficções numéricas e mistificações mediáticas. Um Governo que mente. Conscientemente. Como aquele que veio substituir e que tinha garantido não replicar. Mas que replica.

Passos Coelho parecia ter um rosto humano, ser humano. Como os alienígenas naquele filme do Carpenter.

Isto não é a troika, é uma vendetta particular, de quem usa o aparelho de Estado com intuitos de eugenia social e profissional.

É indispensável reagir com intensidade semelhante, porque a guerra foi declarada e parece não ter quartel.

Salários caíram 16,1% no último trimestre de 2012

(…)

O INE afirma que a redução dos custos com os salários no quarto trimestre de 2012 resulta, por um lado, da queda de 17% dos custos médios com o trabalho, mas também da redução de 2,4% do número de horas efectivamente trabalhadas.

A queda nos custos de trabalho notou-se particularmente na Administração Pública e Defesa, em que caíram 28,4% só no último trimestre de 2012.  O sector da educação é o segundo mais afectado, sofrendo a segunda maior quebra, de 25% do custo do trabalho.

Só quatro das 18 áreas de trabalho consideradas pelo INE é que escaparam à redução nos custos de trabalho. Nas áreas ligadas às actividades financeiras, aos serviços administrativos, às actividades artísticas e ao sector do aquecimento e electricidade os custos com o trabalho aumentaram.

Excluindo a Administração Pública, os custos com o trabalho caíram apenas 5,7% e não os 14,9% globais. Fora ainda do sector do Estado, as maiores quedas no custo do trabalho sentiram-se no Norte e Centro, onde o índice do INE caiu 11,4% e 9%. Só o Alentejo escapou às quedas.

Página seguinte »