O debate sobre a reforma do Estado é, nos moldes formais e substanciais em que está a decorrer, o cenário privilegiado para a acção dos lobbys nas áreas de acção do Estado em que se pretendem transferir verbas da gestão pública para a privada com o pretexto da maior eficácia económico-financeira e que, nas argumentações mais pornográficas, até se apresenta como sendo de defesa do interesse nacional.

Algo não muito distante da venda de empresas estratégicas na área da energia a interesses estrangeiros.

Mas vamos ao que interessa mesmo: as quatro horas que passei ontem no Palácio Foz, em especial as duas como mero espectador, foram muito úteis para perceber a forma natural e bem oleada como os lobbyistas de hoje já foram governantes ou assessores e consultores de ontem e os governantes e assessores ou consultores de hoje se preparam para serem os lobbyistas de amanhã.

Os códigos de conduta são os mesmos, havendo apenas alguma (ligeira) diferença de idades entre alguns, com raros casos de alguma dignidade geracional que leva a maneiras mais genuínas e menor artificialidade no polimento. Mais calma na atitude e menos sofreguidão no olhar.

E depois há toda aquela dança dos aspirantes a algo, que a proximidade do meio século de vida faz encarar com um misto de bonomia e tristeza, pois se percebe que a ingenuidade é escassa e o funcionamento da cadeia alimentar é cada vez mais evidente.

Pessoalmente, acho que o lobbying deveria ser legal e actividade registada e pública como em outras paragens. Não o sendo, deveriam ser os meios de comunicação social a informar a opinião pública sobre os interesses que ali estavam e para isso não era necessário gravar ou filmar mais do que a assistência no momento do discurso oficial do secretário de Estado e fazer uma espécie de cartografia dos grupos.

E ver os movimentos nos intervalos e quebras para o café.

Só que… isso seria capaz de interferir com redes e conexões, pelo que nada me espanta que certa informação mais não seja do que simples eco desse mesmo lobbying.

Informar não é apenas duplicar mensagens, passa também por verificar a sua fiabilidade, fazer uma espécie de identificação dos motivos que lhes estão na base.

É diferente uma opinião individual de uma opinião de grupo armado até aos dentes de contactos, palmadinhas nas costas e lugares para distribuir depois da concessão.

Que eu estava lá como completo outsider, outlierwhatever? Sim, eu sei, mas eu sempre disse que gosto de me informar e ver em primeira mão os acenos, as piscadelas, as cumplicidades, os negócios quase a ser fechados.