Quarta-feira, 9 de Janeiro, 2013


polish-a-turd

dodo

… em prol do generoso exclusivo servido a gosto. Acontece… no caso da Educação o relatório tem falhas óbvias, mas no JNegócios não há pessoal com conhecimentos técnicos na área. Limitaram-se a reproduzir o que queriam que reproduzissem. Fizeram de eco antes do eco. É pena.

Concordo que o relatório deve ser discutido, mas… em primeiro lugar há que verificar se o que lá está é uma descrição rigorosa daquilo com que temos de lidar.

Este editorial não está online mas neste momento os jornais já foram vendidos, incluindo o exemplar do Livresco, que me mandou a digitalização:

Editorial_J_Negócios

Jornal de Negócios, 9 de Janeiro de 2013

Num relatório entregue ao Governo em dezembro passado, o FMI propõe entre 30 a 50 mil docentes em regime de mobilidade especial, aulas de 60 minutos, 40 horas semanais de trabalho para todos os funcionários do MEC e aumento das propinas no Ensino Superior.

Mas…

Em causa está um relatório do Fundo Monetário Internacional com propostas para o corte da despesa pública em 4 mil milhões de euros, que o Governo recebeu hoje e divulgou na sua página na Internet, depois de este ter sido noticiado pelo Jornal de Negócios – segundo o executivo, numa versão preliminar.

De acordo com Carlos Moedas, a versão final deste documento só foi recebida pelo Governo ao meio-dia, tendo sido de imediato divulgada.

Os cortes que o FMI quer na educação, Mário Nogueira e Nuno Crato.

Governo pretende integrar mais escolas nos mega-agrupamentos.

da Grécia.

 

O estudo é mau, senhor secretário de Estado adjunto, é mau. É mau não apenas porque foi encomendado para atingir certos objectivos, mas porque o faz com evidente incompetência.

Vejamos este naco:

FMI7

Embora não seja claro… se os autores reportam o número de alunos dos níveis de ensino “não-terciário”, julgo ser justo pensar que estão a falar de professores dos mesmos níveis de ensino.

Vimos no quadro inserido no post anterior que o MEC indica ter ao seu serviço 128.945 professores. Sejamos generosos. Vamos lá colocar 130.000 para comodidade e redondez do número.

Então temos 1 professor por cada português em idade activa? Portantosssss, shôtôre, deixa cá ver, 130.000 vezes 25 dá a modos que 3.250.000 portugueses em “working age”, ou seja, “idade activa” para os investigadores tipo-FMI.

Só que… raios, raios, raios… não bate certo!

De acordo com os dados oficiais… a população activa em Portugal situa-se nos 5.587.300 individuos. Os dados do censo de 2011 usados pela Pordata davam um pouco menos, mas mesmo assim mais de 5,5 milhões.

Uma diferença irrisória… apenas 2,25 milhões de tugas… um desvio daqueles de fazer inveja a uma PPP… ou obra pública contratada a amigos.

Phosga-se… c’a ganda erro!!!

E pagaram por esta… turd?

Se há coisa deliciosa nestes estudos é a forma como se rendilham os dados e se fazem os seus contornos.

Eu exemplifico com a questão dos rácios alunos/professor, que anda a excitar o Ramiro, mas apenas porque ele tem problemas básicos de enquadramento com a Aritmética.

Diz ele que em Portugal há 8 alunos por professor nos Ensinos Básico e Secundário (vamos lá ver se depois não muda o post e diz que se enganou…) e que é o estudo do FMI que diz isso.

Ora bem, entre FMI e Ramiro, venha Maomé e escolha o toucinho.

No estudo tipo-FMI temos o seguinte quadro:

FMI6

Só que estes números não batem certo com est’outro quadro que aparece um pouquinho antes:

FMI5Então é assim… para o ano usado no 1º quadro (2010), há 1.567.677alunos nos ensinos “primário” e “secundário” (supõe-se que este inclui a partir do 5º ano, mas a terminologia é de curioso e leigo no assunto) e os professores são 144.615, O rácio dá 10,8 e nunca o da ramirice, nem o do estudo tipo-FMI.

O pior é que falam em full-time teaching staff e no total de professores estão, como é óbvio, muitos com horários incompletos…

Mas há dados mais recentes, de 2011, em que – maravilha das maravilhas estatísticas – houve exactamente 140.000 professores, nem um a mais ou menos, coisa linda de morrer. E 1.536.339 alunos. O que dá um rácio de 11 alunos por professor (15,5 no “primário” e 9,4 no “secundário”).

O secretário de Estado adjunto Carlos Moedas pode achar que isto está bem feito.

Mas não está.

Foi feito à pressa, de forma distraída, com as partes a serem coladas conforme a mensagem desejada.

Aliás para 2012 avança-se um número abaixo dos 129.000 professores e para 2013 de 117.000. Mesmo que os alunos tenham diminuído para 1.400.000 (gosto de manter aquela harmonia baseada no nº 14 relativa ao º de docentes em 2011) ficamos com um rácio de 12 alunos por professor.

Ou seja, nada bate certo com nada e nem sequer ainda estamos a falar em substância… apenas na forma de apresentar os dados.

Que estão todos bichados.

Quanto custou ao erário público esta treta?

parece o Spotem.

Agora são tipo-FMI.

A semelhança é serem encomendados por eles e pagos por nós.

não vivessem os sindicóides de pizzas-fora-de-horas.

Cortar no colestrol bom, que o mau é intocável.

«Uma coisa é o relatório do FMI, outra coisa é o que se diz que é o relatório do FMI e outra coisa ainda é o que o Governo vai fazer», afirmou Nuno Crato.

E o que diz o relatório?

FMI3

Mas há pior… porque há um falseamento objectivo dos dados disponíveis acerca dos custos por turma,a pagando-se os dados mais recentes, com os ajustamentos resultantes dos cortes salariais pós 2009:

FMI4

A última frase é uma objectiva falsidade, novamente, pois as escolas TEIP recebem financiamentos específicos.

Mas tem um aspecto claro: o modelo GPS é o desejado.

Carlos Moedas elogiou o documento, considerando que é muito bem feito, e disse que envolveu consultas ao Governo.

Também concordo que Carlos Moedas o ache bem feito, embora não me pareça em Trebuchet.

Por bem feito, entendo que quer dizer que coloca no corpo do texto o que interessa, disfarçando umas coisitas em nota de rodapé para que não se diga que não está lá.

Falo pela área da Educação, que é aquela em que me é fácil detectar as manigâncias e que sei ser uma área bastante fraca do secretário de Estado adjunto.

Mesmo que se trunquem, distorçam ou eliminem dados conhecidos e disponíveis:

FMI2Neste parágrafo estão contidas diversas distorções da verdade e omissões que deveriam fazer corar os autores da encomenda de que eu gostaria de saber o custo por investigador.

Vejamos… são usados os dados do estudo do Tribunal de Contas na sua versão mais agradável a certos interesses, omitindo-se os dados mais incómodos do estudo feito pelo próprio MEC (os 70.000 euros de custo médio por turma nos 2º e 3º ciclos nas escolas públicas contra os 85.000 pagos aos privados).

EstudoA

Se a este estratagema argumentativo juntarmos o conteúdo de alguns comentários espalhados neste blogue (mas não só) pela brigada ramirília, percebe-se bem que estas conclusões foram definidas à partida, nem que os dados tivesse que ser martelados.

Na falta de legitimação nos estudos internos, optou-se por encomendar lá fora as conclusões adequadas, para apresentar como legitimação de políticas previamente definidas, mesmo que os factos desmintam a sua bondade e mesmo que a fundamentação empírica seja falseada.

Sim, este é um estudo tipo-FMI, como em tempos tivemos estudos tipo-OCDE.

Meras encomendas destinadas a provar o que se pretende.

Acho muito importante saber quanto custou isto por investigador. Aposto que custou mais do que o que o Estado gasta por aluno ao longo de todo um ano lectivo.

E, garanto-vos, isto faz-se num mês, no horário da tarde, com intervalo para um café, sem forçar o ritmo.

O Arlindo já o divulgou e também está aqui (Relatorio-do-FMI-sobre-Portugal-Como-cortar-despesas-e-onde-Janeiro-de-2013) para descarga.

A principal curiosidade é ter entre os autores o director geral de uma fundação ligada ao PSOE.

Acessoriamente, o facto de ser um relatório divertida e adequadamente desactualizado na informação relativa à Educação, a ponto de ser legítimo inquirir se é incompetência ou má fé. Os números usados para comparações internacionais referem-se, em regra a 2009 e 2010, quanto a número de professores, remunerações, estrutura da despesa, etc, etc. Mas, divertida e curiosamente, estão actualizados a final de 2012 quando se trata da desagregação dos números sobre pessoal docente e não docente (quadro 6.1), com dados indisponíveis para outros trabalhos.

FMI1

Os números já são outros bem diferentes em diversos casos, resultantes de cortes diversos e reduções variadas. Para além, disso é interessante como retomam muitos dos aspectos da argumentação socrática, combatida por este ministro da Educação, pelo PSD e por tanta outra gente que devia encomendar o alcatrão e as penas. Sendo uma encomenda do Governo, estranha-se que não tenham sido usados os dados já disponíveis para 2012 sobre a estrutura do orçamento do MEC.

São ainda curiosas as partes em que, se fizermos as contas, os números de uns quadros não batem certos com os rácios apresentados em outros (mais de 1,5 milhões de alunos a dividir por 130.000 professores no “primário” e “secundário” dificilmente dão um rácio de 8-9 alunos por professor, mas pode ser falha de bateria na máquina de calcular). Claro que depois falam nisso numa disfarçada nota de rodapé (nº 59).

Já as considerações sobre diversos aspectos abandonam o território da análise técnica para se colocarem no campo do combate ideológico.

70. Portugal’s education system remains overstaffed and relatively inefficient byinternational standards.
As of September 2012, the MEC employed one out of 25working-age Portuguese as teachers. With 1.5 million (non-tertiary) students in the system,there are 8 students per educator (including teachers performing non-teaching functions). The result is that the cost of paying teachers dominates education spending to a larger degree thanin other OECD countries (Table 6.2). Even a mildly ambitious education sector reform that would bring student–teacher ratios closer to the prevailing EU averages for primary andsecondary education (Table 6.3) would imply that 50–60,000 staff (teachers and non-teachers) would have to be cut.

71.Prevailing rigidities in the education system further aggravate the overstaffing problem.

There is limited autonomy at the school level; notably, schools do not control thehiring of teachers—their largest expense. Teachers can apply to move schools every four years, and compete for available slots on the basis of seniority. Under the system, it is not themore qualified teachers who get redeployed to a position of their choice, but the more senior ones. As a result, schools have little control over their budget or their faculty: schools indesirable locations are forced to absorb more senior teachers with higher salaries and lower teaching-hour requirements.
.
E depois há as mentiras absolutamente evidentes:
72. To date, downsizing measures have not targeted the lowest performing or mosthighly-paid teachers
Portugal’s public sector employment guarantee precludes the layingoff of the tenured teachers, and virtually all the 6,500 reduction in permanent staff over the past two years resulted from attrition, with tenured teachers taking retirement. With some exceptions of voluntary separations, the remaining departures (8,300) were fixed-termcontract teachers who did not have their contracts renewed.

A menos que a navegação à vista já seja também o modo de vida de alguém que, dizem insiders, não tem peso político e passou a ser ultrapassado pelo seu secretário em certos contactos.

Portanto… ou alinha… ou alinha.

A menos que…

Mas como não parece ter coragem de bater com a porta, seja porque está convencido do interesse nacional e de que ele continua a ser o único capaz de desempenhar o lugar (essa teoria desapareceu no fim do Verão de 2011), seja porque passou a acreditar no contrário do que afirmou anos a fio, mantém-se no lugar, servindo apenas para concluir o trabalho das equipas anteriores e assinar os decretos como subsecretário adjunto do ministro Gaspar.

Porque há 4 meses dizia uma coisa, depois de dizer outra coisa ao Sol, quando já tinha garantido que:

Nuno Crato não quer professores do quadro despedidos ou em mobilidade

A pedido do Governo liderado por Pedro Passos Coelho, o Fundo Monetário Internacional (FMI) levou a cabo um relatório onde traça as principais linhas pelas quais devem passar a tesoura pública por forma a cortar os 4 mil milhões de euros nas funções sociais do Estado.

Tudo isto não passa de encomenda, para apresentar legitimação externa.

Truque, artimanha, falcatrua, para não queimar os do costume cá de dentro.

  • Encomendar à entidade mítica “TROIKA”/FMI algo que querem implementar, mas tentando ficar sem o ónus da responsabilidade pelas propostas. Os borges, catrogas, mexias, nogueirasleites e afins protegem-se um pouco em relação a saídas desencabrestadas do passado recente.
  • Atiram a culpa para a situação, criada pelo Governo anterior e a necessidade de satisfazer os “credores”. Isto tem uma parte de verdade por cada duas de mentira. É verdade que a situação criada pelos governos de Sócrates foi dramática, mas é mentira que a “troika” queira mais do que o dinheiro de volta com os devidos juros e é mentira que as soluções sejam apenas as apresentadas.
  • Já agora, pedem para aparecerem assim umas propostas completamente ridículas, disparatadas e exageradas para iniciar o “debate” de uma forma completamente distorcida . Se possível, usam-se dados desactualizados para condicionar os parâmetros desse mesmo debate, ao definir pontos de partida errados.
  • Surgem propostas para suavizar o que a “troika” exigia, como se fosse uma conquista, uma resistência do Governo às “exigências”. No fundo, “recua-se” para as posições desejadas. Os 50.000 eram, afinal, 15.000. Os imensos privilégios dos grupos profissionais (não aplicados a gabinetes ministeriais e cargos de nomeação política) limitam-se a ser as condições laborais específicas a cada função, pois uma coisa é ser médico, outra ser professor, outra ser funcionário das finanças, outra ser polícia.

Tudo isto é básico, rasteiro, transparente, destinado a provocar alarido, alarme e envenenar a discussão. Segue cartilhas antigas de agit-prop, com um ligeiro twist liberal for dummies, em forma de vingança póstuma 👿 .

Já vimos isto, por exemplo, na TSU. Agora, como é de modo mais focado contra os “privilegiados” da sociedade, espera-se mais sucesso. Se possível, apelidam-se de comunistas, esquerdistas, gastadores, quem se opuser. Fala-se num “novo paradigma” quando nem sabem que “paradigma” significa. Quando o decoro é menos que escasso, fala-se em interesse nacional numa perspectiva totalitária, aquela em que alguns sabem e definem o que é alegadamente bom para todos, mesmo contra a sua vontade ou mistificando-os através do processo acima descrito.

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